quarta-feira, agosto 18, 2010

Hoochie Coochie Man

Elvis Presley em 1955

Gostaria de postar aqui um arquivo zip com um CD inteiro que fiz com músicas que foram lançadas entre 1952 até 1955. São 23 músicas escolhidas a dedo, após quase três anos de pesquisas. O critério de seleção é baseado em importância histórica, representação de um artista e por fim, o meu gosto pessoal. Quem se interessa por esse período e pela historia da música popular e do rock and roll principalmente, deve baixar esse arquivo, transforma-lo em CD e escutar várias vezes a fim de ter uma intimidade com essas canções que são o berço de tudo o que foi feito depois. Começava aqui uma democracia que não importava a cor e nem a sua posição social.

No ano de 1952 e pra começar o CD, temos a gravação histórica de Lawdy Miss Clawdy, gravada por Lloyd Price, que foi o jovem que a compôs. Ele tinha 18 anos quando gravou essa música e a mesma virou sucesso nacional sem demora. Foi considerada a primeira música dos jovens, uma vez que antes dessa, os jovens escutavam os discos dos pais. Em seguida, de 1953, temos Hound Dog, na voz de Big Mama Thornton. Hound dog seria sucesso na voz de Elvis três anos depois. No mesmo ano, temos Money Honey, sucesso dos The Drifters, quando ainda tinha Clyde McPhatter nos vocais principais.

O ano de 1954 traz o que seria os primeiros suspiros de um movimento que seria chamado de rock and roll. Big Joe Turner chega com Shake, rattle and roll. Elvis dá suas caras com o classico That’s all right mama. Bill Haley and His Comets chegam arrebentando com Rock Around the Clock e Elvis regrava o classico country Blue Moon of Kentucky, em forma de rock. The Penguins lançam a inesquecivel balada romantica Earth Angel e Elvis regrava outro clássico country chamado Good rockin’ tonight, outra vez em formato rock and roll. Na parte do blues, Muddy Waters ataca de Hoochie Coochie man, que virou também um clássico pra todos os generos da música.

Chega o ano de 1955 e o mundo tem o prazer de conhecer a guitarra e o carisma de Chuck Berry, que lançava Maybellene. The Platters, um grupo vocal formado por negros lançava Only You e The Great Pretender, dois sucessos fenomenais. Little Richard, o cantor gay da Georgia, lançava sua Tutti Frutti e Ray Charles lançava a sua maravilhosa I got a Woman.

Elvis lançava a sua maravilhosa e clássica canção Mystery Train e Johnny Cash vinha a cena com a sua Folsom Prison Blues. Elvis atacava também de Baby Let’s Play house, que inspiraria John Lennon a compor Run for Your life 10 anos depois e Fats Domino nos brindava com a sua maravilhosa Ain’t that a shame. Elvis gravava outra musica country chamada I forgot to remember to forget e Muddy Waters trazia outro blues maravilhoso com Mannish Boy, uma resposta a uma música de Bo Diddley. Elvis metia os pés em I’m left, you’re right, she’s gone e B.B. King lançava o clássico Everyday I have the blues.

Essas são as 23 músicas do CD que você pode baixar aqui.

Com a ajuda do Google analytics, eu pude acompanhar os acessos e o interesse das pessoas nas músicas postadas no site Discografia Obrigatória. No mês de Julho de 2010, Hoochie Coochie Man foi a campeã de acessos (46 acessos), quase o dobro da segunda colocada Rock around the clock, que teve 24 acessos. Only you foi a terceira com 18 acessos e a sexta foi Money Honey com 9 acessos. Tutti-frutti, I got a woman e Mannish boy tiveram 7 acessos cada, ocupando a sétima, oitava e nona posições, respectivamente. E pra fechar o top ten, Earth angel teve 6 acessos.

A quarta colocada com 16 acessos foi Too much monkey business, de Chuck Berry e a quinta colocada com 10 acessos foi Blue suede shoes, de Carl Perkins, não constam no CD por estarem inseridas no próximo disco, que engloba o ano de 1956.

No final, o ranking de julho de 2010 ficou assim (em parênteses é o numero que a música foi inscrita no site):

1 - Muddy Waters com Hoochie Coochie Man - 46 acessos (10)
2 - Bill Haley and His Comets com Rock around the clock - 24 acessos (6)
3 - The Platters com Only you - 18 acessos (12)
4 - Chuck Berry com Too much monkey business - 16 acessos (37)
5 - Carl Perkins com Blue suede shoes - 10 acessos (26)
6 - The Drifters com Money honey - 9 acessos (3)
7 - Little Richard com Tutti-frutti - 7 acessos (13)
8 - Ray Charles com I got a woman - 7 acessos (15)
9 - Muddy Waters com Mannish boy - 7 acessos (21)
10 - The Penguins com Earth angel - 6 acessos (8)

PS: O post tem a foto de Elvis, que poderia ser a "capa do CD ", pois o homem era de fato um sucesso, já em 1955, tendo mais músicas nos rádios do que qualquer outro artista citado acima. Das 23 músicas, 7 são dele. E o título de Hoochie Coochie Man foi por causa que essa música está tendo mais acessos no site desde que foi postada. Eu fico bastante curioso e não sei o motivo. E também, Elvis não deixa de ser um Hoochie Coochie Man.

terça-feira, agosto 17, 2010

A qualidade do vinho


Em vez de se preocupar com essas nomenclaturas todas a respeito dos vinhos, não poderíamos simplesmente chegar na loja e pedir um bom vinho? É mesmo a qualidade o ponto mais importante? Ou seja, uma qualidade dentro do preço que você escolheu pra gastar, que também é conhecido como valor?

Os produtores de vinho ficam eufóricos quando recebem críticas favoráveis dos especialistas, pois um vinho com boas notas, geralmente é um vinho de melhor qualidade e com certeza, essas boas avaliações aumentará as suas vendas.

Mas a qualidade do vinho vem em diferentes cores, graus de doçura e secura e perfis de gostos. Não é só porque um vinho é de ótima qualidade que você vai gostar de bebe-lo (ou fingir que gosta). O gosto pessoal é dez vezes mais importante do que a qualidade, quando vamos escolher um vinho.

Mesmo assim, graus diferentes de qualidade existem sim no mundo dos vinhos, mesmo que não seja absoluta. Quão maravilhoso um vinho é, depende de quem está fazendo o julgamento.

Os instrumentos que medem a qualidade do vinho são o nariz, a boca e o cérebro e porque somos diferentes, nós temos opiniões diferentes sobre a qualidade dos vinhos. A opinião combinada de um grupo de experts é que é geralmente considerada como um julgamento final sobre a qualidade de um vinho.

Voltando, sim, o gosto é muito pessoal. A percepção dos gostos básicos na língua do ser humano varia muito de uma pessoa pra outra. Pesquisas tem provado que algumas pessoas possuem mais papilas gustativas do que outras, e assim, possuem mais sensibilidade pra algumas características como amargura ou acidez em comidas e bebidas.

sexta-feira, julho 30, 2010

Fatos para serem lembrados 6: Sexo oral na Casa Branca

Lembro-me que ainda na faculdade de administração no final dos anos 90, um assunto que estava na boca de todo mundo era a história do boquete que a estagiária Monica Lewinski tinha feito no presidente Bill Clinton, que poderia lhe custar o mandato presidencial.

Mas a história não foi bem essa. O boquete existiu, mas ele era apenas um detalhe da história. O caso começou com uma moça chamada Paula Jones, que trabalhava com Clinton quando este ainda era governador do Arkansas. Ela alega que Clinton chamou-a no quarto dele de hotel e pediu favores sexuais, assim sem mais nem menos.
Mesmo sendo uma história difícil de acreditar, mas digamos que seja verdadeira, isso é crime? O cara perguntou se ela queria fazer sexo, ela disse que não, e foi embora. Isso é crime? Pode ser cara de pau, mas crime?

Bem, mas Paula Jones arranjou um advogado que como ela, queria aparecer. Eles encontraram uma outra despeitada (direi mais na frente porque) chamada Linda Tripp, que havia trabalhado na Casa Branca, que gravou 17 conversas telefónicas com uma “amiga”, que era justamente Monica Lewinski, onde contava detalhes do relacionamento com Clinton. Lewinski não sabia que estava sendo gravada e confessava e desabafava pra “amiga”.

Então os advogados de Paula Jones usaram as gravações pra mostrar como Clinton era mesmo um “assediador”. O cara diz: ei, pague aqui um boquete e antes dele se calar, ele já está no ato, isso é um assedio? Pelo que eu saiba, quando dois querem, como se diz…

Pra completar ainda mais a novela, surge um promotor que também queria estar sob as luzes dos holofotes, chamado Keneth Starr, que estava determinado a acabar com Clinton.

Sim, mas voltando a Linda Tripp. Essa senhora, que nunca levou cantada de Clinton e esse foi o problema dela, viu outra senhora chamada Kathleen Willey saindo do escritório de Clinton com a boca suja de batom e com blusa por fora da saia e com alguns botões abertos e toda sorridente. Tripp não gostou e enciumada por não teve essa chance, abriu a boca e contou pra todo mundo. Como ninguém acreditou, ela enrolou a menina Monica Lewinski e induziu-a a confessar ao telefone o caso com Clinton e então gravou, sorrateiramente.

Clinton contra-atacou e colocou em campo a mulher, os amigos e todo o seu charme e poder de convencimento pessoa, alem da autoridade do cargo que exercia, tudo com o objetivo de salvar o emprego. Pouco tempo depois do contra-ataque, 60% da população americana já achava que as acusações eram falsas.

Movida também pela vontade de aparecer e ganhar uns dólares a mais, aquela da blusa pra fora foi à TV ao vivo pra se fazer também de vítima. Mas ai Clinton mostrou os bilhetes dela pra ele e ela ficou com cara de bunda. E ainda uma amiga dela foi ao ar dizer que Kathleen estava mentindo.

No final das contas, uma mulher, a juíza Susan Webber Wright, ex-aluna de Clinton na faculdade de direito do Arkansas, republicana e Caxias, absolvia Clinton das acusações de assédio sexual movidas por Paula Jones. O processo foi arquivado.

A juíza entendeu que Clinton não assediou ilegalmente Paula Jones, pois ele não usou força física pra tentar subjuga-la, não usou seu poder como governador pra prejudicar a carreira dela e não causou sofrimento emocional. Causou sim, uma coceirinha no bolso, pra tentar pegar uma grana fácil e ficar famosinha. Se deram mal. Clinton saiu mais fortalecido do episodio.

quarta-feira, julho 21, 2010

O trabalhador perdido

Outro dia estava discutindo com alguns amigos aqui sobre o governo Fernando Henrique e Fernando Collor e o povo só faltou me matar quando disse que eles foram bons presidentes. Ora, entre as coisas que falo sempre que eles trouxeram de bom pro país, como abertura para as importações e a venda de todos os elefantes brancos e cabides de empregos, o país entrou numa era de modernidade, numa era bem diferente daquela que se encerrava com Sarney.

Mas alem de tudo isso, foi conseguido uma estabilidade da moeda, uma abertura económica, avanços tecnológicos, e entramos na globalização dos mercados. Tivemos também um aumento do desemprego, e todos esses fatores combinados, fez com que o trabalhador, o operário brasileiro, se visse de calça curta. Tornou-se menos combativo, mais organizado e com uma disposição quase zero pra greve. Se tornou mais favorável à negociação com os patrões. Em outras palavras, fez greve? Vai pra rua que o dono coloca outro no lugar.

Essa postura menos radical tornou-se uma questão de sobrevivência pro metalúrgico do ABC Paulista, que somente entre 1991 e 1995, perderam 100 mil postos de trabalho. Eram 230 mil metalúrgicos em 1991 e em 1995, tinham somente 135 mil no time deles.

Diante da faca no pescoço, o trabalhador se encontrou numa completa crise de identidade. Não sabia se brigava por melhores salários, por mais empregos, pela redução da jornada de trabalho ou pela diminuição dos encargos sociais. Que problema, hein?

Se na época de Sarney, o trabalhador não tinha dúvidas de que o patrão era o explorador e o operário o explorado, na época de FHC o dono da fabrica aparecia muitas vezes como o parceiro, inclusive tendo empresas que dividiam seus lucros com os empregados. Numa pesquisa feita pelo Cebrap, 73,8% dos trabalhadores disseram que preferiam uma negociação do que um confronto com os patrões.

Na Fábrica da Ford, que na época era a mais moderna do país, tinha 96 robôs na linha de montagem, que soldavam e movimentavam materiais com maior precisão, rapidez e menor risco de acidente de trabalho. E principalmente, não fazia greve.

Por isso a manutenção do emprego tornou-se a grande cruzada dos trabalhadores. E acredito que essa tendência chegou até agora, o ano de 2010. Até porque Lula, no que pôde, copiou FHC. Só se superou na canalhice e nos roubos e assaltos e sacanagem pura e direta. Os antes valentes e combatentes trabalhadores, estavam aceitando uma redução da jornada de trabalho de 44 pra 36 horas, limitações de horas extras e transformando as horas extras em folgas ou ferias coletivas e também redução dos encargos sociais.

Era uma nova postura de fazer sacrifícios pessoais em favor de manter a empresa aberta ganhou força no ABC Paulista. Porem, isso se aplicava somente no dia-a-dia das grandes empresa, vale salientar. Os das pequenas empresas, ganhavam quase 40% a menos do que o dos trabalhadores das grande empresas, além de ter um risco maior de ser demitido.

terça-feira, julho 20, 2010

O bicho pegou

Enquanto comemorávamos o aniversário de quatro anos das minhas filhas gêmeas, no sossego do quintal da minha casa em Oakville, a poucos kilometros dali, no centro de Toronto, o bicho pegava, o cacete comia e o zaralho era tocado. No sábado, 26 de Junho, um grupo de violentos manifestantes deixou um rastro de destruição no Downtown da maior cidade do Canada, onde era realizado o encontro do G20. Lojas foram destruídas e saqueadas e carros da polícia foram destruídos e ainda por cima queimados por completo.

Os marginais, planejaram muito bem o que eles chamam de “protesto pacífico” contra o G20 e tudo o que ele representa. Ou os baderneiros acham que um encontro dessa natureza representa. Organizados, cerca de 70 canalhas comandaram o tumulto. Os criminosos, que alguns chamam de manifestantes, forçaram o uso de máscara de gás pela polícia pela primeira vez na história de Toronto, pra você ter uma ideia do tamanho da anarquia gerada. No intervalo do jogo entre Estados Unidos e Gana, víamos os flashes do que estava acontecendo bem pertinho de casa.

Bill Blair, o comissário chefe da polícia, disse nunca ter visto um nível tão grande de destruição na cidade. A marcha de protesto continha mais ou menos 4 mil pessoas e estava tudo relativamente calmo. Mas quando eles se encontraram com a polícia, dezenas de anarquistas vestindo preto, colocaram suas mascaras pra esconder seus rostos e saíram das linhas de frente, pra não ficarem tão perto da polícia.

Quando eles saíram da frente, os comunistas do quebec, um grupo organizado em prol do vandalismo, começaram a cantar hinos de protestos. Então às 4 da tarde, veio o sinal. E armados com martelos, bolas de sinuca e qualquer objeto que encontrassem pela frente, começaram a destruição, pegando a polícia de surpresa.

Atacaram um carro da polícia, com um policial dentro e quebraram o parabrisa com pedaços de pau e pedras. Um grupo pequeno de policiais correu pra salvar o colega dentro do carro, mas mal conseguiram tirar o policial do carro, tiveram que recuar novamente, pois estavam em menor numero e o carro foi totalmente destruído. O mesmo ocorreu com outros carros da polícia ao longo da manifestação.

Antes de destruírem os carros, porem, subiam em cima do teto dos carros e usando o rádio da polícia, gritavam palavras de ordem, e assim como ligavam a sirene, pra aumentar o pânico. Então saíram de cima das sucatas dos carros e começaram a destruir todas as vitrines das lojas que viam pela frente e pegar as coisas que estavam dentro delas. Os empregados das lojas sofreram com os objetos entrando na loja. E começam a escrever nas paredes com sprays e frases como “No Corporation Greed” eram espalhadas por todos os lados.

Quando foi pego, um dos manifestantes de merda, dizia que “o que estava acontecendo ali não era violência, e sim vandalismo contra as corporações violentas. Nós não machucamos ninguém. As corporações sim, que machucam as pessoas”. É mole? Eu queria saber até que ponto vai a imbecilidade humana. Humana não, de um animal desses. Outro dizia que protestava contra “a máquina de guerra masculina e machista em que vivemos”.

Destruíram uma BMW estacionada, dizendo que os “yuppies” eram também inimigos. Quando a policia colocou os violentos manifestantes num canto, eles foram trocando de roupa e se misturando de volta aos manifestantes mais normais. A música deles dizia: “No justice, no peace, fuck the police”.

O fato é que, mesmo existindo os baderneiros de Toronto, a grande maioria veio do Quebec. Eles se diziam anti-policia, anti-colonialismo e anti-capitalistas. Por ai você tira a qualidade da massa. Diziam que os lideres não ligavam pros protestos calmos, que teriam que arrepiar pra se fazerem ouvidos. Que mentalidade.

Até aí tudo bem, os imundos quebraram tudo, tocaram fogo nos carros da polícia, destruíram tudo. Tudo bem. Massa. Então os policiais começaram a baixar o pau, desde a madeira pra cima, aí começam a reclamar, que isso é uma violência. É pra baixar o pau mesmo. Vagabundo é pra apanhar. Mas sabe como é, quebrar eles sabem. Serem quebrados não sabem não e choram chamando Mamãe.

Mas a policia daqui foi até calma. O problema mesmo foi quando chegou a polícia de Montreal, que atacam em marcha, com os escudos em uma mão e o cassetete batendo na canela, todos ao mesmo tempo, fazendo um barulho assustador. Quem não correu com medo da marcha sinistra, apanhou até dizer basta. Foi o verdadeiro bonde do terror. De dar inveja ao BOPE. Querem bagunçar? Então vamos bagunçar nessa porra.

Engraçado foi o policial chefe dos meninos policiais de Montreal, quando indagados porque eles não tinham dialogo, somente pau. O sujeito falou que eles falavam, mas as pessoas não entendiam, eles não podia fazer nada. Numa alusão ao fato deles falarem francês e os daqui falarem inglês.

Fico pensando como essas coisas ainda acontecem nos dias de hoje. E olhe que foram gastos mais de 1 bilhão de dolares em segurança pra este evento. Melhor seria ter chamado uns batalhoes de choque brasileiros pra segurar tudo bem direitinho. A grana nao seria nem um decimo disso e a segurança seria garantida.

segunda-feira, julho 12, 2010

Vale a pena ler 29: O médico destemido

O médico é quem fica mais chocado com a minha técnica de cortar um pedaço do coração do paciente porque, para ele, o coração sempre foi um órgão intocável. Tirar um pedaço do ventrículo esquerdo, que injeta sangue na artéria aorta, seria impensável. É mesmo surpreendente, uma coisa muito louca. Mas o paciente mesmo não se assusta: quando a gente fala que a cirurgia é boa, que a taxa de sobrevida é de 95%, ele aceita. Minha técnica é uma alternativa simples e barata para doentes de insuficiência cardíaca que não podem se submeter a transplantes ou não têm tempo de vida suficiente para ficar na fila de espera. Eu pego o coração grande, inchado e cansado, corto um pedaço e costuro o que sobrou. O coração volta a bater, menor e mais forte. Quando souberam que faço isso, começaram a falar que eu era louco. Podem falar: sou doido mesmo, mas dou uma chance para as pessoas viverem.

Schopenhauer falava que toda verdade passa por três estágios. No primeiro, ela é ridicularizada. No segundo, é veementemente antagonizada. Mas no terceiro estágio ela é aceita. Foi isso que aconteceu comigo. O duro foi levar as bordoadas que vieram antes. Dois médicos de Porto Alegre diziam que era impossível um paciente melhorar com essa cirurgia, e que se eu estivesse certo seria necessário reescrever todos os livros de cardiologia. Esses imbecis podem preparar as canetas, porque eu estou certo e eles estão errados.

Minhas ideias foram aceitas primeiro nos Estados Unidos e somente depois no Brasil. Toda essa repercussão aconteceu graças a um outro brasileiro, o Tomas Salerno, diretor da divisão de cirurgia cardiotorácica da Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo. Ele veio aqui, viu umas dez cirurgias e quase caiu de costas. Foi ele quem me deu força e me levou aos Estados Unidos para promover a técnica. Mas lá o negócio também foi brabo. Um dia eu cheguei a um congresso americano e ninguém queria me deixar falar de jeito nenhum. Aí me inscrevi para comentar um artigo a respeito de redução do pulmão. Parabenizei o médico pelo trabalho, disse que estava muito bonito, que concordava com sua abordagem. Depois prossegui falando que estava fazendo o mesmo com o coração. Foi um escândalo.

Eu já me acostumei a ser chamado de louco. É muito mais fácil me chamar de louco do que alguém admitir que foi idiota durante toda sua carreira. Alguns têm até coragem de admitir. Um cirurgião veio me dizer que já teve uns 10000 corações na mão e nunca percebeu uma coisa tão simples.

A curiosidade faz a gente descobrir as coisas, foi assim que tive esse estalo. Quando eu era criança, meu pai fazia geléia de mocotó em casa, para vender lá em Minas. E quando ele ia ao abatedouro comprar mocotó, eu ficava mexendo em uma tina onde eles jogavam os corações dos bois mortos. Sempre fui fascinado por aquilo, por manusear aqueles corações de animais. Um dia, bem mais tarde, encontrei na minha chácara um búfalo morto. Tinha sido picado por uma cobra, que também morrera esmagada pelo corpo do animal. Eu dissequei os dois e percebi que, apesar de algumas diferenças de circulação, os corações eram iguais. Dissequei coração de cachorro, gato, carneiro, vaca, de tudo quanto era bicho que eu encontrava morto por aí. Assim eu cheguei a uma fórmula matemática que resume as dimensões de um coração saudável: a quantidade de massa muscular tem de ser igual a quatro vezes o seu raio elevado ao cubo. É uma aplicação da lei de Laplace sobre a tensão de parede, que a gente estuda durante a residência em cirurgia geral. Ficou fácil, qualquer paciente que não esteja dentro dessa proporção terá insuficiência cardíaca.

Não foi muito mais do que uns seis meses entre minhas descobertas com animais e com um ser humano. Mas eu nunca tinha feito essa cirurgia nem em animais. Mas estava operando um paciente com insuficiência cardíaca terminal e vi que ia perdê-lo. Existem duas maneiras de fazer um coelho correr: cenoura no nariz ou chumbo no rabo. Eu estava levando chumbo no rabo e decidi meter o facão e tirar um pedaço do coração do paciente. O que me fez fazer isso? Desespero. Eu estava com o paciente morrendo na mesa, tinha de fazer alguma coisa. A mesma coisa aconteceu quando nasceram os meus filhos mais velhos, gêmeos. Nós estávamos em Boston, já na clínica, mas o obstetra não conseguia chegar por causa de uma nevasca. Eu mesmo fiz a cesárea, e os dois nasceram bem. Hoje estão com 19 anos.

Fizeram o diabo comigo pois eu não tinha testes antes de operar um ser humano. Meus colegas me denunciaram no Conselho Regional de Medicina por estar fazendo cirurgia experimental em seres humanos. Eu disse que estava mesmo e mostrei meus resultados. "Se tiverem um tratamento melhor", falei, "eu mando todos os meus pacientes para vocês atenderem." Desde aquela época rezo todas as noites para Deus me proteger dos meus amigos. Um dia a Sociedade Brasileira de Cardiologia mandou uma comissão até aqui, talvez para fechar o hospital, e encontrou com uma equipe de americanos da Universidade Yale fazendo fotos e filmando.

Minha taxa de sobrevida é de 95% na sala de cirurgia. A chance de sair do hospital vivo é de 80% e a de viver dois ou três anos, 60%. Depois de um ou dois anos a sobrevida dessa cirurgia é igual à do transplante cardíaco. Com uma diferença: se você adicionar aos resultados do transplante cardíaco a quantidade dos pacientes que morrem na lista de espera, o resultado fica muito pior do que o nosso.

Em alguns casos, minha técnica é melhor do que um transplante porque tem muita gente que não pode se submeter ao transplante por estar com a pressão pulmonar muito baixa, por exemplo. E tem paciente que entra no hospital com insuficiência cardíaca e sai imunodeprimido, porque os transplantados tomam drogas para reduzir a imunidade e evitar a rejeição. O doente fica na corda bamba: ou é infecção ou é rejeição. Ou ele toma muita droga contra a rejeição e fica sujeito às infecções ou reduz a quantidade de medicamentos e pode ter rejeição. Já a ventriculectomia pode ser aplicada em qualquer doente que tenha insuficiência cardíaca terminal e um coração grande. Isso corresponde à maior parte da clientela do transplante.

Muitos visitantes estrangeiros ficam chocados quando vêem minhas condições de trabalho de Campina Grande do Sul. Em uma dessas universidades me disseram: "Fica aqui que nós vamos te deixar rico". Eu respondi que já era rico, porque rico é quem tem 1 dólar além de suas necessidades. Vou guardar para que, se meu caixão não vai ter gavetas? Eu acho o lado social da medicina muito importante, e aqui eu posso exercê-lo. Aqui eu tenho liberdade para aplicar tudo o que eu aprendi e também posso me dedicar a melhorar as coisas que eu aprendi. Aqui você tem o direito de fazer algo melhor, nos Estados Unidos não.

O sistema americano é muito castrativo e os médicos não tem liberdade pra fazer nada. Há médico que vem conhecer a minha técnica e volta para os Estados Unidos com medo de utilizar o que aprendeu. Ele opera, melhora a saúde de um paciente que está morrendo. Quando o paciente sai do hospital, vem um advogado e propõe entrar com uma ação para ganhar 5 milhões de dólares. O sujeito ganha a ação, o médico vai à bancarrota. Se, ao contrário, você deixar o doente morrer e for jogar golfe, não acontece nada com você. Ainda vão bater palmas se você fizer um buraco com uma tacada só. É por isso que o golfe é tão popular nos Estados Unidos. Eu não estudei quarenta anos para ter de telefonar para um advogado antes de decidir se vou operar ou não. Esse sistema não protege o doente, porque em uma situação de risco o médico vai deixar o doente morrer.

Eu acho que o SUS é ótimo. Acho que faz até mais do que deveria. Para mim, o SUS deveria atender apenas aos indigentes. Qualquer paciente que não fosse catalogado dentro do espectro do indigente teria de pagar um seguro ou ter algum tipo de programa de saúde. Profissionais liberais, gente de classe média não devem internar-se por conta do SUS. Reduzir a clientela para dar um atendimento decente aos brasileiros carentes é a saída para o SUS.

Eu não aceitaria se fosse convidado pra assumir uma secretaria ou ministério da saúde. Eu entendo um pouco da saúde individual, dentro da minha especialidade. Mas para tratar da saúde como um todo, a partir de um cargo como esse, é preciso entender muito de política. Não me sinto preparado para isso, mas apenas para fazer cirurgias cardíacas. É o que eu gosto de fazer. Há muito dinheiro mal gasto quando se trata de governo. O primeiro investimento tem de ser nas pessoas. Não adianta nada investir tanto em obras. Eu digo aqui para o meu pessoal que um hospital é feito de neurônios, não de tijolos. Nosso hospital não poderia fazer mais pelos seus doentes se tivesse paredes de brilhante e chão de ouro. Um bom neurônio leva uns quarenta anos para construir, ao passo que um bom hospital eu levanto em seis meses.

Eu recebi um convite pra tratar do ex-presidente russo Boris Yeltsin. Eu estava em Praga, quando me procuraram para falar que Yeltsin estava com insuficiência cardíaca e precisava ser operado. Eu falei que não tinha como ir até Moscou porque já tinha compromissos, ia viajar para Houston, nos Estados Unidos. O Michael Debakey, americano, e o Renate Akchukin, russo, chefes da equipe médica que acompanhava o então presidente, marcaram um encontro comigo em Houston. Mostraram os dados, explicaram as condições do paciente, disseram que ele estava com o coração grande. Eu ia indicar a cirurgia do naco, mas o Debakey me alertou para os riscos. "Se der certo, ótimo", ele me falou. "Mas se não der nós vamos todos para a Sibéria." Aí eu vi que o negócio era indicar as quatro pontes de safena e pronto. Foi o que fiz. O caso dele era limítrofe. Eu, se tivesse um paciente nas condições dele aqui no Angelina Caron, tirava um pedaço. Mas se eu opero Ieltsin e por alguma circunstância qualquer ele morre, a culpa fica sendo da cirurgia. Se ele viesse a morrer durante uma operação consagrada, não teria problema.

Os meus pacientes e colegas as vezes estranham o meu linguajar duro e as vezes eu sou mesmo meio agressivo, mas isso é normal. Se eu chamo alguém de macaco dentro da sala de cirurgia, é porque ele está fazendo alguma macaquice. Eu não quero ofender ninguém, eu quero estimular as pessoas. As pessoas estranham. Se elas não são capazes de entender isso, o problema é delas, não meu. Como bom mineiro, eu falo de maneira simples, não gosto de ser pedante. Não vou buscar um palavreado mais complicado só porque eu sou médico. Não nego a minha mineirice, não tenho vergonha da minha infância em Minas, que foi muito boa. Vivi em fazenda, tomando o leite quente da vaca. Para ser feliz na vida, o homem não pode negar a sua raça, por mais simples que seja a sua origem.

Eu vim parar nessa cidadezinha do interior por acidente. Eu sempre quis ter um cachorro Labrador, e em Curitiba, onde moro, não tinha nenhum criador. Em 1984 eu vi um anúncio no jornal de uma pessoa vendendo uma ninhada em São Paulo e fui lá ver os animais. Quando eu estava voltando, o meu carro derrapou em um lugar que é até apelidado de "curva do óleo". Eu capotei sete vezes. Cheguei aqui com cinco costelas e a omoplata quebradas. A primeira coisa que eu fiz depois que acordei foi perguntar se o hospital não estava precisando de um cirurgião cardíaco. No começo eles não estavam acreditando, mas acabaram topando. O cachorro também sobreviveu. O nome dele era Dafi e ficou conosco por um bom tempo.

* Por Randas Jose Vilela Batista, mineiro, entrou pra historia da cardiologia por ter criado uma inovação na cirurgia cardiovascular, intervindo diretamente no musculo do coração e retirando um pedaço, pro coração voltar a ficar forte.

quarta-feira, julho 07, 2010

A dimensão do sabor

Os vinhos possuem sabores ou pra ser mais preciso, aromas da boca, mas os vinhos não vêm com um sabor específico. Enquanto que você pode ter sentido um gosto de chocolate num vinho tinto que você está degustando, você não vai até uma loja de vinhos e pede por um vinho de chocolate, a não ser que você goste de ser motivo de chacota.

Ao invés disso, você deve se referir a família de sabores do vinho. Você terá os vinhos frutificados, ou seja, aqueles que fazem você pensar em frutas quando cheira ou quando ingere os mesmos. Você tem os vinhos earthy, ou seja, que fazem você se lembrar de minerais, pedras, floresta, jardim, folhas secas. Você tem também os vinhos spicy, que teriam cheiro de canela, pimenta, ou ervas indianas, por exemplo. Tem também os vinhos herbais que tem cheiro de grama, menta, alecrim, entre outros. E muitos outros tipos.

Se você gosta de um vinho e quer tentar outro que seja similar mas sendo diferente, (pois todos os vinhos são diferentes uns dos outros) um método é decidir qual família de sabores que estão no vinho que você gosta e dizer isso pra pessoa que está vendendo o vinho pra você.

Outra questão importante sobre o sabor é conhecer a sua intensidade, independente de quais são esses sabores. Alguns tem a intensidade de um Big Mac, enquanto outros tem a intensidade de um filet de um peixe quase sem gosto. A intensidade do sabor é um dos fatores que precisam ser levados em conta quando se vai colocar o vinho pra fazer par com uma comida. E também ajuda a dizer o quanto você gosta de um vinho.

Uma coisa interessante a respeito dos iniciantes de vinho (como eu) é que sempre se confundem ao descrever os vinhos secos como sendo vinho doce porque eles confundem o gosto de fruta com o gosto doce. Um vinho é frutificado quando possui aromas e gosto de frutas. A parte frutificada é sentida pelo seu nariz e pela passagem retronasal dentro da boca. Doçura, por sua vez, é uma impressão da sua língua. Quando estiver em dúvida, segure o seu nariz quando estiver degustando o vinho. Se o vinho for mesmo doce, você irá sentir sem se confundir, com o sabor de frutas.

Assim como, ser soft ou firme são também impressões texturais que um vinho dá a você quando você o degusta. Da mesma forma que a sua boca sente a temperatura na língua, também sente a textura. Alguns vinhos de fato parecem soft e macios quando descem dentro da sua boca. Enquanto alguns parecem duros, crus, ásperos. Nos vinhos brancos, a acidez é geralmente responsável pelas impressões de dureza ou firmeza.

Nos vinhos tintos, o tanino é que geralmente é o responsável. Baixos níveis de acidez ou taninos podem fazer o vinho parecer agradavelmente soft, ou muito soft, dependendo do vinho e de suas preferências.

Açúcar sem ser fermentado contribui pra essa impressão de ser muito soft, assim como pouco álcool. Mas álcool em excesso, como ocorre nos vinhos de hoje em sua maioria, dá ao vinho uma firmeza excessiva.

Um vinho é ácido ou tânico? Os vinhos tintos possuem ácido assim como taninos. E diferenciar os dois pode ser um desafio. Quando você não tem certeza, preste atenção de como sua boca se comporta quando você acaba de beber. O ácido faz você salivar, pois a saliva é alcalina e sai pra neutralizar o ácido. O tanino por sua vez, deixa sua boca seca.Essa é a diferença entre os dois.

segunda-feira, julho 05, 2010

Fatos para serem lembrados 5: A visita do Papa à Cuba

A chegada de João Paulo II à Cuba no final dos anos 90 foi envolta na mística de ser um desses momentos históricos. A Igreja sofria e ainda sofre restrições em Cuba, que um dia, antes do golpe de poder do Satanás barbudo, já foi um país católico. Mas quando por lá o Papa aportou, contava com um número insignificante de seguidores da palavra de Roma.

Quando o papa chegou no curral cubano, o carniceiro de Havana já estava com 71 anos, só a bosta. Hoje a praga já está com 83 anos e ainda está por aí, dando suas opiniões e pitacos pros outros presidentes cretinos, tipo Lula, Chavez, Moralez e Correa. O Papa foi à Cuba tentar fazer um projeto de transição política do regime totalitário da ilha. Tentou fazer como fez anos antes na Europa Ocidental e procurou um diálogo diplomático e negociador em Cuba com o objetivo de evitar o derramamento de sangue e até mesmo uma guerra civil no período após a morte de Castro. O único problema foi que o Papa morreu antes do coisa ruim.

Castro, por sua vez, agindo de forma realista, viu na Igreja Católica uma opção estratégica de que podia se valer pra preservar o seu próprio nome na história. O esforço das duas partes foi comum. Durante a visita do Papa, Fidel decretou feriados, convocou a massa e providenciou transporte gratuito para que a população comparecesse às cerimônias religiosas. Tenho curiosidade de saber o tamanho do problema que um sujeito teria caso se recusasse a ir. Iria rezar um Pai-nosso antes de receber um bala na cabeça. Mas que rezava, ah ele rezava.

As vantagens dessa visita do Papa pro regime castrista foram logo exibidas. A ultima vez que o mundo havia olhado pra Cuba com tanto interesse foi quando da ocasião da crise dos mísseis soviéticos na ilha, na época do governo Kennedy. Fidel, lógico, capitalizou a oportunidade pra dizer que o mundo lá fora é todo uma merda e que Cuba é uma beleza, que trata-se de um paraíso social incomparável.

Os exilados cubanos de Miami é que não gostaram dessa visita, pois o Papa indo por lá, estava como que dando legitimidade ao governo totalitário castrista. Mas o Papa não queria perder seu tempo tentando convencer Fidel a virar um democrata cristão, pois o homem além de ter um ditador, ainda tem parte com o demo. Um Hitler das Américas.

O Papa caiu na conversa mole de Fidel, que alegava que a pobreza de Cuba se devia ao embargo econômico dos Estados Unidos. Pura balela. Cuba só está na merda porque segue com o sistema socialista e antes só não era tão ruim pois recebia uma pesada mesada da União Soviética. Como hoje não recebe mais a esmola, vive ruim e quer culpar os Estados Unidos e o embargo.

Ora, o dia de Natal só virou feriado em Cuba um ano antes da chegada do Papa. Das 212 escolas católicas existente em Cuba antes de Fidel, todas foram fechadas. É nesse inferno que o Papa pretendia se fazer ouvir? Como eu disse, antes de Fidel, o Papa foi ter com o chefe lá em cima e o filho do Cão continua vivo e pouca coisa se mudou. A intenção do Papa foi boa, mas como dizem por ai, de boas intenções, Cuba está cheia.

terça-feira, junho 29, 2010

99 centavos pra se lascar

Grande parte das coisas que as pessoas gostam, eu não gosto. Doce é um exemplo de coisa que detesto. Pelo menos faz contrapartida com as saladas, que eu também não gosto, mas as pessoas também não gostam e dizem que gostam pra parecerem cool.

Mas, dentre as coisas doces, existe uma exceção, que são os chocolates. Nunca gostei, mas acho que por morar num país de clima frio, o chocolate se transformou num vício que meu organismo pedia, mesmo o cérebro não entendendo. Chega o Outono, lá vem aquela vontade de comer chocolate, é impressionante. Entro num local pra comprar uma revista e lá minha mão procura uma barra de chocolates.

Quando ainda morava no Brasil não tinha esse costume. Mas comecei com os amargos, pra não ir muito com sede ao pote. Até que descobri os chocolates da Ferrero, e aí fudeu tudo. A mistura de chocolate com avelã é a coisa mais gostosa que existe em termos de chocolates. O Ferrero Rocher, por exemplo, é a melhor coisa do mundo. Sem falar na pasta Nutella, também da Ferrero.

Como eu nunca havia visto isso antes? A pasta de cacau e avelãs foi criada em 1946, na Itália, por Pietro Ferrero e ficou até começo dos anos 2000 desconhecida pra mim. No inicio, essa pasta ficou conhecida como Giandula e somente em 1964 que viraria a Nutella.

A Ferrero chegou ao Brasil em 1994, seis anos antes de eu me picar de lá e eu nem havia tomado conhecimento. Mas era o mesmo que chegasse uma fábrica de absorventes, isto é, um produto que eu não consumo. O primeiro produto foi o Kinder Ovo e um ano depois, o maravilhoso Ferrero Rocher. Aqui no Canadá, custa 99 centavos por um pacote com três unidades de Ferrero Rocher. É pra se lascar mesmo.

domingo, junho 13, 2010

Vale a pena ler 28: O senhor guerra fria

O século XX foi um século trágico. Tivemos duas grandes guerras que sacrificaram a maior e a melhor parte da juventude dos ingleses, franceses, alemães, russos e, num grau menor, americanos. Esses povos não tinham capital melhor do que o representado por seus jovens, capital perdido em batalhas. A I Guerra Mundial foi ainda pior. Um de seus produtos, a Revolução Bolchevique, envenenou as relações entre o povo russo e o Ocidente por mais de setenta anos. A Europa teve perdas enormes e ainda hoje se ressente disso. Nesse sentido, a América Latina é o mais feliz dos continentes porque evitou envolver-se de modo profundo nos conflitos globais. Não sofreu as grandes distorções trazidas pelas duas guerras mundiais.

Os americanos demonstram o mais completo desconhecimento sobre a América Latina e nós só podemos ter esperança de que um dia a diplomacia americana se recupere e comece a olhar seriamente para a América Latina. Poucas pessoas fazem isso neste país. Um dos grandes problemas da política externa dos Estados Unidos é que, em grande parte, ela é conduzida ao sabor de considerações domésticas. Obviamente isso confunde os outros. Há muitos anos não temos um presidente com força bastante para dar um basta nessa situação. Tem muita gente opinando sobre política externa em Washington, quando ela deve ser privativa do presidente e do secretário de Estado.

A relação entre os países resume-se à questão comercial. Mas essa é uma questão enganosa, não importa a ênfase que se dê a ela atualmente. Acredito que basicamente os valores psicológicos e políticos sejam os que realmente contam. Não há por que ficarmos impondo condições e exigências aos países da América Latina, por exemplo.

Deveríamos fazer alianças, mas somos péssimos em alianças. Praticamente só temos duas. Uma com o Japão e outra com a Otan. Nada mais. Nem com Israel conseguimos estabelecer um acordo amplo de cooperação mútua. Nossos envolvimentos na Ásia, África, América Central e no Extremo Oriente são arranjos de ocasião. Não sou um especialista em América Latina, mas sempre digo ao nosso pessoal em Washington: "Tratem esses países com cortesia, com respeito, sempre. Não esperem muito deles no curto prazo. Façamos negócio quando eles quiserem negociar e seja proveitoso também para nós. Deixem que eles se desenvolvam da maneira deles". De modo geral, acho que a melhor maneira de um grande país ajudar os menores é pela força do exemplo. Temos de diminuir a estridência da nossa voz. Na questão ambiental, e mesmo em democracia e direitos humanos, nós temos muitas falhas para ficar bancando a palmatória do mundo.

Parece-me que o melhor que podemos fazer com relação a questão do islamismo é ter cautela. Quando o fundamentalismo tomar o poder num país, como fez no Irã e no norte da África, então deveríamos fazer alguma coisa. A coisa a fazer é manter a dignidade. Deveríamos deixar uma pequena representação diplomática mas não embaixadores nesses países. Nossa posição deveria ser esta: "Olhem aqui. Não temos poder sobre seu país. Governem da maneira que quiserem. Nada faremos contra vocês, mas também não esperem nossa ajuda". Estou-me tornando cada dia mais isolacionista, no sentido de que não quero nossa diplomacia tentando resolver problemas que ela não entende. A questão central de nosso envolvimento em outro país deve ser a coerência de princípios. Ou agimos com base em princípios que justifiquem todas as demais intervenções ou então é melhor não intervir.

Mas a política externa de Washington contraria frontalmente tudo o que disse no parágrafo anterior. Washington precisa de uma faxina. Continuamos dizendo às pessoas como elas devem governar seus países. É um erro gigantesco. Deveríamos economizar a energia que gastamos dando lições aos outros países e empregá-la na melhoria de nossa própria democracia. Chega de dizer aos outros como devem governar seu próprio povo. Isso não é correto, pois quem vai aguentar o resultado da aplicação dos nossos conselhos são os outros e não nós. Sou de uma escola diplomática que acredita firmemente em tratar os outros com cortesia e polidez mas não com muita intimidade. Não é o que os Estados Unidos vêm fazendo. Nossa diplomacia criou muitos dependentes. Quando Madeleine Albright era secretária de Estado, se enfureceu com o impasse nas negociações e disse a israelenses e palestinos que nós os deixaríamos à própria sorte, eles ficaram chocados. Ora, fomos nós que criamos neles a ilusão de que somos responsáveis pela sua segurança interna. Por mais fraco que se sinta, um país não pode confiar sua segurança interna a outro.

Para mim a palavra globalização não significa nada. No sentido comercial e financeiro hoje há comunicações mais eficientes entre países do que em outros tempos. No campo político ainda estamos longe disso. Graças a Deus. É uma boa política temer qualquer tipo de arranjo que se pretenda global. Sou a favor dos arranjos regionais, porque são os que realmente funcionam. Portanto, não vejo nada de novo que justifique o uso e abuso de palavras pomposas para descrever a presente situação internacional.

O mundo continua grande e complicado. Não acho que os conflitos possam ser enquadrados num único esquema global capaz de ordená-los. Também não sinto que os Estados Unidos estejam preparados para lidar com essa nova situação. Obviamente, temos dois grandes interesses globais. Um é a crise ambiental, incluindo-se nela a superpopulação, a urbanização e a exaustão dos recursos naturais. O segundo é o controle das armas nucleares e as de destruição de massa. Nosso objetivo deve ser a abolição total desses arsenais. Haveria um terceiro, que é uma questão interna mas diz respeito ao mundo todo, dado o nosso poderio. Essa questão é o aprimoramento de nossas deficiências como civilização, é a manutenção de uma sociedade capaz de inspirar o mundo.

O perigo de uma guerra mundial hoje está totalmente descartado. Não existe base para a eclosão de uma guerra abrangente, continental ou mundial. Não existe mais a possibilidade de que duas nações industrializadas façam a guerra entre si. As guerras deitam raízes profundas e amargas. Além disso, o grau de desenvolvimento das armas, não apenas as dos Estados Unidos e da Rússia, mas as de qualquer nação industrializada, faria da guerra um suicídio simultâneo. Mesmo sem o uso de armas atômicas. Paremos de pensar nesses termos. Paremos de pensar em termos militares.

Os militaristas causaram danos sérios a este país. Eles construíram a imagem da União Soviética como um inimigo grande e terrivelmente poderoso. O resultado prático mais absurdo dessa noção foi que montamos um arsenal de 200.000 armas e ogivas nucleares nas mãos. Santo Deus! Um décimo disso provavelmente seria bastante para tornar a vida impossível em vastas regiões do planeta. Tudo produto dos exageros dos militares.

Eu diria que não houve nada de ideológico no sistema soviético. O comunismo não é um ideário tão poderoso quanto parece. Ideologia não constrói regimes. As pessoas o fazem. As situações também. O regime soviético foi construído por ambos. O regime soviético e a Guerra Fria foram, na verdade, produtos das duas grandes guerras mundiais. Houve um período durante a II Guerra Mundial em que nem a França, a Inglaterra e nós, em conjunto, seríamos militarmente capazes de derrotar Hitler. Dependíamos visceralmente dos soviéticos. As tropas deles absorveram 85% dos ataques alemães por terra.

Tivemos a chance de derrotar Hitler sozinhos em 1938, mas não o fizemos. Hitler conseguiu montar uma formidável máquina de guerra entre 1939 e 1940. Um ano antes, quando ele pressionou a Checoslováquia, se todas as potências ocidentais tivessem reagido, é provável que o Estado-Maior alemão destituísse Hitler. Se isso tivesse acontecido, a Alemanha certamente teria sido um país diferente. Mas não aconteceu. Hitler teve o tempo e os recursos suficientes para desenvolver seu poderio bélico a tal ponto que os aliados não o poderiam enfrentar sem a ajuda dos soviéticos. O resultado disso foi que brotou entre nós uma relação confusa com os soviéticos, de quem fomos, então, completamente dependentes. Dizia-se toda sorte de tolices sobre a nobreza do aliado soviético. As pessoas se esqueciam de que esse aliado fora o mesmo que cooperara com Hitler até bem pouco tempo antes e que tentou fazer a paz em separado com ele. Como funcionário do governo americano em Moscou, era meu dever alertar Washington sobre a realidade soviética e seus objetivos imediatos, daí a origem do chamado Longo Telegrama e, mais tarde, do artigo na revista Foreign Affairs assinado simplesmente com um X.

Escrevi dois documentos que são considerados influentes e altamente citados na história contemporânea dos Estados Unidos (o longo telegrama e o artigo X) e muitas vezes sou ouvido, mas nem sempre. Outras vezes, interpretaram mal meus pontos de vista. A tese de que deveríamos confrontar os russos sempre que fosse necessário transformou-se numa corrida às armas, na constatação equivocada de que, se não era possível cooperar com eles, a única saída seria fazer uma guerra contra eles. O medo de que os russos atacassem a Europa foi tremendamente exagerado. Suas tropas estavam exaustas ao final da II Guerra, o país estava destruído. Eles não estavam em posição de começar uma nova guerra.

Se eu escrevesse o Longo Telegrama hoje, eu diria que a Rússia vai ter um regime mais democrático, mas que não será uma cópia do sistema americano. Diria que em 1910 havia mais gente na Rússia capaz de entender o que é uma democracia do que atualmente. Que os danos ao país pelas guerras e pelo comunismo não foram infringidos em um dia e seus efeitos não vão ser removidos em um dia.

Ieltsin era boa pessoa. Pelo menos não era corrupto. Mas começou a entender que a maioria das pessoas em torno dele eram. Por mais estranho que pareça, o problema da Rússia derivava do fato de que a queda do comunismo foi muito rápida. Se tivesse sido gradual, provavelmente as poderosas empresas estatais soviéticas teriam tido tempo de aprender como se ganha dinheiro no capitalismo. Como não tiveram, antes que o fim chegasse, os burocratas trataram de salvar a pele e mandaram bilhões de dólares para o exterior. Foi uma pilhagem. Gorbachev tentou fazer a mudança de forma gradual, mas Ieltsin precipitou tudo. Para se livrar de Gorbachev, ele desmantelou a União Soviética por decreto.

* Por George Kennan, diplomata americano, cientista político, historiador, nascido em 1904 e falecido em 2005, foi uma figura importantissima na criação da guerra fria.

terça-feira, junho 08, 2010

A língua do vinho

Existe diferença entre degustar vinho e sempre beber vinhos que você gosta. Essa diferença é que degustar é colocar gosto nas palavras. Não teríamos que nos preocupar com esse detalhe se pudéssemos escolher vinho como quem escolhe queijo na padaria. Pedindo um pedaço pra provar. Deixe-me testar outro, não gostei desse.

“Gostar/não gostar” não precisa do cérebro quando se tem o vinho na sua boca. Mas na maioria das vezes você tem que comprar o vinho sem testar antes. Assim, a não ser que você queira beber o mesmo vinho pelo resto da sua vida, você tem que decidir o que você gosta e o que você não gosta num vinho e comunicar isso a outra pessoa, que pode lhe direcionar pra um vinho que você goste.

Então temos dois problemas. Primeiro, encontrar as palavras para descrever o que você gosta ou o que você não gosta e fazer a outra pessoa entender o que você quer dizer. Naturalmente, isso ajuda se nós falarmos a mesma língua.

Infelizmente, a língua do vinho é um dialeto com um vocabulário indisciplinado e poético, cujas definições mudam todo o tempo, dependendo de quem está falando.
É sabido que os gostos do vinho se revelam sequencialmente, acompanhando o trabalho de reconhecimento da língua e o registro desses gostos no seu cérebro. É recomendado que você siga essa sequência quando se trata de colocar palavras no que você está degustando.

No que se refere a doçura, assim que você colocar o vinho na sua boca, você detecta a doçura ou a ausência dela. Na língua do vinho, “seco” é o oposto de “doce”. No inglês, dry/sweet. Classifique o vinho como doce, seco ou semi-seco (dry/sweet/off-dry).

No que se refere a acidez, todos os vinhos contem uma certa acidez, mas alguns vinhos são mais ácidos do que outros. Acidez é mais um fator de sabor nos vinhos brancos do que nos tintos. Para um vinho branco, a acidez é a espinha cervical do gosto do vinho, pois dá ao vinho uma firmeza na boca. Vinhos com uma quantidade grande de acidez são conhecidos como crispy, e os com pouca quantidade são conhecidos como flabby. Você geralmente percebe a acidez no meio da sua boca. O que os entendedores de vinhos chamam de mid-palate.

No que se refere a ser muito tânico, os vinhos tintos são bem mais tânicos do que os brancos, por causa do maior contato com as cascas da uva. Barris de carvalho também contribuem pro nível de taninos no vinho. Pra generalizar um pouco, os taninos são pros vinhos tintos o que a acidez é pros vinhos brancos: a espinha dorsal.

Os taninos separados podem ser amargos, mas alguns taninos nos vinhos são menos amargos do que outros. Também, outros elementos do vinho como a doçura pode mascarar a percepção de amargura. Você sente o tanino como amargo, ou firmeza, ou riqueza de textura, principalmente na parte de trás da sua boca e se a quantidade de tanino no vinho for alta, você sentirá também na parte interior da sua bochecha e na sua gengiva. Dependendo da quantidade e da natureza dos taninos, você pode descrever o vinho tinto como sendo firme ou suave.

Com relação ao corpo, o corpo do vinho é uma impressão que você tira do vinho inteiro, e não de um básico sabor registrado na sua língua. É a impressão do peso e do tamanho do vinho na sua boca, que é geralmente atribuído a quantidade de álcool do vinho.

Se diz impressão porque 5 ml de vinho na sua boca vai ocupar exatamente o mesmo espaço na sua boca e terá o mesmo peso do que qualquer outro vinho. Mas alguns vinhos parecem ser mais cheios, maiores ou mais pesado na sua boca do que outros. Pense na sensação de encherem sua boca e no peso quando você estiver saboreando. Imagine que sua língua é uma balança bem pequena e julgue quanto pesa o vinho que está lá. Classifique o vinho como encorpado, médio-encorpado e leve-encorpado (full-bodied, medium-bodied e light-bodied).

domingo, junho 06, 2010

Fatos para serem lembrados 4: A morte da princesa Diana

Morria aos 36 anos de idade, em um acidente de carro, a princesa Diana. Conhecida como A Princesa do Povo, a sua morte causou comoção no mundo inteiro. O seu ex-marido, o Principe Charles que foi buscar o corpo dela num quarto de hospital de Paris, onde o acidente ocorreu.

A Mercedes-benz S280 que ela vinha se espatifou a quase 200 kilometros por hora num pilar de um túnel paralelo ao rio Sena. Morreram também o namorado dela, o milionário egípcio Dodi Al Fayed e o motorista. Os paparazzi foram acusados de provocar a velocidade do carro, pra poderem fugir dos seus flashes. Disseram ainda que não prestaram socorro aos acidentados, e em vez disso, ficaram tirando fotos. Nos muros de Paris, os muros estavam escritos: “Paparazzis assassinos!”

Também foi incluído na lista de culpados o hotel Ritz-Carlton, do pai de Dodi Al Fayed, onde eles estavam hospedados. Isso se deu porque o carro estava sendo guiado pelo segundo homem da segurança do hotel, Henri Paul. Esse homem que vinha dirigindo o carro, e que morreu na hora, havia ingerido o equivalente a sete doses de whisky. O esquema de segurança adotado pelo próprio Dody Al Fayed falhou. Segundo contam os especialistas, um motorista só acelera acima dos 100 km/h se o patrão expressamente mandar e alem do que, se o patrão percebe que o sujeito está alcoolizado, como permitir que ele dirija?

Dodi e Diana iriam jantar no restaurante Benoit, mas em vez disso, comem na suite presidencial do próprio hotel. Então decidem passar a noite na casa de Dodi, em vez de ficarem no hotel. Três carros esperavam pelo casal: uma Mercedes S600, um Land Rover e a S280, que eles acabaram indo nela. O outro Mercedes e o Land Rover serviram como despiste. A S280 era alugada e não possuía airbags nas portas e nem o sistema eletrônico de estabilidade, ETS, que é uma espécie de computador de bordo que corrige a trajetória do carro quando o motorista entra muito veloz nas curvas.

Como tentavam despistar os paparazzi, o motorista que normalmente dirigia o casal saiu dirigindo um dos carros vazios. Então Diana e Dodi ficaram pra ir com Henri Paul, de 41 anos, solteiro, piloto diplomado pela Mercedes-Benz num curso de direção defensiva e de transporte de executivos. Ele trabalhava pros Fayed fazia 10 anos. Henri Paul já estava de folga e desceu parte da garrafa de whisky, quando foi chamado de volta à se apresentar ao trabalho. Ele tinha 1,87 grama de álcool por litro de sangue, quatro vezes o que era permitido pela lei francesa.

Um segurança sobreviveu ao acidente, e parece que era somente ele quem vinha usando o cinto de segurança. Como os airbags foram acionados no primeiro choque lateral com a parede do túnel, quando o Mercedes bateu de frente no pilar, não havia mais proteção alguma para os passageiros. Henri Paul havia entrado a mais de 180 kilometros por hora no túnel L’Alma.

Uma rede de televisão francesa pediu ao ex-piloto de fórmula 1 Jean Pierre Beltoise, que corria na época de Emerson Fitipaldi, pra refazer o trajeto e Beltoise disse: só um piloto profissional, com carro de competição e conhecendo a pista, poderia sair ileso do túnel de L'Alma a mais de 180 kilometros por hora.

O primeiro socorro foi feito por um médico que passava por acaso no túnel. Ela ainda estava viva, mas gesticulava caoticamente e balbuciava coisas sem sentido, segundo ele contou depois. Ele não sabia que aquela moça era a Princesa Diana. Então aplicou uma mascara de oxigênio e corrigiu a posição do pescoço, que estava caído sobre o ombro direito, dificultando a respiração. Os bombeiros quando chegaram, levaram uma hora e quinze minutos pra cortar as ferragens e liberar a princesa, que ficou com a perna esquerda presa sob os destroços do banco e do painel do carro, que foram parar no banco de trás.

Enquanto os bombeiros trabalhavam, os médicos deram sedativos e aplicaram massagens cardíacas, pois o pulso dela sumiu duas vezes. Quando ela chegou no hospital, o pulmão esquerdo se encheu de líquido e a cavidade torácica ficou encharcada de sangue em razão do rompimento da veia pulmonar esquerda. A situação era muito grave. Sem sangue pra alimentar o músculo cardíaco, o coração de Diana estava morrendo, exatamente como acontece num ataque cardíaco, quando as coronárias entopem.

O coração parou e não reagia a impulsos elétricos ou drogas de revitalização injetáveis. O peito dela foi aberto num procedimento de urgência e a intervenção estancou a hemorragia da veia pulmonar, o que permitiu ao cirurgião massagear o coração da princesa com as próprias mãos, mas foi inútil. O ventrículo esquerdo estava muito danificado e ela faleceu pouco tempo antes do dia raiar.

quinta-feira, junho 03, 2010

Assalto com calibre .38

Uma das maiores escrotagens que se tem notícia no Brasil nos últimos anos foi a chamada CPMF, que vem uma contribuição provisória sobre movimentações financeiras. O próprio nome já é uma sacanagem: contribuição? Contribuição um cacete. No meu entender, quando uma pessoa contribui com alguma coisa, ela tá fazendo de bom grado e não de forma compulsória.

Já pensou a seguinte cena: o ladrão chega pra tu (no caso o governo) com um 38 engatilhado e diz “malandro, contribui aí com mil reais”. No caso aqui, o 38 nego nem via, era um 38 invisível, que puxava o que? O que? Exatamente 0,38% sobre quase todas as movimentações bancárias de todos os brasileiros. Será que esse 0,38 é uma piada/alusão com a arma tão famosa?

Sim, mas a outra parte da sacanagem do nome é o provisório. Provisório? Também, ninguém leu o dicionário pra achar o significado de provisório. Tu imagina ai um parente que diz que está reformando a casa e quer ficar provisoriamente hospedado na sua casa pra economizar dinheiro caso tivesse que gastar com um novo aluguel. Nessa brincadeira, ele passa 10 anos ancorado por lá. E só saiu porque foi botado pra fora e saiu puto da vida. Então, é mais ou menos assim a historia da CPMF. E ainda se dizia provisória.

Essa esculhambação começou em 1993, ainda no governo Itamar Franco, mas só entrou em vigor em 1994, com o nome de IPMF. Cobrava aliquota de 0,25% e foi extinto no final de 1994, como havia sido previsto. E respeitando o caráter provisório.

Mas em 1997, voltou a vigorar com o nome já de CPMF e cobrando singelos 0,20%. Inicialmente, esse dinheiro ia somente pra saúde, como se os outros impostos já pagos pelos brasileiros não fossem suficientes. Em 1999, a CPMF foi prorrogada até 2002, agora com aliquota do ladrão, ou seja, 0,38%, pois agora também era destinada à Previdência Social. E os hospitais continuavam caindo aos pedaços.

Em 2001, teve uma pequena queda pra 0,30%, mas em 2 meses, voltou ao famoso calibre 0,38. Só deixou de existir como CPMF em final de 2007, quando o PT, puto da vida, perdeu em votação no Legislativo e não teve como usa-la mais. Mas engraçado, justamente o PT, essa cambada de filhos da puta que viviam reclamando de FHC usando a CPMF? Ficaram tão putos quando tiraram o direito deles de usarem?

Agora vejam que beleza. Uma empresa A usa os serviços de uma empresa B e paga 100 reais por esse serviço. Ao realizar esse pagamento, a empresa A paga 0,38 pro governo. A empresa B agora tem 100 reais na sua conta, e vai pagar 100 reais ao funcionário Zezé como salário e paga também os 0,38.

Zezé vai ao supermercado e usa um cheque pra pagar sua conta, afinal, se andar com o dinheiro dando sopa, o ladrão da rua rouba tudo. Melhor ser roubado pelo ladrão governo, que leva somente 0,38. Então o supermercado quando movimentar esses 100 reais, pagará outros 0,38. Então não é mais 0,38 que foram pagos sobre os cem reais e sim 1,52.

As três empresas em questão tem como se defender, pois alocam o preço desse imposto no produto final. E Zezé, como se protege? Zezé entrou pelo cano mais uma vez, como entram todos as pessoas físicas nesse Brasil de Marias e Clarisses.

sexta-feira, maio 21, 2010

Paladar

Depois que você olhou pro vinho e o cheirou, você está finalmente liberado pra prova-lo. Esta é a hora que homens e mulheres fazem caretas, mexendo o vinho dentro da boca, com caras de concentração. Você pode fazer um inimigo pro resto da vida se você atrapalhar um especialista no momento que ele está focalizando suas energias nas últimas gotas de um vinho especial.

É assim que funciona. Tome um gole nem muito grande e nem muito pequeno. Segure-o vinho na sua boca, abra seus lábios e deixe entrar um pouco de ar, sobre o vinho. Então mova o vinho dentro da sua boca como se estivesse mascando chiclete e depois engula. O processo inteiro deve durar alguns segundos, dependendo de quanto você se está se concentrando.

O gosto na língua pode registrar várias sensações, que são conhecidas como os gostos básicos. Estes são doces, ácidos ou amargos. Mas se você mexer o vinho dentro de sua boca, você terá maiores possibilidades de encontrar todas as papilas gustativas, não perdendo nada do que está no vinho.

Ao mover o vinho dentro de sua boca, você também está ganhando tempo. O seu cérebro precisa de alguns segundos pra descobrir o que a língua está sentindo. Qualquer doçura no vinho é registrada no seu cérebro primeiro pois o vinho bate primeiro nas papilas gustativas da ponta da língua. Acidez e amargura são registradas logo em seguida. E enquanto o seu cérebro está trabalhando pra descobrir as impressões de doçura, acidez ou se é amargo, você pode pensar como o vinho está se saindo na sua boca: se é forte, leve, suave, e por ai vai.

Mas acidez, doçura e amargura são as 3 coisas que você pode sentir no seu paladar. Alem de uma impressão geral de peso e textura. Mas e a respeito dos cheiros de morangos, chocolates, por exemplo? Esses cheiros são aromas que você saboreia não com sua língua, mas inalando-os através de uma passagem nasal interior, localizada na parte de trás da sua boca, chamada de passagem retro nasal. Isso acontece quando você deixa o ar entrar na sua boca, então você vaporiza os aromas da mesma forma que se faz quando você gira o copo e faz o vinho respirar.

sábado, maio 15, 2010

Fatos pra serem lembrados 3: A devolução de Hong Kong pra China

A Inglaterra devolveu Hong-Kong à China na segunda metade dos anos 90. A ilha rochosa e um pedaço de terra no continente era um enclave bilionário. O tamanho de Hong-Kong, tudo somado, dá o tamanho da cidade de São Paulo, mais ou menos. Mas que tinha um PIB per capita maior do que a Alemanha e a economia mais sólida do que a da Inglaterra, que controlou Hong Kong por 156 anos.

A devolução de Hong-Kong, que em inglês significa “porto perfumado”, marcava o fim de uma era, a da conquista territorial. Tornou-se inaceitável no mundo moderno que um país arrancasse um pedaço material de outro. Sadam Hussein quando invadiu o Kwait se lembra muito bem das consequências de se querer invadir outro país.

A China cedeu Hong-Kong pra Inglaterra em 1842, resultado das negociações do Tratado de Nanquim, que foi assinado pelos chineses logo depois da derrota militar na chamada I Guerra do Ópio. Em 1898, os ingleses queriam mais território chinês, mas dessa vez no próprio continente. Inventaram uma guerra e tomaram as terras. Mas quando foi negociar novamente, os ingleses aceitaram uma cláusula que dizia que o uso de Hong Kong e da península de Kowloon duraria apenas 99 anos. E esse período acabou em Junho de 1997.

Os ingleses, apesar do colonialismo, fizeram um ótimo trabalho em Hong Kong do ponto de vista financeiro, econômico e de infra-estrutura, que permitiu o extraordinário desenvolvimento de Hong Kong. Nos anos 1930, havia mais telefones por habitantes em Hong Kong do que no Brasil antes das Teles serem privatizadas nos anos 1990. Hong Kong tinha até um sistema judiciário independente.

Sem riquezas, mas com um porto de águas profundas estrategicamente colocado na porta de entrada da Ásia, Hong King definiu logo sua vocação para o livre comércio. Os europeus então construíram ali um arranjo feito pra criar fortunas financeiras. A reclamação era de que riqueza não faz uma civilização. Hong King não tinha um poeta, um filósofo ou um escritor de renome mundial.

Um em cada habitante era viciado em heroína, recorde mundial na época e gastavam 11 bilhões de dólares anuais em apostas em corridas de cavalos, cujos resultados eram todos manipulados. Tinha um PIB per capita de 23 mil dólares, mas o salário médio não passava de 9 mil dólares anuais. Se produzia riqueza, mas a concentração de renda era enorme. Foi isso o que a China recebeu de volta. Foi tambem um ótimo investimento pra China. Será que nao tem nenhum país querendo "alugar" o Brasil?

quarta-feira, maio 12, 2010

O dinheiro verde

Em meados dos anos 90, começou a moda de tudo ser ecológico, de tudo ser “verde” e lógico, junto com essas modas, sempre surgem os “ecopentelhos”, como dizia Roberto Campos e os “ecoladrões”. Começava uma tentativa, necessária até certo ponto, diria eu, de unir economia e ecologia. A ideia inicial soou bem no meio empresarial, que via uma oportunidade de “parecerem” ou “serem” bonzinhos aos olhos da massa e soava bem também pros dirigentes das ONGs, que viam ali uma oportunidade de arrecadar mais algum e não dar satisfação pra ninguém, como elas aprenderam bem a fazer.

Mas pra usar essa união ao máximo, de economia e ecologia, porque não passar a explorar os parques de preservação ambiental? Gera divisas pra economia local e empregos e os turistas politicamente/ecologicamente corretos, adoram fazer esse tipo de programa e mais, contar pros amigos que fizeram um turismo ecológico. Tipo aquele cara que diz que só come orgânicos pros amigos e se acha quase um espírito de luz por fazer isso.

Deu-se o nome desse segmento de “ecoturismo” e o pioneiro nesse tipo de exploração no Brasil foi o Parque do Iguaçu, no Paraná. Dos turistas que vinham ao Brasil nesses meados dos 90, 12% iam pra lá pra ver as cataratas. Nessa época, o Parque do Iguaçu recebeu mais turistas do que o Parque da Tijuca, no rio de Janeiro, que tem como atracão o Corcovado, que vem a ser um cartão postal do país.

Outro segmento desse tipo que surgiu era formado por empresas que reciclavam latinhas. Aqui no Canadá, você junta as suas e coloca num lixo especial. O governo leva e recicla. No Brasil, como se sabia que ninguém ia fazer isso, eles pagavam pra você juntar as latinhas. Tinha um menino que todo mês ia lá em casa buscar umas latinhas. Meu pai juntava todas e entregava todo feliz pro rapazote. Fantástico, não? Os meninos limpavam as ruas de graça pro governo, fazendo o trabalho dos garis e ainda tinha uma empresa privada que pagava por esse serviço. Como vivemos sem isso antes?

O projeto Tamar, aquele das tartarugas, tinha 60% recursos oriundos do Ibama e da Petrobras, 10% de doações e os 30% restantes, arrecadavam quando vendiam camisetas, buttons, chaveiros e CD Roms. Hoje tem tanta tartaruga que virou praga, pior do que a quantidade de cangurus na Austrália. Daqui a pouco vai ter mais tartaruga do que gente. Mas engraçado, um projeto de tartaruga na Bahia. Baiano preguiçoso, tartaruga aquela lentidão toda. Será que tem algo a ver?

Mas rapaz, nesse negócio lucrativo de ser “verde”, mesmo que se você quiser criar animais silvestres pra ter lucro, você pode, basta ter uma autorização do Ibama e ainda dizem que você é visto com bons olhos, pois está ajudando a acabar com a extinção de algumas espécies, como o jacaré do pantanal e a capivara, que chegavam ao mercado somente através dos clandestinos. Você criava jacarés e vendia a carne pra restaurantes, Frigoríficos e supermercados. O negócio é chegar perto deles sem eles morderem.

O mesmo começou a ocorrer com os produtos que não usavam agrotóxicos. Quem entrasse nesse ramo, tinha um público que estava disposto a pagar mais caro só pra se ter um produto com um selo de qualidade ecológica. Era bom pra ecologia e pra mostrar aos seus amigos que você é “cool”. A loucura era tão grande que foi lançado um certificado ISO 14000, que garantia que os detentores desse certificado era uma empresa saudável do ponto de vista sócio-ambiental.

Novamente os baianos. Uma empresa de papel e celulose baiana, a Bahia Sul, foi a primeira empresa a receber o ISO 14000 em todas as Américas. Já pensou? Os baianos são invocados mesmo. Para obter essa certificação, monitora-se desde o número de reclamações da comunidade ao consumo de água e a quantidade de resíduos gerados por produto.

Eu só sei que daqui a pouco tempo, até os filhos vão nascer com o selo ecológico. Feito sem ajuda de químicos ou remédios. De forma natural de acasalamento, sem qualquer ajuda externa. Ô desgraça.

Eu agora estou começando a lidar com o jardim da minha casa, num primeiro sinal de que a velhice está tomando conta de mim. Mas vejam, as ervas daninhas e o mato que teima em crescer na grama não podem ser exterminados com ajuda química, pois não é ecologicamente correto e o governo baniu esses produtoes de serem vendidos nas lojas. Tem-se que arrancar um por um. E aí vamos vivendo, salvando o planeta, enriquecendo os verdes e acabando com o resto do nosso tempo livre, que seria pro lazer, agora só serve pra trabalhar de graça em prol do planeta. E haja paciência.

quarta-feira, maio 05, 2010

Vale a pena ler 26: Sucesso é sorte

Não existe sucesso garantido nesse negócio de literatura. Fico em pânico a cada novo livro. Sempre passa pela minha cabeça a idéia de que não vou vender um exemplar sequer. Então, para me tranquilizar, compro um logo no dia do lançamento. Pelo menos assim ninguém poderá dizer que o livro não vendeu nada. Não acho que seja o detentor de uma fórmula cujos ingredientes eu possa ensinar. O fato é que meus livros agradam tanto a um cientista na Noruega como a um motorista de caminhão na África do Sul, à família real da Inglaterra ou à primeira-dama dos Estados Unidos.

Eu sei que agrado a cada um deles pois recebo milhares de cartas e telefonemas. A rainha Elizabeth II e Hillary Clinton já me disseram pessoalmente que lêem meus livros. Ambas pareciam ter gostado muito. Por isso acho que não existe fórmula. Como posso escrever um livro pensando em agradar ao mesmo tempo a um caminhoneiro, uma dona de casa do Kansas e um nobre? O que faço é seguir uma trilha imaginária de idéias que satisfaçam a minha curiosidade e emoções. O resto é sorte. Mas convenhamos que isso não explica tudo. No fundo acho que o sucesso se deve ao fato de que meus personagens são reais para mim. Eu sinto o que eles sentem.

Muito raramente em me inspiro em pessoas de carne e osso pra compor meus personagens. Eles são todos criados por mim. Têm vida própria na minha cabeça. Outro dia minha mulher, Alexandra, me surpreendeu chorando em nossa casa na Califórnia. Ela me disse: "Querido, o que foi? Fiz alguma coisa errada?" Respondi: "Não, você não tem nada com isso. É um de meus personagens que está enfrentando um problema sério e não sei como tirá-lo dessa encrenca". São de carne e osso para mim. Meus leitores também os consideram assim. Em um de meus livros, eu deixei que um garotinho morresse. Recebi cartas iradas. Alguns leitores me chamaram de assassino.

Fiquei muito tocado com aquilo tudo. Quando o livro foi adaptado para se tornar uma minissérie de televisão, decidi, para felicidade geral, que o menino sobreviveria. Meus personagens são mais reais do que eu. Às vezes sou reconhecido na rua. Mas não tanto quanto, digamos, Kirk Douglas, meu vizinho em Palm Springs. De vez em quando tomamos uns drinques e Kirk lamenta que ele não possa entrar num bar ou fazer compras sem que uma multidão se junte em torno dele. Eu posso caminhar tranquilamente entre as pessoas como se fosse um sujeito comum. Bem, pelo menos até que alguém pronuncie meu nome em voz alta. Enquanto isso não acontece, eu desfruto do melhor dos dois mundos, a fama e a invisibilidade no meio das multidões. Kirk tem uma ponta de inveja disso.

Meu personagem Jeannie, de Jeannie é um Gênio é real pra mim. Servi na Força Aérea quando era jovem e conheço muitos astronautas. Estudei a vida deles da maneira mais próxima que isso pode ser feito, que é convivendo com eles e suas esposas. Jeannie é uma fantasia, é óbvio, mas os militares ali são muito parecidos com os de verdade. Adoro esse seriado.

Já dei bola pra que os críticos diziam, depois parei. Chegaram a dizer que eu fui tão destrutivo pra literatura de cada país como Hollywood foi para os cinemas nacionais. Fazer o que? É a vida.

No Japão, muitas vezes, meus livros são o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto mais vendidos. Fiquei tão grato com meus leitores japoneses que aceitei uma proposta do governo daquele país para escrever uma série de livros em inglês mais simples, que para serem usados para ensinar nosso idioma a crianças e adolescentes. Fiz questão de não cobrar um tostão deles. Claro que para mim também era muito bom porque quando eles crescerem iriam comprar meus romances. Mas não, não dou bola ao que os profissionais escrevem. Já liguei muito no passado. Hoje sou eu quem os critico, e tenho até uma definição muito particular do que seja um crítico.

Um crítico é um sujeito que compra mais de um romance escrito por um mesmo autor. Ou seja, é uma pessoa que investiu seu dinheiro e tempo para voltar a um autor que ele admira. Meus críticos são, então, as pessoas que seguem comprando meus livros e que me deram o recorde de ter vendido 275 milhões de exemplares em trinta anos de carreira. Aquelas pessoas que escrevem para jornais e revistas, em cujas páginas derramam todo seu profundo conhecimento sobre todos os campos do conhecimento humano, e que por isso se sentem no direito de dizer às pessoas o que elas devem ler ou não, são arrogantes. Não me incomodam nem um pouco. Enquanto isso, eu emociono as multidões. Outro dia, uma mulher me ligou para contar que o marido, preso ao leito de morte num hospital, pediu a ela que lesse meus livros para ele sem parar, e que continuasse lendo mesmo quando ele perdesse a consciência. Duvido que um crítico tenha esse tipo de resposta dos leitores.

Talvez os americanos sejam os que mais gostam dos meus livros, mas em quase todo o mundo é a mesma coisa. No Brasil, vivi momentos tocantes. No Recife, um jovem de pouco mais de 20 anos se destacou da enorme fila que se formara numa livraria onde estava autografando meus livros. Ele veio falar comigo. Disse que os pais o chamaram Sidney por minha causa, que se tornara advogado por inspiração de um personagem de um dos meus livros e que estudava inglês para ler minhas obras no original. Mais tarde aparece uma jovem senhora com um bebê no colo, uma menina linda a quem ela dera o nome de uma personagem minha. É emocionante e indescritível. Ficamos tão emocionados, minha mulher e eu, que no dia seguinte fizemos outra sessão de autógrafos. Para ficar mais um dia com o povo no Recife tivemos de recusar os convites insistentes do presidente da República, que na época era Fernando Collor, para que o visitássemos em Brasília. Sua jovem esposa, Rosane, dizia que era minha fã.

Comecei a escrever aos 10 anos e nunca mais parei. Era algo forte dentro de mim. Por meu pai, não teria nem começado. Certa vez, escrevi um poema, botei num envelope e pedi que ele enviasse para um concurso promovido por uma revista infantil. Meu pai achou um absurdo. Muito a contragosto ele botou o envelope no correio, mas substituiu meu nome pelo de um tio. Duas semanas depois, na hora do almoço, meu tio comentou que não sabia por que diabos uma revista tinha mandado para ele um cheque de 10 dólares. Foram os primeiros 10 dólares que ganhei escrevendo. Aos 17 anos já trabalhava nos estúdios de Hollywood. Eles me pagavam 70 dólares por semana para transformar livros em roteiros. Portanto, estou nesse negócio há muitas décadas.

Quando ainda estava vestindo o uniforme da Força Aérea escrevi três musicais para a Broadway. Dirigi Cary Grant e outros astros e estrelas da época. Sou amigo de gente famosa desde muito jovem. Talvez meus críticos, por não saber como essa gente é de verdade, achem meus personagens artificiais.

Sempre fui a mesma coisa. Quando os editores me disseram, pela primeira vez, que um livro meu havia chegado à lista de best-sellers com milhares de cópias vendidas em uma semana, nem me toquei. Meus roteiros e musicais já haviam sido vistos por milhares, minhas minisséries por milhões. Há trinta anos todo livro que eu escrevo entra na lista dos best-sellers.

Não escrevo meus livros. Eu os dito para minha secretária. Posso ditar cinquenta páginas por dia, se for o caso. Por isso, poderia facilmente fazer dois a três livros por ano. Mas não faço. Escrevo um a cada dois anos para manter o padrão.
Depois ela os relê para mim e vou trabalhando nos trechos até me dar por satisfeito. Como não tenho o trabalho braçal de datilografar os textos, sinto-me leve para refazer um mesmo rascunho muitas e muitas vezes até encontrar a forma perfeita.

Também não tenho um esquema predeterminado, uma trama básica que depois vou preenchendo com personagens. Comigo se passa o contrário. Primeiro me vem à mente um personagem e a partir dele é que as ações se desenvolvem.

Não tenho nenhum livro nem mesmo parecido com o outro. O que eles têm em comum é o fato de serem livros sobre pessoas, não sobre coisas, fatos, situações, indústrias. E as pessoas, no fundo, são iguais. A revista Time escreveu certa vez que sou tão poderoso que basta dizer três palavras para que qualquer editora se comprometa a lançar um livro meu. É isso mesmo que acontece, mas não tem nada a ver com poder. Eu ligo para o meu editor e digo, por exemplo, que tenho na cabeça uma jovem e ambiciosa advogada. A partir daí ela começa a viver na minha imaginação. O fato é que os editores confiam em mim e se comprometem com o livro, fazem os adiantamentos e tocam os planos.

Se eu fizesse um livro com um pseudónimo, eu não sei se venderia. No começo acho que seria um encalhe monumental. Depois, se o livro fosse bom, acho que a propaganda boca a boca iria levá-lo à lista de best-sellers. Aliás, não existe nada mais poderoso para um autor do que a propaganda boca a boca. Não existe marketing, propaganda, capa bonita, show de televisão que faça um livro chegar a ser um best-seller.

Eu não leio best-sellers. Esse negócio é tão sério para mim que acho meio estranho ficar entrando no mundo dos outros. Leio Tom Wolfe. Li Somerset Maugham, os clássicos franceses. Há muitos anos não os releio.

Não acredito que meus personagens ensinem nada ao leitor. Meu objetivo é que meus leitores, durante as quatro ou cinco horas que levam para ler um livro, se desliguem do mundo real. Espero que eles se envolvam tanto com os personagens que esqueçam seu cotidiano e façam uma viagem por um mundo fantasioso. Meus livros são feitos para divertir.

Eu também pesquiso muito antes de escrever. Todos os restaurantes, hotéis, hospitais ou cidades que descrevo nos meus livros são exatamente como estão nas páginas. Ontem mesmo fui a Quebec, no Canadá, certificar-me de alguns detalhes da cidade que servirá de cenário para um capítulo do livro que estou escrevendo. Já fui dezenas de vezes a Quebec, mas quero ter certeza quando descrever as cores, os aromas e a arquitetura da cidade. Agências de turismo fazem excursões em que as pessoas são guiadas por locais descritos nos meus livros. Quando eu descrevo um almoço na Guatemala, tenho segurança porque almocei naquele lugar muitas vezes. Cada livro meu é precedido de centenas de entrevistas. E sou eu mesmo quem pesquiso. No fundo, o que me interessa são as pessoas com suas iniquidades, ambições, generosidades e perversões. Exatamente o que elas fazem, onde e como vivem e trabalham não me interessa tanto. E pra quem nunca leu um livro meu, comece pelo "O Outro Lado da Meia-Noite." É um espetáculo.

* Por Sidney Sheldon, escritor americano que mais vendeu livros, nascido em 1917 em Chicago, faleceu em 2007, no seu rancho, na Califórnia.

domingo, maio 02, 2010

Olfato

Agora chega-se uma parte interessante da degustação: girar e cheirar o vinho. Aqui é onde você deixa a sua imaginação correr solta e ninguém pode contradizer você. Se você diz que o vinho cheira a morango pra você, como alguém pode dizer que não cheira?

Antes de explicar o ritual de cheirar e a técnica que vai junto com ele, é necessário dizer que: 1) você não deve aplicar essa pratica pra todo vinho que você toma; b) você não vai parecer tolo ao faze-lo, pelo menos perante os olhos de quem gosta de vinho (o que não se pode dizer pros outros 90% dos humanos) e c) é um truque muito bom nas festas pra evitar que você fale com alguém que você não gosta.

Pra aproveitar ao máximo a sua cheiração, gire o vinho no copo primeiro. Mas não gire se o copo estiver mais do que a metade cheio.

Mantenha o seu copo na mesa e gire-o três ou quatro vezes até que o vinho gire dentro do copo e se misture com o ar. Então rapidamente traga o copo pra perto do seu nariz. Coloque seu nariz dentro do espaço aéreo do copo e cheire o vinho. Tenha uma mente aberta e associe com o que você acha mais próximo.

O aroma é frutificado? Parece com madeira? É fresco? Cozinhado, intenso, leve? O seu nariz fica cansado logo, mas também se recupera logo. Espere um momento e tente novamente. Escute ao comentário de quem está com você e tente encontrar as mesmas coisas que ele encontrou.

Ao girar o vinho dentro do copo, os aromas do vinho irão de vaporizar, então você poderá senti-lo. O vinho tem muitos conjuntos aromáticos que qualquer coisa que você encontrar no vinho provavelmente não será somente fruto da sua imaginação.

O importante por trás desse ritual de girar o vinho e cheira-lo é que o cheiro seja agradável pra você, talvez até fascinante e que você deve se divertir no processo.

Mas, e se você encontrar um cheiro que você não gosta? Nas apreciações de vinhos, você pode escutar palavras pra descrever cheiros, tais como petróleo, fósforo queimado, aspargus, etc.

Felizmente, os vinhos com esses cheiros não serão os vinhos que você irá beber pela maioria das vezes, a não ser que você fique viciado. E se você ficar viciado, passará a pensar que esses aromas nos vinhos certos, pode deixa-los especiais. Mesmo que você nunca venha a gostar desses aromas, você irá identificá-los como características típicas de certas regiões ou certas uvas.

E também existe os maus cheiros que ninguém defende. Não acontece com muita frequência, mas acontece, uma vez que o vinho é um processo natural, um produto agrícola com vontades próprias. Quando o vinho tá ruim, não é aconselhável nem beber. E não significa que você ficaraádoente, mas porque submeter as suas pupilas gustativas ao mesmo sofrimento que o seu nariz? Algumas vezes a culpa é da rolha, ou algum problema quando o vinho estava sendo feito ou estocado. Jogue a garrafa fora e abra outra.

Quando se trata de cheirar o vinho, muitas pessoas se preocupam de não estarem aptas a detectarem aromas diferentes. Mas cheirar o vinho é apenas matéria de prática e atenção. Se você começar a prestar mais atenção ao seu olfato no seu dia-a-dia, você vai ficar melhor na arte de cheirar o vinho.

Algumas dicas pra voce ficar mais esperto na arte de cheirar o vinho:

1) Seja curioso mesmo. Não tenha vergonha. Enfie o seu nariz dentro do espaço aéreo do copo, onde os aromas estão presos.

2) Não use perfume forte, pois ele irá competir com o cheiro do vinho.

3) Não tente cheirar o vinho quando existe outra comida com cheiro forte por perto. Se você pensa que está sentindo cheiro de tomate no seu vinho, esse tomate poderá tranquilamente vindo da macarronada que seu amigo está comendo.

4) Se transforme num cheirador. Comece a cheirar tudo o que você cozinha, tudo o que você come, cheire as verduras e frutas frescas que você compra no mercado, e até mesmo os cheiros do seu ambiente como couro, terra molhada, cheiro de asfalto novo, grama, flores, cachorro molhado, graxa de sapato, remédios, etc. Encha o HD da sua cabeça com cheiros e você criará uma memoria de cheiros que ficara a sua disposicao pra quando você precisar usa-la.

5) Tente técnicas diferentes de cheirar. Algumas pessoas dão fungadas curtas, rápidas, enquanto que outras gostam de dar uma forte e profunda tragada. Manter a boca um pouco aberta enquanto você inala pode ajudar a perceber os aromas. Algumas pessoas inclusive fecham uma narina e só cheiram com a outra.