domingo, setembro 19, 2010

Vale a pena ler 32: Especular é preciso

Os especuladores em geral nunca tiveram boa imagem no mercado financeiro, e os especuladores com moedas sempre foram considerados os piores da espécie. São chamados de indivíduos apátridas, gananciosos, irresponsáveis. A essa imagem era oposta outra: a dos dirigentes dos bancos centrais, os bonzinhos patrióticos, responsáveis, respeitáveis, lutando bravamente pelo valor adequado de suas moedas.

Quando se vê o mercado de moedas com mais realismo, no entanto, esses estereótipos caem por terra. Os supostos malvados, os especuladores, são geralmente diretores financeiros de empresas, banqueiros, financistas, e mesmo dirigentes de instituições nacionais que agem motivados pelos melhores interesses de suas empresas, bancos ou nações e não por interesse pessoal. Hoje esses cidadãos compram ou vendem moedas para se antecipar a valorizações ou desvalorizações cujas tendências estão visíveis para quem sabe interpretar os sinais do mercado.

Antes, o mercado financeiro internacional vivia a mercê dos ministros das finanças das grandes nações. Hoje, as nações estão à mercê dos mercados financeiros, dos banqueiros e dos tesoureiros das multinacionais. Sim, é verdade. Houve uma mudança de 180 graus. Mas veja. Hoje, um dirigente financeiro recebe informações, por exemplo, sobre a inflação em certa moeda. Ele faz, então, algumas chamadas telefônicas, aperta alguns botões de seus computadores e dispara decisões que afetam o preço daquela moeda. Quando muitas decisões do mesmo tipo são tomadas, elas acabam forçando a mudança no preço da moeda, substituindo, na prática, o que os ministros das Finanças faziam no passado. Mas e daí? É fácil culpar um estereótipo (os especuladores) pela instabilidade das moedas. Mas qual é a causa verdadeira? Não é, no caso, a política governamental responsável pela inflação? Mais ainda: ao estudar casos como esse sempre se descobre que os especuladores são os que estão dizendo a verdade sobre o valor da moeda. Sistematicamente, é o governo e o dirigente do banco central que têm motivos políticos para ignorar a realidade. Nos dias de hoje, o valor de uma moeda, assim como qualquer outro valor, não pode ser determinado na clausura de uma sala de reuniões.

A queda da moeda da Malásia no final dos anos 1990, por exemplo, pode ser atribuída a muitos fatores. Os especuladores têm pouco a ver com o problema. Um dos fatores principais foi o fato de os bancos do país terem tomado muitos empréstimos dos EUA e do Japão a juros baixos e os terem usado para financiar uma intensa atividade de construção civil, prédios, arranha-céus, aeroportos a taxas de juro muito altas.

Os que tomaram o dinheiro emprestado, que ficaram com enormes dívidas em dólar, é que se lançaram a vender a moeda do país e a comprar dólares freneticamente, para se proteger, quando sentiram a fraqueza da moeda local. Portanto, é completamente errado culpar os especuladores nesse caso. E, em geral, também não é verdade. Ao contrário: são os especuladores, no seu movimento permanente de comprar e vender moedas, o tempo todo, milhares de vezes pelo mundo, que criam a liquidez necessária para o bom funcionamento do mercado monetário internacional.

Reservas em dólar permitem que se impeça uma mudança brusca no preço da moeda e uma fuga de dólares do país motivada por uma grande venda de moeda local, seja essa venda decorrente de uma negociação comercial qualquer, seja essa venda de caráter especulativo. Um banco central deve ser capaz de amortecer as flutuações monetárias mais selvagens. Mas isso nada tem a ver com a proposta de banir a especulação.

Quanto a criar um mecanismo internacional, eu não acho que seja necessário. Os dirigentes do banco central americano estão em contato permanente com os dos bancos centrais alemão, japonês, brasileiro... É claro que todos esses bancos são independentes uns dos outros, as conversações são informais. Deveria haver um mecanismo formal? Não creio. As nações são independentes. Cada uma tem suas próprias motivações.

Diziam que o mercado futuro teve participação direta na quebra da bolsa de New York em 1987. De início, o mercado futuro de moedas foi escolhido como bode expiatório da crise. Cerca de noventa estudos feitos após aquela quebra incluindo o do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), no entanto, chegaram à conclusão oposta: a de que nosso mercado tinha contribuído para evitar que o crash tivesse sido pior, porque abriu válvulas de escape para a especulação, para os negócios futuros. Eu diria que, hoje, como regra, quanto mais a estrutura financeira de uma nação se desenvolve, mais a especulação é bem-vinda.

Muita coisa mudou desde a quebra de 1987. Foram criados alguns sistemas de suspensão temporária de vendas de ações na Bolsa de Nova York e de vendas de contratos futuros de ações aqui na CME. O Fed aumentou o número de horas de atendimento para garantir a liquidez aos bancos em situações de crise. Os grandes bancos internacionais, que são os garantidores em última instância dos contratos na CME, também aumentaram o colchão de liquidez para essas emergências. Neste crash de 1997, embora uma fortuna muito maior tivesse trocado de mãos, pois foram 2,5 bilhões em 1987 e 3,7 bilhões em 1997, tudo se fez em calma. Eu fiquei em casa e dormi tranquilo.

Estou operando no mercado futuro. Faço isso quase todos os dias, mesmo quando viajo. Já operei o mercado da ante-sala de gabinetes ministeriais. Além de sexo, é a única coisa que me diverte. O resto é meio enfadonho...

Dizem que os riscos acumulativos dos instrumentos financeiros podem criar um risco sistémico no sistema económico mundial e que isso pode colocar em xeque a própria sobrevivência da civilização ocidental. Bem, isso não é algo que eu ignore. Não sei que tipos de efeitos cumulativos podem ter se desenvolvido, e isso me preocupa. Não defendo que o sistema seja totalmente desregulado. Acho, por exemplo, que as crises na Malásia, Indonésia, Tailândia e Coréia foram decorrentes de falta de controles.

Emprestaram dinheiro sem as necessárias salvaguardas. O ministro piscava e os banqueiros achavam que era uma garantia. Podia ser um tique, um defeito físico no olho do ministro. Isso não é salvaguarda para o sistema financeiro. Eu me preocupo com sinais desse tipo.

No início dos anos 80, eu dizia que o dinheiro americano era essencial pra lubrificar as engrenagens da economia mundial mas que ao mesmo tempo, quanto mais dinheiro americano pelo mundo, maior era o risco de uma crise financeira. Mas isso eram outros tempos. Isso era quando os EUA tinham dois déficits enormes: o fiscal e o da balança comercial, quando o ouro chegou a 800 dólares a onça e quando nós estávamos sendo pesadamente financiados por dinheiro de fora.

Os deficits acumulados deixaram os EUA como os grandes devedores do planeta. A divida publica América chegou a ser de 5,3 trilhões de dólares e os japoneses de repente começaram a vender os títulos to tesouro americanos. Na verdade, o déficit fiscal persistiu por muito tempo em consequência da taxa de juro muito alta que foi usada para controlar a inflação americana da segunda metade dos anos 70. Mas não se pode menosprezar o fato de que a taxa de juro americana hoje está baixa e que isso tem propiciado um crescimento espetacular da economia, o que ajuda a resolver problemas acumulados.

Meu pai era um socialista. Mas eu sou um capitalista, é claro. Nesse sentido eu não o segui. Mas ele era também um humanista, um crente na igualdade dos homens, na igualdade entre homens e mulheres, entre as raças. Nisso eu o copio. E copio minha mãe também: ela foi uma das primeiras ativistas do movimento pela igualdade das mulheres, e eu me orgulho de ter sido um dos autores da proposta de eliminar a proibição prática que havia contra a presença de mulheres no pregão da CME.

* Por Leo Melamed, imigrante polonês que chegou ao Estados Unidos em 1941. É ex-chairman da Chicago Mercantile Future, a bolsa de mercados futuros de Chicago.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Imigração 1: a torneira havia fechado

No Censo dos Brasileiros no Exterior realizado entre Dezembro de 1995 e Dezembro de 1996, pode-se ver um movimento curioso. O grande êxodo de brasileiros parecia ter perdido a força. Qual era a magica? Talvez a moeda forte e a estabilidade económica do governo FHC? Depois de crescer sem parar entre 1985 e 1995, o numero se estabilizou nessa época.

Em 1995 contava-se 1,325,169 e em 1996 contava-se 1,560,162. Um salto de 17%, que correspondia mais ao rigor na verificação dos dados do que a um fluxo migratório.

Com exceção do Paraguai e dos países vizinhos, o grosso dos brasileiros vivia em áreas urbanas. O país que tinha a maior concentração de brasileiros eram os Estados Unidos, com cerca de 600 mil brasileiros. Vinham seguidos pelo Paraguai e pelo Japão, que ocupavam a segunda e terceira posições, respectivamente.

No caso de Chicago, a quantidade de brasileiro aumentou em 50% em um ano, pois a cidade estava se tornando um pólo de imigração de brasileiros. Em Nova York e Boston, destino típicos dos brasileiros em busca de vida melhor, a população estimada das comunidades continuou a mesma.

A perspectiva de fazer trabalhos considerados sub-empregos ainda atraia os brasileiros com poucas qualificações profissionais. A diferença é que alguns dos indivíduos estudados e com recursos também estava indo embora.

Lisboa viu a comunidade aumentar em 120% no período do Censo. Em Moscou, um grupo de empresários tentavam tirar vantagem do vale tudo capitalista que ocupou o lugar do comunismo. Em Dublin, na Irlanda, os brasileiros criavam cavalos puros-sangues.

Em Munique, na Alemanha, o maior número de brasileiros era formado por músicos. No Líbano, eram pequenos agricultores e comerciantes no Vale de Bekaa. Inclusive um paulista já foi ministro e nessa época, tinha sido eleito deputado.

Outro grupo em expansão eram as brasileiras casadas com estrangeiros, sobretudo na Alemanha, Áustria, Suíça e Itália. Na Coreia do Sul predominavam os pilotos brasileiros. E por ai vai.

Nessa época, eu tinha um sonho de morar fora. Apenas um sonho, que viria a se concretizar poucos anos mais tarde. Não sabia ainda, mas em pouco tempo após esse Censo, eu estaria integrando essas estatísticas.

terça-feira, setembro 14, 2010

O que é um vinho ruim?

Estranhamente, o direito de declarar que um vinho é bom porque você gosta não te dá o mesmo direito de dizer que ele não é bom somente porque você não gosta. Nesse jogo, você faz as suas próprias regras, mas você não pode forçar outras pessoas a aceita-las.

O fato é que existem pouquíssimos vinhos ruins no mundo de hoje comparado com 20 anos atrás. E muitos vinhos que chamamos de ruins são apenas garrafas ruins de vinhos e não o vinho todo de uma marca. Ou seja, garrafas que foram manuseadas de maneira errada e o vinho dentro delas ficou estragado. Estas são algumas características de um vinho considerado ruim:

Fruta mofada – já comeu uma fruta do fundo de uma jarra que tinha um gosto de poeira, de papelão? Sim, mofada? O mesmo pode ocorrer com um vinho, se o vinho for feito de uvas que não estavam completamente frescas e saudáveis quando colhidas. Isso dá um vinho ruim.

Vinagre – na evolução natural das coisas, o vinho é apenas um estágio de passagem entre o suco da uva e o vinagre. Muitos vinhos de hoje ficam pra sempre no estagio de vinho devido a tecnologia ou quando são muito bem-feitos. Se você encontra um vinho que já se transformou em vinagre, isso é um vinho ruim.

Cheiro de químico ou de bactéria – o cheiro mais comum encontrado é acetona ou até mesmo cheiro de ovo podre, borracha queimada ou alho estragado. Se encontrar um desses cheiros, isso é um vinho ruim.

Oxidação – um vinho oxidado cheira fraco, cozido, sem vida e terá o mesmo sabor fraco, cozido e sem vida, pode ter certeza que foi oxidado. Pode ter sido um vinho bom um dia, mas o oxigénio de alguma forma adentrou a garrafa e matou o vinho. Isso é um vinho ruim.

Aromas e gosto cozidos – quando um vinho foi estocado ou transportado no calor, ele pode ficar cozido ou assado. Geralmente, terá um vazamento pela rolha ou a rolha é empurrada pra cima um pouco. Quando isso acontece, terás um vinho ruim.

Rolha – esse é problema mais comum. O vinho fica com cheiro de papelão molhado e fica pior ainda com o contato com o ar, diminuindo a intensidade do sabor original do vinho. Ele é causado por uma rolha com problema. Todo vinho que é fechado com rolha de cortiça corre esse risco. Rolha ruim gera um vinho ruim.

Numa análise final, você gosta? Não devemos ficar por muito tempo martelando o que pode acontecer com um vinho pra ele ficar ruim. Se você encontrar um vinho que tenha se estragado ou simplesmente um vinho que você não gosta, ou até mesmo um vinho que seja considerado bom em todos os sentidos e você não gostou, não compre mais dele e prove outro vinho. Beber um vinho que seja considerado bom mas que você não gosta é o mesmo que assistir a uma série de TV que você detesta, mas assiste pois todos gostam. Você não está gostando, não assista. Mude o canal. Procure outro show.

segunda-feira, setembro 13, 2010

Fatos para serem lembrados 8: A devolução do Canal do Panamá

As terras onde fica o Panamá hoje em dia foram arrancadas da Colômbia pelos Estados Unidos na base da diplomacia do canhão e foram levados à independência em 1903.

Quase 100 anos depois, no final dos anos 1990, O Canal do Panamá, que une os dois maiores oceanos do planeta, foi devolvido ao Panamá. Os americanos devolviam ao governo panamenho uma das maiores obras de engenharia do século 20.

A assinatura de devolução do Canal foi assinada em 1977 e dava o direito dos Estados Unidos intervirem militarmente na região caso a livre navegação nessa passagem estratégica seja ameaçada por algum ditador maluco.

A vontade de passar pelo Istmo do Panamá existia desde do tempo dos navegadores que descobriram o Novo Mundo. Quando chegaram à região, os espanhóis não se conformavam com a sacanagem da natureza: uma faixa de menos de 100 quilômetros impedia a navegação entre os oceanos, o que evitaria uma volta continental.

Em 1534, o imperador Carlos V encomendou um plano pra retirar a faixa de terra. Com a tecnologia disponível na época, tudo não passava de um sonho. Mas em 1879, a França disse que conseguiria tal feito. A França havia acabado de abrir o Istmo de Suez, no Egito, e construído com isso um canal com o dobro da extensão do que pretendido no Panamá. Por isso estavam tão confiantes.

Ferdinand de Lesseps, que chefiou a construção do Canal de Suez, subestimou a tarefa no Panamá. Morreram ali 20 mim trabalhadores. Eles chegaram ali em Janeiro de 1881 e encontraram um cenário hostil, com aranhas, cobras peçonhentas, e logo descobriram que uma coisa era escavar no terreno desértico do Egito e outra era tentar cortar ao meio uma montanha tropical pra fazer um canal no nível do mar. as chuvas torrenciais no Panamá que duram dois terços do ano causavam deslizamentos de terra soterrando trabalhadores e equipamento.

Se isso não fosse o suficiente, os trabalhadores morriam feito moscas, devido à febre-amarela e malária. E não só eles. Os administradores e seus familiares também morriam dos efeitos dessas doenças.

Os franceses concluíram 25% das escavações e em 1888, a Companhia Universal do Canal Interoceanico quebrava e os franceses deixavam a obra inacabada. Foi quando chamaram os Estados Unidos pra entrarem em cena. O país tinha o maior interesse em reduzir os 14 mil quilômetros que separavam Nova York de San Francisco, que tinha que ser feita pela Terra do Fogo, na extremidade da América do Sul. Assim como, queriam dominar essa passagem de ligação entre Pacifico e Atlântico.

O então presidente americano Theodore Roosevelt decidiu comprar a história e mandou bala. De quebra, conseguiu a independência do Panamá e criou bases para as operações militares americanas no continente.

Em 1904, os americanos sofriam tanto quanto os franceses com a chuva e a febre-amarela. Porem, John Stevens, o engenheiro chefe da obra, com 52 anos de idade, tinha experiencia em terras hostis pois houvera trabalhado em muitas construções de estradas de ferro no oeste dos Estados Unidos.

Havia enfrentado índios, matilhas de lobos e condições primitivas de sobrevivência. Ele percebeu que antes de continuar cavando, ele teria que erradicar as doenças. Deu carta-branca ao médico William Gorgas pra erradicar a febre-amarela.

Os franceses, apesar de terem construídos modernos hospitais, cometeram o erro de deixar baldes de água perto das camas dos pacientes pra afastar as formigas. E com isso espalhavam pelo hospital os focos de atracão dos mosquitos transmissores das doenças. Gorgas encontrou o erro e no final de 1905, a febre-amarela estava controlada.

Ainda assim, o total de mortos americanos foi de 5000, a maioria por soterramento. Em 1906, chegaram a um consenso: se o clima, o relevo e a vegetação tornam inviável fazer o talho no continente, porque não fazer com que os navios escalassem os obstáculos?

Decidiram então construir as oclusas e só assim o projeto deslanchou. Stevens abandonou a obra, que passou a ser tocada por um tenente-coronel chamado Thomas Goethals. A Passagem Culebra, hoje chamada de Gaillard, foi vencida com seus 12,6 quilômetros de extensão. O Rio Chagres foi represado, dando origem ao lago artificial Gatun e assim, em 1914, a navegação mundial ganhava um importante atalho.

Com 33,5 metros de largura e 306 metros de altura, as oclusas são o grande segredo do canal, que chegam a levar os navios a 26 metros acima do nível do mar. o sistema é baseado apenas na força da gravidade, que faz com que a água do Lago Gatun vá enchendo os degraus formados pelas oclusas, elevando o navio de patamar.

Separando cada estágio, estão outros pontos fortes da obra, que são as majestosas portas de aço, que na eclusa de Miraflores chegam a ter 25 metros de altura e pesam mais de 700 toneladas. Para que suas dobradiças não fossem sobrecarregadas, entrou em cena o princípio de Arquimedes. Impermeáveis e ocas, as portas abrem e fecham sobre as águas, recebendo um empuxo que alivia o seu peso monumental.

A represa que possibilitou o nascimento do canal, é responsável por gerar energia elétrica pra própria sustentação do Canal e assim como, para municípios vizinhos. Com a devolução dos Estados Unidos, o dinheiro do pedágio, que soma quase 2 bilhões de dólares por ano, passou a ser todo do governo do Panamá, que está engajado numa obra de alargamento do Canal, iniciada pelos Estados Unidos.

domingo, setembro 12, 2010

A Sadia - Parte 1

Uma das maiores empresas brasileiras levou um baque no ano passado. Anos e anos de história e esforço do seu fundador, Attilio Fontana, foram por água abaixo. Em 1986, abriram uma corretora, a Concordia, em homenagem ao nome da cidade onde a empresa foi fundada. A intenção era apenas operar com as ações da empresa, mas com óptimos resultados, passou a oferecer os serviços à terceiros. Sem saber, esse foi o primeiro passo pra derrocada da Sadia.

A história da Sadia começava em 1943, quando o gaúcho Attilio Fontana anunciou a sua saída da empresa que era sócio, a Moinho Concordia. Como ele era um comerciante conhecido e tinha bom nome na redondeza, atendeu a um pedido do prefeito pra entrar na sociedade e evitar a falência do moinho, que incluía também um frigorifico. Com a entrada de Attilio, o negócio saiu do vermelho.

Os sócios imploraram pra que ele não saísse e Attilio disse que ficaria se lhe dessem mais de 50% do negócios e fosse o controlador. E que todos os sócios teriam que lhe vender suas ações pela metade do preço e que se quisessem poderiam sair que ele pagava o dinheiro à vista, mas que poderiam continuar como sócios minoritários, caso desejassem. A maioria concordou e escolheram permanecer na sociedade. Naquele dia, Attilio decidiu o passo fundamental da sua carreira de empresário. Deixava de ser comerciante pra se tornar industrial.

Attilio nasceu em 1900, em Santa Maria da Boca do Monte, no Rio Grande do Sul. Descendente de italianos, falava com carregado sotaque e só vestiu sapato pela primeira vez aos 15 anos.

Bem, o primeiro desafio de Attilio no Moinho Concordia foi comprar maquinário pro frigorífico, mas como o mundo estava em guerra e o comércio oceânico havia parado, ele comprou o maquinário de um frigorífico que havia falido em Guaporé, RS.

Em Novembro de 1944, as máquinas entraram em operação no frigorífico e o produto principal era o porco, que virava linguiça, salsicha, salame e banha. Em seis meses, já abatiam 200 porcos por dia e Attilio mudou o nome da empresa pra Sadia, onde as duas primeiras letras eram de SA (Sociedade Anonima) e DIA eram as três últimas letras de Concordia.

A empresa começou a usar técnicas novas de higiene e conservação através de um sobrinho de Attilio, chamado Victor, que se formara em engenharia química. Também investiu em frangos e perus e mandou empregados estudarem técnicas de alimentos semi-prontos e congelados nos Estados Unidos e Europa. E abriram escritórios em São Paulo e no Paraná. Attilio entrou pra política, chegando a senador da república.
No começo dos anos 50, a Sadia sofria com as perdas de produtos perecíveis, por causa dos longos trajetos dos caminhões entre Concordia e os grandes centros consumidores e os produtos chegavam aos consumidores quase na data de validade.

Omar, filho de Attilio, teve a ideia de transportar a carga de avião e alugou um Douglas DC3 da Panair. A Panair só cedia os aviões aos domingos, então a Sadia o comprou. Outro problema surgia: o alto preço da gasolina dos aviões. Assim para ter acessos aos benefícios fiscais que o governo dava às companhias aéreas, entre eles a redução do preço do combustível de avião, Omar Fontana sugeriu que se arrendassem mais dois aviões, caracterizando assim a existência de uma empresa aérea. Com essa pequena frota foi criada em 1955, a Sadia Transportes Aéreos.

O transporte por avião deu uma vantagem competitiva à Sadia. Seus produtos chegavam aos consumidores mais rápido do que os produtos dos concorrentes. Nas horas ociosas, os aviões eram usados pra servir a terceiros. Com o tempo, a Sadia Transportes Aéreos virou a Transbrasil, que chegou a ter mais de 20 jatos e rotas pro exterior. Mas quando isso aconteceu, a Sadia não usava mais o transporte aéreo, pois com a melhoria das estradas e com os caminhões refrigerados, era mais barato fazer o transporte por terra. Em 2001, depois da morte de Omar Fontana, a Transbrasil quebrou.

Attilio morreu em 1989. Em 1994, o comando da companhia foi transferido pra terceira geração da família, a dos netos de Attilio. Luiz Fernando Furlan, o neto predileto, assumira a presidência do conselho de administração. Walter Fontana Filho, assumia a presidência executiva. Eles foram escolhidos pelas nove famílias dos filhos do fundador, alem dos sobrinhos, que juntos somavam quase 100 herdeiros.

Então, entre 1994 e 2003, Luiz e Walter não se falavam, o gerava muita confusão entre ordens e contra ordens, deixando os executivos perdidos. Luiz não falava com Walter pois esse denunciou falcatruas do pai dele, Osório Furlan, um genro de seu Attilio que fora colocado pra fora da empresa em 1983. A raiva de Luiz por Walter nunca passou.

Por isso o crescimento da empresa foi meio desviado. As últimas filiais de peso que a Sadia abriu, que foi em Tóquio, Milão e Buenos Aires, foram abertas no começo dos anos 1990. E fizeram também poucas aquisições. Em 1999, compraram a Miss Daisy, de sobremesas geladas e a Granja Rezende, de pesquisa genética e produção de aves e suínos.

Mas apesar das brigas, a Sadia crescia. As exportações saltaram de 500 milhões de dólares em 1994 pra 2,3 bilhões de dólares em 2007. O valor de mercado da empresa passou de 450 milhões de dólares pra 3,8 bilhões de dólares no final de 2007. Em 2007, a Sadia pagou 74 milhões de dólares em dividendos.

Por outro lado, a Perdigão, maior concorrente e originária também de imigrantes italianos, estava a beira da falência em 1994, quando foi comprada por 9 fundos de pensão, entre eles o Previ dos funcionários do Banco do Brasil. A Perdigão foi oferecida à Sadia, que não se interessou. Os fundos contrataram Nildemar Secches, um executivo vindo do BNDS. Em 2007, a Perdigão reestruturada atingiu o valor de 4,6 bilhões de dólares, superando a Sadia pela primeira vez na história das duas companhias.

Em 2002, o economista Oscar Malvessi mostrou aos executivos da Sadia que desde 1996, o lucro da Sadia vinha em grande parte de transações com papel e não mais com frango e peru. O seu Attilio já havia dito que não desejava que isso acontecesse. E foi por isso que as coisas deram errado.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Vale a pena ler 31:desmistificando o transplante

Quando a nova lei de transplante foi aprovada, no governo FHC, as pessoas saiam dizendo que estavam com medo de ter seus órgãos retirados durante uma fase de coma, sem que a morte tivesse ocorrido. Esse medo não tem fundamento algum. Ninguém será prejudicado ou terá a morte acelerada por causa dessa lei. Gostaria de deixar isso bem claro. A comunidade médica entende o instante da morte como aquele momento em que o cérebro do doente deixa de funcionar. Não comanda mais as funções vitais do organismo. É o que se chama de morte encefálica. O coração bate, existe pressão arterial, os rins ainda funcionam. O corpo está quente. Mas o quadro é irreversível. Ainda assim, com lei nova ou sem ela, com direito a transplante ou sem, o cérebro já se foi e essa pessoa está morta. Quando há interesse no transplante, essa pessoa tem seus órgãos mantidos em funcionamento por meio de aparelhos, de forma que sejam preservados.

Não há a menor possibilidade de haver uma confusão entre a morte encefálica e o coma profundo. Seguindo padrões internacionais, um protocolo do Conselho Federal de Medicina recomenda uma série de provas clínicas antes do anúncio da morte. Esses exames são realizados duas vezes: no momento da morte encefálica e seis horas depois. São provas de que o cérebro realmente ficou indisponível, de que se encontra em situação irreversível. Para garantir a fidelidade, os testes são feitos por dois médicos. Um deve ser neurologista e nenhum deles pode fazer parte da equipe de remoção de órgãos ou da de transplante. Exige-se também um teste complementar para justificar a morte encefálica. Um exame gráfico, como tomografia ou eletroencefalograma, mede por imagens ou gráficos a atividade cerebral.

As pessoas que acham que vão entrar no hospital e acordar sem os rins, o fígado ou as córneas estão com um receio infundado. Mas esse medo todo deixa uma lição, que é a falta de confiança de parte da sociedade nos médicos e no sistema de saúde. Quem pode acreditar que a saúde funciona quando vê as imagens de pessoas jogadas nos corredores dos hospitais sendo tratadas de forma improvisada porque faltam médicos e leitos? Cenas como essas poderiam produzir até mesmo outra pergunta. Por que devo acreditar que o médico não vai simplesmente me deixar morrer apenas para tirar meus órgãos? Outras tantas perguntas desse tipo podem ser feitas, mas as pessoas precisam ter claro que os médicos têm ética, guiam-se por ela e não ganham nada fazendo o que é errado. São pagos para salvar a vida dos doentes que lhes caem nas mãos e, em caso de óbito, devem lutar para que seus órgãos não sejam desperdiçados.

Quando assumi a chefia do serviço de procura de órgãos do Hospital das Clínicas, em São Paulo, fiquei muito chocado com o caso de um jovem de 20 anos, vítima de acidente de carro. Ele foi atendido num hospital municipal e ali se tentou um hospital melhor, que dispusesse de um aparelho de tomografia. Enquanto os funcionários procuravam por uma ambulância, o jovem teve morte encefálica na maca, no corredor do hospital. Procurados, os pais do rapaz aceitaram a doação, mas ninguém explicou a eles que, para que os órgãos fossem retirados, o corpo teria de ser removido. Um médico de nossa equipe foi até lá para fazer a captação do cadáver. Os pais do rapaz entraram em parafuso quando viram chegar uma ambulância toda equipada e souberam que o filho seria transferido para um hospital de grande porte onde ficaria na UTI para ser submetido a todos os exames que não foram feitos enquanto ele estava vivo e agora, com ele morto, se realizariam. Em crise, os pais acabaram recusando a doação. Afinal, como convencer o pai de um menino que morreu por falta de recursos que ele vai beneficiar outros doentes? Fica no ar a impressão de que a luta pelo órgão é mais importante do que a luta pela vida. Mas não é assim. Para salvar uma vida, às vezes o médico dispõe de minutos, e o relógio é seu maior inimigo. Quando acontece a morte, consegue-se a doação bastando para isso manter o corpo ligado a aparelhos e o coração bombeando. Com isso se ganham horas. O programa de transplante é muito bonito, mas é preciso olhá-lo com frieza porque ele convive com a ineficiência do sistema de saúde.

Sou obrigado a reconhecer que isso mexeu comigo. Quase fiquei maluco. De repente, posso estar colocando um cadáver na UTI, ligo o que tem de mais complexo e moderno em termos de aparelhagem para cuidar de um morto, enquanto, ao lado, há um paciente morrendo. Gastei muito dinheiro com meu terapeuta. Temos de lembrar que pegaremos a rebarba dos doentes que estão sendo malcuidados nos prontos-socorros. Será que a gente não está pegando doentes que poderiam ter sido mais bem atendidos? O que me conforta é que cada doador pode salvar a vida de, em média, oito pessoas. É o que me faz continuar. Além disso, uma quantidade enorme de pessoas vive, hoje, num estado de debilidade permanente. São doentes passíveis de ser tratados. E esse tratamento é o transplante. Essas pessoas têm uma restrição à vida muito importante. Sem o transplante, morrerão. A maioria tem entre 20 e 50 anos, uma faixa etária produtiva para a sociedade. Costumo citar a frase de um rabino de Israel: "Salvar uma vida está acima da dignidade dos mortos".

Só podemos convencer as pessoas sobre a importância da doação com campanhas de esclarecimento. As pessoas devem ser informadas sobre o que é a morte encefálica, a importância da doação, que a retirada dos órgãos não desfigura o cadáver. Se isso tivesse sido feito, não haveria tanta revolta e recusa a doar. Além disso, alguém que se declara hoje "não doador" imagina que jamais precisará de um órgão. Ninguém está livre de pegar uma virose, desenvolver uma doença cardíaca e ser obrigado a entrar numa fila de transplante de coração. As pessoas não entendem isso. Ninguém tem certeza se algum dia não será o último na fila de um transplante. Essas pessoas que estão carimbando seus documentos para evitar a doação deveriam também mandar carimbar que não querem ser receptoras. O egoísmo é inerente ao ser humano, mas deve ser repensado em algumas situações. A doação de órgãos é uma delas.

Eu peço uma autorização à família do morto, pois se não retirar os órgãos, serei processado por quem está na fila. Por outro lado, seu eu retirar os órgãos de todo mundo, alguma família reclamará que não autorizou a retirada. O que me faz pedir a autorização é um sentimento de ordem moral, que para mim vem antes da ética. Ao retirar os órgãos sem o consentimento dos parentes, posso piorar a dor deles. Eu informo sobre a lei. Tento convencer a família de que infelizmente o paciente morreu. Que isso não era a vontade de ninguém, mas ele está morto. E, agora, a gente precisa desses órgãos. A gente precisa preparar a população para não recusar a doação. Mas é a família que tem de tomar essa decisão. A lei me dá esse direito. Ter todo o poder nesse campo é complicado. Por que tenho de assumir esse ônus sozinho?

É preciso definir o que é oferta. Nem todos os hospitais têm meios de manter um corpo em condições de transplante. Portanto, ainda que haja uma nova lei, ainda que a doação seja maçiça, há um limite inevitável, que é o da falta de estrutura. Acontece que, com a lei, os médicos poderão contar com os órgãos dos pacientes que morrem em hospitais com estrutura. As chances de arrecadação de órgãos aumentam, portanto.

É uma lei correta, bem-feita, que cobre tudo. Diz que todo mundo é doador, a não ser que se recuse por escrito na carteira de identidade. Estabelece que cada Estado brasileiro tem de montar uma lista de pessoas que precisam de doação deste e daquele órgão. E ninguém pode furar essa fila, a não ser que os testes apontem uma incompatibilidade qualquer entre o órgão do doador e o organismo do receptor. A lei regula como se fará a retirada do órgão, para onde esses órgãos devem ser mandados, e também atinge os médicos e os hospitais que farão o transplante. Pela lei, os hospitais que retiram os órgãos devem ser cadastrados nas secretarias de Saúde. Os que não fazem parte do cadastro são obrigados a notificar a existência de um possível doador. As equipes médicas só podem fazer transplantes quando autorizadas. A vigilância é contínua. Não há o perigo de um médico sair arrancando órgãos por aí.

Com a lista única, a família perde o direito de decidir que o órgão de um filho seja usado pra um irmão. É um ônus, sem dúvida, mas é a figura do direito coletivo se sobrepondo ao direito individual. Se a captação é única, a oferta de órgãos aumenta e a fila de espera diminui. Todo mundo será beneficiado porque a lista rodará mais rápido. A lista única é um dos melhores pontos da lei. As equipes de transplantes têm agora de cadastrar seus doentes nas secretarias estaduais de Saúde e aguardar a vez.

Acho pouco provável que essa lei facilite o comércio de órgãos. A tecnologia para o transplante é muito cara e a mão-de-obra precisa ser muito especializada para alguém montar um serviço paralelo. Mas quem o fizer estará amparado legalmente. Isso por conta da brecha deixada a respeito daquele transplante que é feito entre dois seres vivos. Antes, esse tipo de procedimento só tinha autorização para ser realizado entre parentes. Agora, qualquer pessoa considerada capaz pode dispor de tecidos, órgãos e partes de seu corpo para fins de transplantes e terapêuticos.

Solicitei à Polícia Federal uma pesquisa sobre esses mitos urbanos que contam histórias de tráficos de órgãos. Não encontraram uma só ocorrência. O Brasil não tem estrutura para isso. Para fazer um transplante é preciso ter um local físico com no mínimo dois centros cirúrgicos e um laboratório de imunogenética para cruzar o sangue do doador com o do receptor para ver se o órgão não será rejeitado. Além disso, é preciso dispor de um número enorme de doadores para acertar um que tenha o perfil genético parecido com o do receptor. Não é coisa que se monte no boteco da esquina.

* Por Milton Glezer, 52 anos, ex-coordenador da Organizacao de Procura de Orgaos do Hospital das Clinicas de Sao Paulo, o maior centro de transplantes do Brasil.

terça-feira, setembro 07, 2010

Muddy Waters

Todo ultimo dia do mês estarei fazendo um top ten das musicas mais acessadas no site Discografia Obrigatória. Interessante ver como continua um alto interesse nas músicas de Muddy Waters. Hoochie Coochie man continua sendo a mais acessada do site no mês de Agosto teve 31 acessos. Deu uma caída com relação ao mês de Julho, pois teve 46 acessos no mês passado. Porem, continua sendo a líder do top tem por dois meses seguidos.

Bill Haley and His Comets continuam também na mesma posição, o segundo lugar, com Rock Around the clock, repetindo o feito de Julho. Só que tiveram mais acessos, chegando ao número de 28, quase encostado na primeira colocada.

The Platters e sua Only you também permaneceu em terceiro lugar, repetindo a proeza do mês passado, mas também aumentou pra 20 acessos, quando em Julho teve 18 acessos.

A partir da quarta colocação do top ten a coisa começa a se alterar. The Drifters com Money honey ocupam a quarta colocação de Agosto, com 17 acessos. Em Julho estavam na sexta posição com apenas 9 acessos. A quarta colocada de Julho, Too much monkey business, com 16 acessos em Julho, saiu do top ten de Agosto.

A primeira novidade do top ten é Elvis Presley, com Love me tender ocupando a quinta posição, também com 17 acessos. Não constava no top tem de Julho. A quinta colocada de julho era Carl Perkins com Blue Suede Shoes, que teve 10 acessos.

A sexta colocada do mês de Agosto é Ray Charles com I got a woman, que obteve 12 acessos. Era a oitava do mês passado, quando obteve 7 acessos.

Muddy Waters novamente com Mannish boy conseguiu alcançar a sétima posição com 11 acessos. No mês passado ela foi a nona colocada com 7 acessos.

A oitava colocada foi Little Richard com Tutti-Frutti, que caiu de posição, teve 10 acessos. No mês passado teve 7 acessos, mas era a sétima colocada. Estão precisando de mais acessos pra se manterem no top ten.

A nona foi Carl Perkins com Blue suede shoes com 10 acessos. No mês passado ela era a quinta colocada com o mesmo número de acessos. E por fim, pra fechar o top ten, outra estreante: Crazy arms, com Jerry Lee Lewis, com também 10 acessos.A décima do mês passado era justamente The Penguins, com Earth Angel.

Por fim, notou-se que:

Mantiveram-se na mesma posição: Hoochie Coochie man, Rock around the clock e Only you.

Subiram de posição: Money honey, I got a woman e Mannish boy.

Caíram de posição: Tutti-Frutti e Blue suede shoes.

Sumiram do top ten: Too much monkey business e Earth angel.

Apareceram no top ten: Love me tender e Crazy arms.

Até agora, tivemos 12 canções que apareceram no top ten. No mês de Agosto, os acessos somados do top tem chegaram ao número de 166, uma ligeira subida em relação aos 150 de Julho, ou seja, 11.1%.

Muddy Waters foi o único artista a ter duas músicas no top ten nos dois meses computados até agora. 53 em Julho e 42 em Agosto, totalizando 95 acessos em dois meses.

1 – Muddy waters com Hoochie Coochie man, 31 acessos (10)
2 – Bill Haley and His Comets com Rock around the clock, 28 acessos (6)
3 – The Platters com Only you, 20 acessos (12)
4 – The Drifters com Money Honey, 17 acessos (3)
5 – Elvis Presley com Love me tender, 17 acessos (36)
6 – Ray Charles com I got a woman, 12 acessos (15)
7 – Muddy Waters com Mannish boy, 11 acessos (21)
8 – Little Richard com Tutti-Frutti, 10 acessos (13)
9 – Carl Perkins com Blue suede shoes, 10 acessos (26)
10 – Jerry Lee Lewis com Crazy arms, 10 acessos (41)

quarta-feira, setembro 01, 2010

O que é um bom vinho?

Um bom vinho é, antes de tudo, um vinho que você goste de beber. Até porque a única proposta do vinho é dar prazer pra aquele que está bebendo-o. Mas, indo mais profundamente, o quão bom um vinho é depende de como é mensurado, baseado em padrões mais menos estabelecidos, gerando resultados dados por experts treinados e experimentados.

Esses padrões envolvem conceitos misteriosos como equilíbrio, duração, profundidade, complexidade e tipicité, ou seja, é verdadeiro ao tipo. A propósito, nenhum desses conceitos são mensurados objetivamente.

Equilíbrio - Comecemos com o equilíbrio. Nesse quesito, usaremos três palavras: doçura, acidez e taninos, pois elas representam os três maiores componentes do vinho. O quarto é o álcool. E mesmo sendo uma das maiores razoes pelas quais queremos beber um copo de vinho, o álcool é um elemento importante na qualidade do vinho.

O equilíbrio é a relação entre esses quatro componentes. Um vinho é equilibrado quando nenhum desses gostos se acentuam em detrimento dos outros, como um tanino muito amargo ou um gosto muito doce. Muitos vinhos são equilibrados, pra maioria das pessoas. Mas se você tem um gosto diferente pra comida, tipo se você não gosta de nada doce, você pode achar que um certo vinho não é equilibrado. Se você acha que ele não esta em equilíbrio, então ele nao estará em equilíbrio pra você. Os profissionais que testam vinhos sabem das suas peculiaridades e fazem um ajuste pessoal pro resultado.

O tanino e a acidez são elementos endurecedores do vinho, pois fazem o vinho parecer mais firmes na sua boca, enquanto o álcool e o açúcar (se existir algum), são elementos amolecedores. O equilíbrio de um vinho é a relação harmônica entre os aspectos firmes e os moles de um vinho e um indicador chave da sua qualidade.

Duração – quando nós chamamos um vinho de longo ou curto, nós não estamos nos referindo ao tamanho da garrafa ou em quanto tempo iremos termina-lo. A duração é uma palavra usada pra descrever um vinho que dá a impressão de descer ao longo do seu paladar, que você ira saboreá-lo em toda a extensão da sua língua, em vez de parar de sentir o gosto ainda na metade do seu aproveitamento.

Muitos vinhos de hoje são sentidos logo no seu paladar, dando uma boa impressão logo que você experimenta-os, mas eles não vão à longa distancias dentro da sua boca. Eles são curtos. Geralmente, altos níveis de álcool ou de taninos são os culpados. A duração é um sinal certo de boa qualidade.

Profundidade – este é outro atributo subjetivo e imensurável de alta qualidade de um vinho. Diz-se que um vinho é profundo quando ele parece ter uma dimensão de verticalidade, isto é, não tem um gosto sem graça e em uma dimensão na sua boca. Um vinho sem graça não pode ser um bom vinho.

Complexidade – não tem nada errado com um vinho simples e direto, principalmente se você gosta dele. Mas um vinho que mantém elementos diferentes que vão se revelando, sempre trazendo pra um novo sabor ou impressão, é um vinho que tem complexidade e é geralmente considerado de melhor qualidade.

Alguns especialistas usam o termos complexidade especificamente pra indicar que um vinho tem uma multiplicidade de aromas e sabores, enquanto outros usam esses aromas e sabores de forma mais holística e menos precisa, para se referir a impressão total que o vinho dá a você.

Acabamento – é a impressão que o vinho deixa na parte de trás da sua boca e na sua garganta depois que você engoliu. Também é chamada de pós-gosto. Em um bom vinho, você pode ainda perceber os sabores do vinho, como se é frutificado ou mais spicy. Alguns vinhos terminam quentes, por causa do alto nível de álcool ou amargo, por causa do tanino, mas que passam logo. Outros vinhos não tem nada a dizer sobre eles mesmos depois que vocês os engole.

Tipicité – com a intenção de julgar se um vinho é fiel ao seu tipo, você deve saber qual tipo de vinho você supostamente está indo testar. Assim, você tem que saber as características do vinho feito pelas mais importantes variedades de uvas e as clássicas regiões de vinhos do mundo.

Só pra terminar, voltemos a questão do equilíbrio. Para uma primeira experiencia sobre como a questão do equilíbrio funciona, tente isto. Prepare um copo de chá bem forte e bote ele pra gelar. Quando você bebe-lo, o chá forte irá ter o sabor amargo, porque é muito tânico. Agora adicione suco de limão e o chá irá ter sabor adstringente (comprimindo os poros da sua boca), por causa do ácido do limão e o tanino do chão que estão acentuando um ao outro. Agora adicione muito açúcar na sua mistura. A doçura deve contrabalancear o impacto acido-tanico e o chá irá ter o gosto mais soft do que antes.

terça-feira, agosto 31, 2010

Fatos para serem lembrados 7: A libertação de Kosovo

No final dos anos 1990, a OTAN fazia chover mísseis e bombas sobre a Iugoslávia. A intenção era acabar com a repressão à Kosovo, uma província rebelde onde a maioria da população, que era formada por albaneses e muçulmanos, tentava se libertar da mão de ferro dos sérvios.

Era a primeira vez, em quase 50 anos de existência da OTAN, que ela atacava um país soberano acusado de atacar o seu próprio povo. Ate o começo da ofensiva da OTAN, já tinham sido mortos mais ou menos 2000 albaneses pelas forças Sérvias. E o número de refugiados era de 250 mil cidadãos. Foi também o maior bombardeio na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Milosevic dava trabalho. Quatro anos antes, ele tentou criar a Grande Servia, incorporando territórios habitados por sérvios na Croácia e na Bósnia. Quando finalmente houve uma intervenção militar através de bombardeios às posições servias em 1995, Milosevic logo assinou a paz.

Mas nessa ofensiva em questão, a Iugoslávia vinha com a economia em pedaços, oriunda de umas sanções internacionais. Milosevic havia fechado os jornais, acabado com a oposição e tirado rádios do ar. Mas o problema era que os sérvios apoiavam em massa o furor nacionalista de Milosevic. A origem desse comportamento nacionalista estava na independência perdida 600 anos atrás, quanto o exército Otomano esmagou a nobreza sérvia numa batalha justamente em Kosovo. Então os sérvios cresceram memorizando poemas de heróis guerreiros.

E nos 500 anos de dominação turca, eles se apegaram a uma teologia nacionalista da Igreja Ortodoxa, que louvavam o herói nacionalista e execravam qualquer estrangeiro, pois eles vêem os estrangeiro como um herege que queria destruir o que é deles. Por causa disso, Kosovo era considerada o coração da sérvia.

Em 1987, quando a Iugoslavia ainda tinha 6 repúblicas, Milosovic escolheu Kosovo pra dar inicio à sua mudança de burocrata comunista a líder nacionalista. A partir disso, eslovenos, croatas e os bósnios muçulmanos declararam independência. Os albaneses ficaram pra trás. Em outras palavras, das seis Republicas, 4 viraram países independentes: Eslovenia, Croatia, Bosnia Herzegovina e Macedonia.

Por terem ficado pra trás, o albaneses e muçulmanos de Kosovo estavam levando fumo dos sérvios nos anos seguintes. Mas depois de dez semanas após os bombardeios incessantes da OTAN, a guerra contra Iuguslávia chegava ao fim.

Numa reunião com o ex-primeiro ministro russo Viktor Chernomirdin e com o presidente finlandês Martti Ahtisaari e vendo que não tinha outra opção, Milosevic concordou com o plano de paz que colocava uma enorme força militar pra ocupar Kosovo.

O plano de paz ditou a retirada de 40000 soldados e policiais sérvios de Kosovo, a ocupação de 50000 soldados da força de paz internacional e a instalação de uma administração provisória da ONU.

Essa foi a primeira guerra marcada pelo combate à distância, como se os generais estivessem jogando vídeo game, e sem o envio de soldados pra fazer a conquista terrestre. Os mísseis eram lançados a mais de 1000 km de distância, a partir de navios e também de lança mísseis no solo. Foi também a última grande movimentação militar do século.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Ótimo negócio (pra quem tá ganhando)

Já se foi dito que uma das melhores maneiras de abocanhar a grana de alguém é quando este alguém para de pensar com o bolso e começa a pensar com a emoção. Veja o exemplo do corretor de imóveis. O sujeito leva você pra comprar uma casa ou um apartamento e você gosta tanto, e pensa logo que está dando uma festa ali, que seus filhos irão crescer correndo por entre aqueles corredores e no final, você se esquece até que o corretor não é seu amigo e que está ali somente pra deixar o seu bolso mais leve.

Outro exemplo é a galera que lucra fazendo festas de casamento. Estou até pensando em entrar nesse ramo. É uma maravilha. O sujeito não se incomoda de gastar e mete a mão no bolso. Na verdade, a maioria dos sujeitos se incomodam sim, mas pra não começar o casamento já brigando, concordam com os gastos exagerados e sem noção.

Melhor ainda pra essas empresas é se o pai da noiva estiver bancando a festança. Minha filhinha está casando, vou dar do bom e do melhor. Esse é o pensamento. Também é o meu. Espero poder dar uma festa muito boa para as minhas filhas.

Mas as empresas envolvidas lucram somente por causa desse sentimento. Uma fotografo normal cobra digamos que 30 dólares por hora pra cobrir um evento qualquer. Pra casamento, ele cobra 100 dólares por hora, pois sabe que os bestas irão pagar de bom grado. É o empreendedor lucrando no que eu chamaria de indústria dos sonhos.

E vai-se de buffet, de aluguel de casa de recepções, estilistas, decoradores, cabeleireiros, e etc. Hoje em dia, os organizadores de festas de casamento faturam mais do que a indústria toda de entretenimento no Brasil, é brincadeira?

Digamos que o sujeito não tenha sogro ou mesmo um pai abastado e que este mesmo sujeito conseguiu guardar na poupança a soma de 50 mil reais pra dar entrada no seu sonhado apartamento. Então a sua namorada quer porque quer uma festa de casamento. Lá se vai a grana dele. Isso não é somente um péssimo passo econômico, mas também uma primeira mágoa antes mesmo de começar.

Olhe só, tudo é pago. O padre é pago, o DJ, a luz, fotos, filmagem, decoração, igreja, cadeiras, mesas, toalhas, comida, bebida, vestida noiva, roupa do noivo, alianças, e ops, a lua-de-mel. A lua-de-mel hoje é dia é tão necessário quanto um cinzeiro numa moto, pois pelo que sei, a lua-de-mel quando foi lançada era pro marido tirar a virgindade da esposa, a noite de núpcias, a primeira noite do casal sem roupas. Ah, tempos inocentes.

Se o sujeito alugar um carro antigo e convidar 200 pessoas, esses 50 mil ai não dão nem pro começo. O que quero dizer é que, se você é um sujeito que não é milionário, que deu duro, ganhou seu dinheiro com seu suor e que ninguém está bancando a festa, meu amigo, não faça festa de casamento não. Abra um negócio, compre um imóvel, que vocês serão bem mais felizes. Podem dar uma festinha simples, pois isso também é cool hoje em dia. No longo prazo, você vai ver que estou certo.

Mas como eu sei que esse conselho é em vão, fica uma ótima dica caso você queira investir em um negócio certo. Sim, eu escrevi isso somente pra irritar as mulheres.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Vale a pena ler 30: historiador dos bons

O Brasil do final dos anos 1990 era um país que era governado por um presidente com vocação de desentupidor de pia, o que é um grande serviço. Quando você olha para o passado, verifica que o Brasil é uma espécie de pia entupida, na qual os problemas surgem, vão se acumulando, mas os governos não fazem nada. Aí, a cada vinte, trinta ou quarenta anos, aparece um governante e remove o lixo. Fernando Henrique cumpriu essa tarefa, seguindo outros exemplos históricos. Posso citar o visconde do Rio Branco, primeiro-ministro de dom Pedro II. Ele foi o desbloqueador de uma porção de impasses da política brasileira quando chegou ao poder, em 1871. Os grandes problemas, na época, eram o trabalho escravo e, veja como o Brasil não mudou, a atração de capital estrangeiro. Ele criou a Lei do Ventre Livre e incentivou a construção de estradas de ferro por meio de um sistema de garantia de lucros mínimos. O Brasil atual esperou que Fernando Collor fosse essa pessoa, mas ele não tinha maturidade nem preparação intelectual. Já Fernando Henrique era uma pessoa bem preparada, e a prova disso é a conversão que ele fez nas próprias idéias sociológicas do início da sua carreira até quando ocupava o cargo de presidente.

Ele era acusado de renegar o que escreveu, mas isso era uma bobagem. Homem político não tem idéia. Quem tem idéia é sociólogo. Fernando Henrique não foi eleito para aplicar uma teoria. Essa acusação era até um elogio, sinal de que ele não era um fanático das próprias idéias. Além disso, Fernando Henrique gostava de ser presidente. Isso é uma coisa importantíssima, porque nós vínhamos de quatro governantes que detestavam ser presidentes.

Fernando Henrique gostava do exercício do poder no sentido autêntico. Os outros só gostavam da liturgia do cargo, da bajulação e das viagens. Sarney, na verdade, não queria ser presidente. Queria ser escritor. Para Collor, a Presidência era um derivativo da vida de playboy. Já Itamar era um engenheiro fracassado e por isso migrou para a política. Nos países desenvolvidos, os governantes são recrutados entre os melhores em suas atividades. Já no Brasil quem não dá certo em nada vira político. Nisso Fernando Henrique também era exceção: ele era um sociólogo bem-sucedido que entrou para a política. Outra particularidade: em qualquer outro país, acabou a Presidência da República, tchau!, o sujeito vai para casa ou cria uma fundação. No Brasil, eles viram almas penadas. O que foi Jânio Quadros durante trinta anos? Collor seguiu o mesmo destino. Vai ficar trinta anos criando instabilidade para o país.

Eu, particularmente, fiquei muito decepcionado com Getúlio Vargas depois que li seus diários. Eles mostram que ele foi um superburocrata. No diário dele não há uma só frase que denote uma convicção. Mas, para o bem e para o mal, Getúlio Vargas é a figura dominante da política brasileira no século XX. Será fundamental para o historiador do futuro entender o Brasil do nosso século, assim como Pedro II em relação ao século XIX. Getúlio durou no Brasil porque tinha qualidades que não eram brasileiras. Primeiro, ele era uma pessoa serena, o que é raro por aqui. Em segundo lugar, era um sujeito com um autodomínio admirável.

Não acredito que o brasileiro tenha essas qualidades todas que passou a atribuir a si próprio. O que Sérgio Buarque disse não foi entendido direito. Ser cordial pode ser também um defeito. O "homem cordial" é aquele que age com o coração, que não raciocina segundo parâmetros lógicos, mas sim de acordo com impulsos afetivos. Quanto ao destino do povo brasileiro, acho que não somos talhados para nenhuma posição de liderança no mundo. Se conseguirmos ser um Canadá dos trópicos, já estará muito bom.

O Canadá é um país que nunca teve ambições de liderança mundial, nem será capaz de rivalizar com os Estados Unidos na maioria dos terrenos. Mesmo assim, consegue manter um crescimento econômico respeitável, distribuição de renda exemplar e um regime de liberdade sem defeitos. Podemos esperar mais do que isso?

Essa idéia de que o Brasil vai entrar pro primeiro é de um provincianismo enorme. Com o fim do comunismo, não existe mais o Segundo Mundo, portanto acabou também o Primeiro. O que existe são uns nove ou dez países realmente desenvolvidos e o resto, um grupo que engloba nações que vão da Espanha ao Sudão e estão em diferentes estágios. O que importa, em vez dessa besteira, é desenvolver-se o máximo possível sob um regime de liberdade.

Existe um modismo entre os intelectuais brasileiros de construir teorias destinadas a explicar o Brasil. Mas toda essa tradição de explicação do Brasil, muito antiga, não tem nada a ver com ciência. É um gênero literário, e ainda por cima importado. Todos os países periféricos da Europa, que ficaram à margem do desenvolvimento capitalista, conceberam, no século 19, uma espécie de angústia de identidade e é por causa dessa angústia que surgem esses livros. Você vê isso na Rússia muito bem. Isso passou para a América Latina. Deu boas coisas, como Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Mas é um problema de país inseguro. Essa literatura é puro impressionismo sociológico. Vamos pegar, por exemplo, um livro-chave da interpretação do país, Retrato do Brasil, de Paulo Prado. A frase inicial diz assim: "Numa terra radiosa vive um povo triste". Se me pagassem muito bem, escreveria um livro partindo do oposto e explicaria o Brasil da mesma maneira: "Numa terra triste vive um povo radioso". O povo brasileiro é alegre. E não há nada mais triste do que a natureza tropical, que é barroca. Você já viu coisa mais deprimente do que Ilhabela? É uma paisagem excessiva, que esmaga as pessoas.

O intelectual brasileiro, quanto mais delirante for, mais é considerado inteligente. O cineasta Glauber Rocha era um delirante; o antropólogo Darcy Ribeiro era outro. O essencial do que ele fez foi requentar, sob uma aparência esquerdizante, as idéias de Gilberto Freyre. Gilberto exorcizou o complexo que o Brasil tinha por causa da mestiçagem, transformando isso num valor positivo. Depois dele, essa questão deixou de preocupar os intelectuais. Veja a geração de Celso Furtado e Raymundo Faoro, por exemplo. Mas aí vem o Darcy e ressuscita, pelo avesso, um problema que não existia mais, com afirmações do tipo "mestiço é que é bom". Só aqui, também, cantores de música popular viram pensadores. No Brasil, quanto menos objetivo você for, mais você é considerado inteligente. No Brasil, a objetividade é considerada coisa para comerciante.

Uma das questões que passam ao largo da analise de sociólogos e historiadores é o aparecimento do Brasil do interior. Antigamente, o país só tinha litoral e só de São Paulo para baixo havia algum desenvolvimento fora das capitais. Hoje isso mudou. Veja o fenômeno de Petrolina, às margens do São Francisco. Na região de Uberaba, o pessoal tem uma prosperidade incrível. Esse Brasil do interior, que se afirma cada vez mais, tem valores bastante diferentes. Eu diria até que é um Brasil meio vulgar, em relação ao litoral. Em termos de cultura é a boçalidade completa. Uma coisa que me intriga especialmente é a popularidade dessa música sertaneja em termos nacionais. Antigamente, só quem se interessava por música caipira era folclorista. O meu medo é que esse pessoal venha a se afirmar sobre a vida brasileira com formas meio pobres de sensibilidade.

Em termos políticos, seria uma versão mais radical do coronelismo. Os coronéis de hoje, de Goiás, Mato Grosso e Rondônia, têm muito mais poder do que os coronéis do Nordeste. O senhor de engenho mandava sobre uma área pequena. Hoje eles mandam sobre áreas enormes que percorrem de helicóptero. É só lembrar da novela O Rei do Gado. Quando esse pessoal começar a pesar na vida política brasileira para valer, o que deve acontecer nos próximos decênios, a História do Brasil vai ser um pouco diferente. E não vai ser necessariamente melhor. Eu não tenho dúvida de que, do ponto de vista econômico, esse pessoal tem uma mentalidade muito mais aberta, muito mais progressista, do que os coronéis do Nordeste. Mas o impacto deles sobre a vida política do país em trinta ou quarenta anos pode ser muito mais autoritário do que se pensa.

No Brasil, sempre há uma febre comemorativa sobre algum evento. Em 1995 foi Zumbi. Em 1997 foi Canudos. Depois vieram os festejos pra celebrar os 500 anos do Brasil. Porém, refletir sobre qualquer período histórico é saudável. O problema é você singularizar um período e, aí, criar um mito social, atribuindo a figuras do passado projetos ou ambições que são, na verdade, de hoje. Veja o caso de Zumbi. A base documental sobre esse assunto é escassa, pois no quilombo eles não tinham escrita. Dizer, como se disse, que o movimento de Palmares era de independência nacional é uma besteira. Todo movimento desse tipo visava à constituição de uma sociedade paralela e não a mudar o sistema.

A manutencao da unidade nacional é vista como grande contribuicao da colonizacao portuguesa, mas como disse Joaquim Nabuco, a colonização portuguesa tem uma nódoa irresgatável: a escravidão. É a instituição que, por si só, é capaz de explicar o maior número de variáveis da História brasileira. A grande propriedade, o mandonismo, o familismo, tudo isso vem da escravidão. O tráfico de escravos, até o fim, em 1850, foi um negócio de portugueses. O brasileiro se endividava para comprar escravos. Quanto à unidade do Brasil, ela decorre, na verdade, de um defeito português: a pobreza de imaginação. Você repara que todas as praças de cidades do interior, no Brasil, são iguais, seja em Mococa, São Paulo, ou Santarém, no Pará.

Eu raramente vou ao cinema, mas assisti a Carlota Joaquina. Li um artigo dizendo que era uma revisão da História brasileira. É um absurdo. Nesse filme a diretora usa todos os estereótipos, inclusive a imagem do dom João VI caricato, comendo franguinhos e limpando as mãos na roupa. Como pode ser uma revisão? O historiador Oliveira Lima escreveu, há quase 100 anos, um livro para acabar com todos esses chavões sobre dom João VI. Não adiantou nada, pois a diretora do filme, ao que parece, não leu Oliveira Lima. Ou, se leu, não concordou.

O século XX teve três momentos importantes: 1945, com o fim do nazismo; evitar a guerra nuclear em 1962; e a queda do Muro de Berlim, em 1989. Num caso, tivemos a presença de Churchill, que é na minha opinião o grande personagem do século. É o último grande líder de guerra da História, comparável a Júlio César e Alexandre, o Grande. Em outro, Kennedy, aliás, é interessante notar que, na ocasião, ele teve um equilíbrio admirável. As pessoas reclamam de sua vida privada, de suas infidelidades, mas se esquecem de uma coisa. Ainda bem que Kennedy era um playboy, um hedonista, uma pessoa bem resolvida. Imagine Nixon, uma pessoa torturada, no lugar dele, sendo submetido a uma crise política daquela envergadura. Poderia ser o começo da guerra nuclear. Sobre o final do Muro de Berlim, há um dado interessante. Os americanos sofisticados pensaram várias coisas para acabar com a Guerra Fria. O embaixador George Kennan, por exemplo, veio com a doutrina da contenção e o secretário de Defesa Robert McNamara, com aquele negócio de "retaliação graduada". Aí chegou um boçal, chamado Ronald Reagan, que inventou a "guerra nas estrelas", queria arrebentar todo mundo, e resolveu o negócio em alguns anos. Deu certo, o que prova que a História, muitas vezes, é o reino da boçalidade. Não é coisa para gente inteligente, não.

* Por Evaldo Cabral de Mello, historiador pernambucano, irmão do poeta Joao Cabral de Mello Neto.

quarta-feira, agosto 18, 2010

Hoochie Coochie Man

Elvis Presley em 1955

Gostaria de postar aqui um arquivo zip com um CD inteiro que fiz com músicas que foram lançadas entre 1952 até 1955. São 23 músicas escolhidas a dedo, após quase três anos de pesquisas. O critério de seleção é baseado em importância histórica, representação de um artista e por fim, o meu gosto pessoal. Quem se interessa por esse período e pela historia da música popular e do rock and roll principalmente, deve baixar esse arquivo, transforma-lo em CD e escutar várias vezes a fim de ter uma intimidade com essas canções que são o berço de tudo o que foi feito depois. Começava aqui uma democracia que não importava a cor e nem a sua posição social.

No ano de 1952 e pra começar o CD, temos a gravação histórica de Lawdy Miss Clawdy, gravada por Lloyd Price, que foi o jovem que a compôs. Ele tinha 18 anos quando gravou essa música e a mesma virou sucesso nacional sem demora. Foi considerada a primeira música dos jovens, uma vez que antes dessa, os jovens escutavam os discos dos pais. Em seguida, de 1953, temos Hound Dog, na voz de Big Mama Thornton. Hound dog seria sucesso na voz de Elvis três anos depois. No mesmo ano, temos Money Honey, sucesso dos The Drifters, quando ainda tinha Clyde McPhatter nos vocais principais.

O ano de 1954 traz o que seria os primeiros suspiros de um movimento que seria chamado de rock and roll. Big Joe Turner chega com Shake, rattle and roll. Elvis dá suas caras com o classico That’s all right mama. Bill Haley and His Comets chegam arrebentando com Rock Around the Clock e Elvis regrava o classico country Blue Moon of Kentucky, em forma de rock. The Penguins lançam a inesquecivel balada romantica Earth Angel e Elvis regrava outro clássico country chamado Good rockin’ tonight, outra vez em formato rock and roll. Na parte do blues, Muddy Waters ataca de Hoochie Coochie man, que virou também um clássico pra todos os generos da música.

Chega o ano de 1955 e o mundo tem o prazer de conhecer a guitarra e o carisma de Chuck Berry, que lançava Maybellene. The Platters, um grupo vocal formado por negros lançava Only You e The Great Pretender, dois sucessos fenomenais. Little Richard, o cantor gay da Georgia, lançava sua Tutti Frutti e Ray Charles lançava a sua maravilhosa I got a Woman.

Elvis lançava a sua maravilhosa e clássica canção Mystery Train e Johnny Cash vinha a cena com a sua Folsom Prison Blues. Elvis atacava também de Baby Let’s Play house, que inspiraria John Lennon a compor Run for Your life 10 anos depois e Fats Domino nos brindava com a sua maravilhosa Ain’t that a shame. Elvis gravava outra musica country chamada I forgot to remember to forget e Muddy Waters trazia outro blues maravilhoso com Mannish Boy, uma resposta a uma música de Bo Diddley. Elvis metia os pés em I’m left, you’re right, she’s gone e B.B. King lançava o clássico Everyday I have the blues.

Essas são as 23 músicas do CD que você pode baixar aqui.

Com a ajuda do Google analytics, eu pude acompanhar os acessos e o interesse das pessoas nas músicas postadas no site Discografia Obrigatória. No mês de Julho de 2010, Hoochie Coochie Man foi a campeã de acessos (46 acessos), quase o dobro da segunda colocada Rock around the clock, que teve 24 acessos. Only you foi a terceira com 18 acessos e a sexta foi Money Honey com 9 acessos. Tutti-frutti, I got a woman e Mannish boy tiveram 7 acessos cada, ocupando a sétima, oitava e nona posições, respectivamente. E pra fechar o top ten, Earth angel teve 6 acessos.

A quarta colocada com 16 acessos foi Too much monkey business, de Chuck Berry e a quinta colocada com 10 acessos foi Blue suede shoes, de Carl Perkins, não constam no CD por estarem inseridas no próximo disco, que engloba o ano de 1956.

No final, o ranking de julho de 2010 ficou assim (em parênteses é o numero que a música foi inscrita no site):

1 - Muddy Waters com Hoochie Coochie Man - 46 acessos (10)
2 - Bill Haley and His Comets com Rock around the clock - 24 acessos (6)
3 - The Platters com Only you - 18 acessos (12)
4 - Chuck Berry com Too much monkey business - 16 acessos (37)
5 - Carl Perkins com Blue suede shoes - 10 acessos (26)
6 - The Drifters com Money honey - 9 acessos (3)
7 - Little Richard com Tutti-frutti - 7 acessos (13)
8 - Ray Charles com I got a woman - 7 acessos (15)
9 - Muddy Waters com Mannish boy - 7 acessos (21)
10 - The Penguins com Earth angel - 6 acessos (8)

PS: O post tem a foto de Elvis, que poderia ser a "capa do CD ", pois o homem era de fato um sucesso, já em 1955, tendo mais músicas nos rádios do que qualquer outro artista citado acima. Das 23 músicas, 7 são dele. E o título de Hoochie Coochie Man foi por causa que essa música está tendo mais acessos no site desde que foi postada. Eu fico bastante curioso e não sei o motivo. E também, Elvis não deixa de ser um Hoochie Coochie Man.

terça-feira, agosto 17, 2010

A qualidade do vinho


Em vez de se preocupar com essas nomenclaturas todas a respeito dos vinhos, não poderíamos simplesmente chegar na loja e pedir um bom vinho? É mesmo a qualidade o ponto mais importante? Ou seja, uma qualidade dentro do preço que você escolheu pra gastar, que também é conhecido como valor?

Os produtores de vinho ficam eufóricos quando recebem críticas favoráveis dos especialistas, pois um vinho com boas notas, geralmente é um vinho de melhor qualidade e com certeza, essas boas avaliações aumentará as suas vendas.

Mas a qualidade do vinho vem em diferentes cores, graus de doçura e secura e perfis de gostos. Não é só porque um vinho é de ótima qualidade que você vai gostar de bebe-lo (ou fingir que gosta). O gosto pessoal é dez vezes mais importante do que a qualidade, quando vamos escolher um vinho.

Mesmo assim, graus diferentes de qualidade existem sim no mundo dos vinhos, mesmo que não seja absoluta. Quão maravilhoso um vinho é, depende de quem está fazendo o julgamento.

Os instrumentos que medem a qualidade do vinho são o nariz, a boca e o cérebro e porque somos diferentes, nós temos opiniões diferentes sobre a qualidade dos vinhos. A opinião combinada de um grupo de experts é que é geralmente considerada como um julgamento final sobre a qualidade de um vinho.

Voltando, sim, o gosto é muito pessoal. A percepção dos gostos básicos na língua do ser humano varia muito de uma pessoa pra outra. Pesquisas tem provado que algumas pessoas possuem mais papilas gustativas do que outras, e assim, possuem mais sensibilidade pra algumas características como amargura ou acidez em comidas e bebidas.

sexta-feira, julho 30, 2010

Fatos para serem lembrados 6: Sexo oral na Casa Branca

Lembro-me que ainda na faculdade de administração no final dos anos 90, um assunto que estava na boca de todo mundo era a história do boquete que a estagiária Monica Lewinski tinha feito no presidente Bill Clinton, que poderia lhe custar o mandato presidencial.

Mas a história não foi bem essa. O boquete existiu, mas ele era apenas um detalhe da história. O caso começou com uma moça chamada Paula Jones, que trabalhava com Clinton quando este ainda era governador do Arkansas. Ela alega que Clinton chamou-a no quarto dele de hotel e pediu favores sexuais, assim sem mais nem menos.
Mesmo sendo uma história difícil de acreditar, mas digamos que seja verdadeira, isso é crime? O cara perguntou se ela queria fazer sexo, ela disse que não, e foi embora. Isso é crime? Pode ser cara de pau, mas crime?

Bem, mas Paula Jones arranjou um advogado que como ela, queria aparecer. Eles encontraram uma outra despeitada (direi mais na frente porque) chamada Linda Tripp, que havia trabalhado na Casa Branca, que gravou 17 conversas telefónicas com uma “amiga”, que era justamente Monica Lewinski, onde contava detalhes do relacionamento com Clinton. Lewinski não sabia que estava sendo gravada e confessava e desabafava pra “amiga”.

Então os advogados de Paula Jones usaram as gravações pra mostrar como Clinton era mesmo um “assediador”. O cara diz: ei, pague aqui um boquete e antes dele se calar, ele já está no ato, isso é um assedio? Pelo que eu saiba, quando dois querem, como se diz…

Pra completar ainda mais a novela, surge um promotor que também queria estar sob as luzes dos holofotes, chamado Keneth Starr, que estava determinado a acabar com Clinton.

Sim, mas voltando a Linda Tripp. Essa senhora, que nunca levou cantada de Clinton e esse foi o problema dela, viu outra senhora chamada Kathleen Willey saindo do escritório de Clinton com a boca suja de batom e com blusa por fora da saia e com alguns botões abertos e toda sorridente. Tripp não gostou e enciumada por não teve essa chance, abriu a boca e contou pra todo mundo. Como ninguém acreditou, ela enrolou a menina Monica Lewinski e induziu-a a confessar ao telefone o caso com Clinton e então gravou, sorrateiramente.

Clinton contra-atacou e colocou em campo a mulher, os amigos e todo o seu charme e poder de convencimento pessoa, alem da autoridade do cargo que exercia, tudo com o objetivo de salvar o emprego. Pouco tempo depois do contra-ataque, 60% da população americana já achava que as acusações eram falsas.

Movida também pela vontade de aparecer e ganhar uns dólares a mais, aquela da blusa pra fora foi à TV ao vivo pra se fazer também de vítima. Mas ai Clinton mostrou os bilhetes dela pra ele e ela ficou com cara de bunda. E ainda uma amiga dela foi ao ar dizer que Kathleen estava mentindo.

No final das contas, uma mulher, a juíza Susan Webber Wright, ex-aluna de Clinton na faculdade de direito do Arkansas, republicana e Caxias, absolvia Clinton das acusações de assédio sexual movidas por Paula Jones. O processo foi arquivado.

A juíza entendeu que Clinton não assediou ilegalmente Paula Jones, pois ele não usou força física pra tentar subjuga-la, não usou seu poder como governador pra prejudicar a carreira dela e não causou sofrimento emocional. Causou sim, uma coceirinha no bolso, pra tentar pegar uma grana fácil e ficar famosinha. Se deram mal. Clinton saiu mais fortalecido do episodio.