No dia 17 de dezembro de 1989, o povo brasileiro votava no segundo turno de
uma eleição direta, depois de muitos anos em que não se era permitido exercer esse
direito. A eleição de 1989 entrou pra história do país como sendo a mais
democrática de todas as eleições já realizadas no país até então, pois em
nenhuma delas a liberdade fora tao ampla, e em nenhuma delas a participação
popular tinha sido tao grande.
Fernando Collor de Mello, o vencedor, era o menos credenciado dessa
corrida. Leonel Brizola já havia sido governador de dois estados, Rio Grande do
Sul e Rio de Janeiro, e era assim, o único político brasileiro a conseguir esse
feito. Paulo Maluf havia sido governador de São Paulo. Ulysses Guimarães era o
“senhor diretas” e o santo padroeiro da Nova República. Mário Covas era dono de
8 milhões de votos em São Paulo em 1986 e Luís Inácio Lula da Silva era o líder
do PT, que havia conquistado as prefeituras de São Paulo, Campinas, Santos e
Vitória em 1988. Collor por sua vez era um ilustre desconhecido fora de
Alagoas.
Luís Inácio assistiu atónito ao depoimento de uma ex-namorada chamada
Mirian Cordeiro, que dizia para o Brasil inteiro que Lula tentou convencê-la a
fazer um aborto para impedir o nascimento de uma menina, filha do casal. A
menina, chamada Lurian, tinha 15 anos em 1989. Com essa revelação, Lula viu sua
campanha dar a primeira estremecida.
Mas o golpe final, a pá de cal na sua campanha, veio há 72 horas da
eleição, no último debate da disputa. Os números diziam que 90 milhões de
brasileiros estavam acompanhando esse debate. Foi ali, especialistas afirmam,
que a campanha se decidiu à favor de Collor. O desempenho de Lula foi péssimo.
Lula passou as quase três horas do debate tentando dizer que Collor foi um mal
governador de Alagoas, lugar esse onde Collor obteve 57% dos votos no primeiro
turno.
Começou então a fazer acusações contra Collor que não tinham sustentações e
nem provas. Collor o desafiou à provar e disse que tinha provas contrárias à
tudo o que Lula estava falando e o senhor Luís Inácio não teve sequer uma
palavra pra contra-argumentar, ficando calado, numa situação que hoje
poderíamos dizer, que o Brasil inteiro sentiu uma vergonha alheia por ele.
Em duas oportunidades, Collor disse que Lula não sabia a diferença entra
uma fatura e uma duplicata. Lula ficou calado nas duas vezes, dando a entender
que de fato ele não sabia. Collor então perguntou à Lula se ele concordava com
Brizola, que dizia que João Paulo Bisol, vice na chapa de Lula, não passava de
um corrupto. Lula nem defendeu Bisol e nem atacou Brizola, apenas disse que os
dois tinham divergências que seriam resolvidas depois da eleição. A impressão que
deu ao Brasil foi que ele, Lula, havia feito mesmo uma péssima escolha pra ser
seu vice.
Eu ainda não podia votar, devido à idade, mas aquela euforia da época fez
com que todo mundo se envolvesse nessa disputa. A falta de preparo do PT e o
comportamento esquerdista rebelde assustou grande parte da população votante. Lula
era de fato uma pessoa assustadora. Até então, Collor era uma grande esperança
pro país. E quanto a Lula? Todos pensavam que ele iria sair de cena e nunca
mais botar a cara no país. Enganos em ambos os casos, aprenderíamos mais tarde.