quinta-feira, março 07, 2013

O reacionário

Tive o prazer de ler uma entrevista de Nelson Rodrigues à revista Veja de 4 de junho de 1969. Esta foi a primeira entrevista que a revista fez e que mantem essa tradição até hoje, depois se tornando as páginas amarelas. O impressionante é a atualidade do conteúdo, apesar de ter quase 45 anos de idade.

O repórter pergunta ao grande escritor se ele era um reacionário. Ele responde, em outras palavras, que era um reacionário com todo o prazer, em vista que os que se diziam libertários eram “uma beleza”. Os libertários para os intelectuais e artistas brasileiros eram os soviéticos, por exemplo, onde de uma vez só Stalin matou 12 milhões de camponeses, os confinando a uma fome planejada.

Libertário era o socialismo, onde a experiencia tinha ceifado a vida de 100 milhões de pessoas no total. Assim sendo, Nelson Rodrigues disse que não era somente reacionário, era também o passado, a Idade Média. O futuro, que essa gente dizia que representavam, não significava nada pra ele.

O mesmo ocorreu na última década e ainda ocorre hoje. Se você não está alinhado com os bandidos que estão no poder no Brasil hoje em dia, você é considerado um ser antiquado, uma anta, um alienado, um ser pré-histórico, que torce contra o país. O bom é Cuba, o “cool” é chorar pela morte de Hugo Chavez, o legal é ir para as ruas protestar contra uma blogueira cubana. O antiquado é ser contra tudo isso. Assim, eu também sou um verdadeiro homem de Neandertal.  

Maravilhosamente, no decorrer da entrevista, ele diz que é anticomunista, pois para o comunista, o que chamamos de DIGNIDADE, trata-se apenas de um preceito burguês. Para o comunista, o pequeno burguês é um idiota absoluto justamente porque tem ESCRÚPULOS.

Ora, vejam só, não é esse o quadro que temos hoje em dia?  Com toda a rede de corrupção no país, já provada e comprovada, os militantes e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores e aliados não se fazem de rogados em ignorar isso, como se estivessem acima do bem e do mal? Eles dizem praticamente que não devemos nos preocupar com esse simples detalhe, que a corrupção é necessária pra um plano maior, que só eles sabem e conhecem. Ou então que o mensalão é invenção da oposição…

Ou seja, em outras palavras, querem dizer que a honestidade é coisa de otário, de burguês. Que o “sabido” mesmo tem que estar junto com eles. Que falar que Fidel e Che Guevara são os caras pra uma blogueira cubana que conhece a podridão do sistema cubano por dentro é que é o legal. Que Fidel ser um ditador canalha, um assassino de milhares de cubanos, um tirano, não tem nada demais. Que se Fidel faz parte da turma deles, entao ninguém fala dele. Ama tanto e de tanto amar acha que ele é bonito?  

Continuando a entrevista, Nelson diz que os jovens que fizeram aquela bagunça na França em 1968 eram umas bestas. Era uma juventude que escrevia nas paredes o slogan “É proibido proibir”, e ao mesmo tempo carregavam cartazes com nomes como “Lenin”, “Mao”, “Guevara”, e “Fidel”, indivíduos autores das proibições mais cruéis.

Caramba, os mesmos jovens, que carregam hoje em dia bandeiras escritas “Democracia” e “Liberdade”, são os mesmos que louvam e se masturbam pra Fidel Castro, que não é retrato nem de democracia e muito menos de liberdade na ilha que controlava até pouco tempo atras e que deu de presente pro seu irmão. Incrível não?

São os mesmos jovens que chamam Hugo Chavez de libertário, democrata e benfeitor. O mesmo Chavez que controla imprensa escrita, televisão e radio, que estatizou o país do jeito que quis e que manipulou eleições a vida inteira e defeca pra constituição do seu país. Juízes lá trabalham pra ele, não pra justiça. Mas é um grande homem pra essa juventude. E nesse caso aqui, pra os velhos também.

A história se repete. Só não se repete em uma coisa, naquela época, teve um grupo de homens que tomou o poder pra organizar a casa, botar moral e escovar uns fatos. Hoje em dia todo mundo assiste impávido, e a única atitude que tomam é contratar seguranças, comprar carros blindados, e se fechar nos bunkers dos seus apartamentos (pois casa só se for em condomínio fechado), uma vez que os bandidos tomaram conta do Brasil, com a conivência dessa corja que está no poder, com suas canalhices, suas alianças com narcotraficantes latino-americanos e seus direitos humanos.

Quem vai salvar o Brasil? Tomara que um grupo de homens reacionários, antiquados, burros e honestos, que gostem de ordem, que achem que dignidade e escrúpulo não são coisas de burgueses, mas sim qualidades inerentes à todo e qualquer ser humano, independente com quem ele se deite, do pé que ele chuta ou do Deus que venere. 

E rápido, pois os modernos, inteligentes e engajados elementos, enquanto não depredarem o país inteiro, não irão sossegar. E então partirão pra viver nos Estados Unidos, pois em Cuba, nem pensar. Ah, meninos...

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Gestos valem mais do que palavras


Trata-se de um anúncio publicitário interessantíssimo que atesta sobre como o mundo era muito diferente há quarenta e poucos anos atras. Mas não era diferente, diferente. Era muito diferente mesmo. As mudanças nessas últimas quatro décadas atingiram uma velocidade nunca antes detectada na história da humanidade. E acredito que essa velocidade só vem aumentando.

Tipo, se nos últimos quarenta anos tivemos um coeficiente de velocidade de 20 pontos, metade desses pontos foi somente nos últimos 10 anos. E aumentará ainda mais.  

Olhem esse anúncio da União Brasileira dos Bancos, de fins dos anos 60, que diz que a melhor maneira de você confiar na sua mulher é abrindo uma conta conjunta com ela. Primeiro, até então não existia conta conjunta no Brasil. Segundo, o anúncio deixa a entender que só os homens tinham conta em banco e que deveriam abrir uma conta conjunta pra esposa. Terceiro, se fosse hoje, ainda estariam zombando da mulher, pois adicionar a mulher na conta conjunta seria o ato máximo de confiança.

Já pensou o diálogo?

- Olhe meu amor, eu confio muito em você, vou até colocar você junto comigo numa conta chamada conjunta que inventaram agora!

- Oh, que emoção!

O anúncio falava ainda em “repartir a responsabilidade de administrar o dinheiro da família com a esposa”, ou seja, até então, a pobre coitada só entendia mesmo de lavar, cozinhar, passar, fofocar e se deitar.

Ainda, “Você não vai precisar sair de casa pra pagar as contas de água, luz, telefone, impostos, carnês e etc, a sua mulher poderá fazer isso pra você”, não é uma maravilha? Alem do que, ela não precisará mais ficar com grandes quantidades de dinheiro pra pagar o armazém, a costureira, o tintureiro, a escola das crianças, pois irá usar o seu cheque e tudo estará anotado no canhoto, pra você saber exatamente quanto, como e quando ela gastou.

O anúncio ainda mandava pensar nela, pois é muito mais elegante pra uma senhora pagar com um talão de cheques do que com dinheiro vivo, sujo. Também serve pra quando você for viajar e não ter que deixar dinheiro com a esposa, ou caso fique doente de repente.

No final, o anúncio vaticinava: “Abra uma conta conjunta com sua mulher. Um simples gesto vale mais que mil palavras”.

Bem, os tempos mudaram. Hoje em dia, muitas delas já se cansaram das contas conjuntas e mesmo casadas, mantem contas separadas dos maridos. Principalmente se ela tiver mais dinheiro ou ganhar mais. O grande presente que o homem dava, foi tomado até mesmo dele.

Essas coisinhas do cotidiano são realmente um retrato fiel dos costumes. E não aqueles encontrados nos questionários da vida, todos com maquiagens e respostas politicamente corretas. E dá-lhe conta conjunta.

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

A grande sacanagem

Uma das maiores sacanagens a que fui acometido na minha vida só vim descobrir hoje. Olhando uma revista antiga, de 1968, descobri essa propaganda acima. Trata-se de um antiseptico líquido, que pela embalagem diz que "Não arde", "Previne e combate infecções" e "Quase não mancha a pele". 

Agora eu pergunto, porque cargas d'água eu passei a minha infãncia inteira sofrendo com o tal do Mertiolate? Que ardia mais do que a porra? Por quantas e quantas vezes eu escondi um machucado, prolongando a sua cicatrização e minha dor, somente pra evitar o uso do tal de Mertiolate?

Mas espere, você está sendo injusto. Isso aí só devia ter em São Paulo ou no Rio de Janeiro, em Natal essas novidades nao chegavam assim tão rápido. Rápido um cacete, essa novidade tinha no Rio e São Paulo 7 anos antes de eu nascer. Será que não deu tempo de chegar? Contando que eu comecei a me machucar quando comecei a andar, acrescente aí mais um ano nessa equação. 

Só fui começar a ter um sossego quando arranjaram um tal de mercúrio cromo, que fez com que o mertiolate fosse abolido lá em casa. Quanta maldade os pais faziam com as crianças nascidas nos anos 70s. Somos verdadeiros guerreiros. Suportamos todos os mertiolates da vida, o que nos fez mais fortes, acho.

Hoje em dia até os remédios tem gosto de frutas. Não tem uma boa Novalgina, pro nego ficar bom bem rápido, antes de ser obrigado a tomar a segunda dose daquela desgraça. Hoje os meninos ficam doente somente pra tomar remédio, de tão bom que é o gosto. 

Ah, sem ser injusto, o gosto do AAS infantil era bom demais. Se deixassem uma caixa perto de mim, eu devorava todo. Mas o mertiolate hein? Sacanagem da porra!!!

domingo, fevereiro 03, 2013

O país que Collor encontrou


Collor pegou um país que vinha de uma estagnação desde o início dos anos 1980, e pegou o país depois de Sarney, que teve quatro ministros da Fazenda, aplicou quatro choques econômicos, teve três moedas e que no último mês de governo, dezembro, a inflação chegou à 50%. No início do governo Figueiredo, essa inflação era de 50% ao ano. Se anualizar esses cinquenta por cento, ela dá um monstro de 12,874% ao ano.

Collor herdou a maior massa falida da história do Brasil até então. A divida externa brasileira era de 120 bilhões de dólares, o que nos colocava como o maior devedor do mundo. E isso era uma conta informal, pois em 1987 Sarney declarou uma moratória internacional. Por causa da inflação nos píncaros, o empresariado brasileiro continuava com suas reservas no Over ou no dólar, em vez de usa-las pra produzir.

E o governo permanecia pagando juros ferozes pra obter os empréstimos para cobrir seu rombo de caixa. Isso era uma estagnação no setor privado e no setor público ao mesmo tempo. Traduzindo, isso era falta de transporte, escola, hospitais e até comida pro povo.

O Brasil tinha 70 milhões de cidadãos que viviam com menos de dois salários mínimos, 35 milhões que não sabiam ler e 65 pessoas de cada 1000 já vinham condenadas a morrer antes mesmo do primeiro ano de vida. Os brasileiros queriam mudança, por isso a falta de sucesso das siglas maiores do país, que eram PFL e PMDB.

Em resumo, a situação que Collor pegou quando chegou ao governo era mais ou menos assim:

Inflação – Era a pior doença do país, pois tem efeitos colaterais que se espalham por todos os pontos do tecido social. Os sinais de hiperinflação já podiam ser sentidos quando Sarney estava deixando o mandato.

Deficit público – As contas públicas tinham um débito de 27 bilhões de dólares. A incapacidade de Sarney de administrar suas contas e despesas iria causar uma bomba que iria estourar posteriormente.

Serviço público – O Brasil tinha um serviço público ineficiente que consumia entre 60 a 80% da receita disponível. Havia no país 181 empresas estatais, que abrigavam 1 milhão de funcionários. Isso era um fardo pesado pro governo e impedia o desenvolvimento do país.

Educação – O Brasil era a oitava economia do mundo ocidental, mas tinha índices de alfabetização piores do que Uruguai e Paraguai. Havia no Brasil 35 milhões de analfabetos. De cada duas crianças que entravam na escola, uma era reprovada na primeira série. 

Saúde – De cada 1000 crianças que nasciam, 65 morriam antes de completar um ano de vida. O Brasil não havia conseguido acabar com doenças de pobreza, como o Mal de Chagas, que afetava 5 milhões de pessoas e a esquistossomose, que atingia 10 milhões de brasileiros.

Habitação – O déficit habitacional atingiu 10 milhões de moradias. E quarenta milhões de pessoas viviam em péssimas condições, amontoando-se em favelas, cortiços e outras formas precárias de moradia.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

A primeira “derrota” de Lula



O cidadão Luís Inácio Lula da Silva saiu também como um azarão no início da corrida presidencial de 1989 e chegou até o final do segundo turno praticamente empatado com Collor nas pesquisas. Mas tudo isso foi uma surpresa até mesmo pro PT, que pensava em lançar Lula em 1989 somente pro nome dele pegar no país e só depois em 1994, concorrer de fato à uma vaga na presidência.

Contra a sua candidatura, tínhamos a falta de preparo intelectual de Lula, o radicalismo do PT, que deixava muitos eleitores na defensiva e a falta de experiencia administrativa, tanto de Lula quanto de sua equipe de sustentação.

Lula era ate então, além de líder do PT, um deputado bom de voto mas de participação inexpressiva na Assembleia Nacional Constituinte. Saiu da disputa como um político capaz de crescer durante a campanha, de tecer acordos como os que fez com Brizola e Covas para o segundo turno e que possuía bastante carisma, comprovado pelo desempenho dele nos palanques e na votação final.

Podemos concluir então que, apesar de uma derrota, essa disputa foi muito positiva pra Lula e o PT, como poderíamos comprovar três eleições depois dessa. Pra um candidato que tinha intenção apenas de se mostrar ao país e com poucos recursos, que fazia Lula ficar horas e horas nos aeroportos, pois fazia sua campanha em voos de linha, Lula saiu mais do que vitorioso. Muito mais do que ele merecia.

quinta-feira, janeiro 31, 2013

A primeira eleição direta da minha vida

No dia 17 de dezembro de 1989, o povo brasileiro votava no segundo turno de uma eleição direta, depois de muitos anos em que não se era permitido exercer esse direito. A eleição de 1989 entrou pra história do país como sendo a mais democrática de todas as eleições já realizadas no país até então, pois em nenhuma delas a liberdade fora tao ampla, e em nenhuma delas a participação popular tinha sido tao grande.

Fernando Collor de Mello, o vencedor, era o menos credenciado dessa corrida. Leonel Brizola já havia sido governador de dois estados, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, e era assim, o único político brasileiro a conseguir esse feito. Paulo Maluf havia sido governador de São Paulo. Ulysses Guimarães era o “senhor diretas” e o santo padroeiro da Nova República. Mário Covas era dono de 8 milhões de votos em São Paulo em 1986 e Luís Inácio Lula da Silva era o líder do PT, que havia conquistado as prefeituras de São Paulo, Campinas, Santos e Vitória em 1988. Collor por sua vez era um ilustre desconhecido fora de Alagoas.

Luís Inácio assistiu atónito ao depoimento de uma ex-namorada chamada Mirian Cordeiro, que dizia para o Brasil inteiro que Lula tentou convencê-la a fazer um aborto para impedir o nascimento de uma menina, filha do casal. A menina, chamada Lurian, tinha 15 anos em 1989. Com essa revelação, Lula viu sua campanha dar a primeira estremecida.

Mas o golpe final, a pá de cal na sua campanha, veio há 72 horas da eleição, no último debate da disputa. Os números diziam que 90 milhões de brasileiros estavam acompanhando esse debate. Foi ali, especialistas afirmam, que a campanha se decidiu à favor de Collor. O desempenho de Lula foi péssimo. Lula passou as quase três horas do debate tentando dizer que Collor foi um mal governador de Alagoas, lugar esse onde Collor obteve 57% dos votos no primeiro turno.

Começou então a fazer acusações contra Collor que não tinham sustentações e nem provas. Collor o desafiou à provar e disse que tinha provas contrárias à tudo o que Lula estava falando e o senhor Luís Inácio não teve sequer uma palavra pra contra-argumentar, ficando calado, numa situação que hoje poderíamos dizer, que o Brasil inteiro sentiu uma vergonha alheia por ele.  

Em duas oportunidades, Collor disse que Lula não sabia a diferença entra uma fatura e uma duplicata. Lula ficou calado nas duas vezes, dando a entender que de fato ele não sabia. Collor então perguntou à Lula se ele concordava com Brizola, que dizia que João Paulo Bisol, vice na chapa de Lula, não passava de um corrupto. Lula nem defendeu Bisol e nem atacou Brizola, apenas disse que os dois tinham divergências que seriam resolvidas depois da eleição. A impressão que deu ao Brasil foi que ele, Lula, havia feito mesmo uma péssima escolha pra ser seu vice.  

Eu ainda não podia votar, devido à idade, mas aquela euforia da época fez com que todo mundo se envolvesse nessa disputa. A falta de preparo do PT e o comportamento esquerdista rebelde assustou grande parte da população votante. Lula era de fato uma pessoa assustadora. Até então, Collor era uma grande esperança pro país. E quanto a Lula? Todos pensavam que ele iria sair de cena e nunca mais botar a cara no país. Enganos em ambos os casos, aprenderíamos mais tarde.