Essa semana meu irmao comemorou
vinte anos de jiu jitsu. Nunca falo muito, é meu jeito, mas muito orgulho da sua
trajetoria. Foi um caminho de sacrifício, aprendizado, e sobretudo recompensas.
Como filho mais velho e tendo escolhido o caminho da universidade, sempre fui a
aposta do meu pai, que como a maioria dos pais da época, sempre acreditou que o
estudo formal era a solução para todos os problemas e somente assim
conseguiriamos o pao de cada dia.
Meu irmao enxergou diferente e pagou pra ver,
bancou suas convicções. Enquanto eu estava na universidade, ele fez coisas
incriveis, eu vi de perto. A primeira foi bancar a reforma de um telhado de
casa, cujas goteiras eram historicas, e meu pai já havia tentado de tudo. A solução
era um teto completamente novo e meu irmao bancou a idéia. A contrapartida era
aguentar os cheiros dos kimonos suados na mesa da sala.
Até hoje não sei como fez, mas
arranjou a reforma com amigos e pagou do bolso dele. Somente agradeci à Deus e não
à ele e fiquei alegre com a ausencia de agua no chao e nas paredes. Ele dava
aulas de jiu jitsu, vendia kimonos e camisas pra ter renda. Enquanto isso eu
estudava. Usei muito das suas camisas pra sair, o que o irritava bastante, pois
sempre alegava que eu alargava as golas.
Depois decidiu que iria ter a
propria academia e bancou a construcao da propria lá em casa, sempre contra as
instrucoes do nosso pai. Batalhou, pegou dinheiro emprestado com amigos dele e
meus, e pagou, e foi embora pro Rio de Janeiro, treinar com os melhores do
país, na Brazilian Top Team. Virou amigo dos ídolos que tinhamos e passou a ser
tratado como igual. Murilo Bustamante que é um ídolo pra todos que entendem um
pouco desse esporte, e tambem pra quem entende muito, se tornou um amigo
pessoal.
Lutou, passou dificuldade no Rio
de Janeiro, cresceu. Certa feita um programa da SporTV fez uma cobertura sobre
a trajetória dele e não sei se inconsciente ou pra mandar um recado pro meu
pai, ele falou que a faixa preta dele tinha sido sua faculdade e que estar ali
entre os melhores e fazer vale tudo, era uma pós graduação. Na mesma epoca, eu
fazia um mestrado em Montreal. Se foi recado ou não, foi entendido. Não lembro
as palavras direito, mas foi mais ou menos assim.
Não sei se eu consegui ou como
foi, pois só me lembro os feitos dos outros, conseguimos um seminário pra ele
dar em Montreal, na cademia Gamma, se não me engano em 2003. Ele veio, fez
contatos, amizades e voltou em 2004, dessa vez pra ficar.
Veio primeiro, Juliana veio
depois, ele fez até promessa de não cortar o cabelo, e ia lutar com a juba
enorme, como no dia que lutou contra Georges St-Pierre, sem kimono, em Quebec
City, em 2004. Começava sua trajetória na América do Norte, lutando cada
campeonato, sem kimono, com kimono, cada vale tudo, que aparecia. Eu acompanhando
tudo, com o coração na mao, torcendo pelo irmaozinho.
Dez anos depois, deu tudo certo,
como ele apostou. Sua academia, sua profissao, seu nome, tudo estao de vento em
popa. É, velho Jajá, dessa vez o senhor, que sempre acertou, errou. Graças à
Deus que errou. Parabens irmao, pelos seus vinte anos de jiu jitsu e por viver
uma vida profissional muito mais alegre do que do irmao que estudou aqui. Será que
dá tempo ainda de eu esquecer os estudos e pegar uma faixa preta? Um beijo e
boa sorte nos proximos quarenta anos e na faixa vermelha!!!
* Na foto, Brent Beauparlant, Vitor Shaolin, fabio, eu e boy Ulisses, na academia Gamma em 2004.,
* Na foto, Brent Beauparlant, Vitor Shaolin, fabio, eu e boy Ulisses, na academia Gamma em 2004.,
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