segunda-feira, junho 18, 2012

Januário Cicco


Foi na Maternidade Escola Januário Cicco que eu passei pro lado de cá do mundo. Ela ficava e ainda fica localizada no bairro de Petrópolis, em Natal, no estado do Rio Grande do Norte. Apesar de dar nome a uma cidade fluminense, Petrópolis também é um bairro de Natal. Assim, tecnicamente, eu e grande parte da população que nascia naquela época, somos todos oriundos do bairro de Petrópolis, pois como diz minha mae, a Januário Cicco era a maternidade da moda.

Olhando ao redor, a Januário Cicco fica em uma excelente localização, uma verdadeira área nobre da cidade. Está cravada no número 259 da Nilo Peçanha, que vem a ser uma continuação da Prudente de Morais, uma das maiores avenidas da cidade. O último suspiro da Prudente indo na direção leste é a Praça Pedro Velho, também conhecida como Praça Cívica. Logo depois, a Prudente se torna Nilo Peçanha, que segue num pequeno trecho que vai até a Getúlio Vargas.

A geografia é mais ou menos essa. A Januário fica quase na junção entre as duas maiores avenidas da cidade, que são paralelas por ofício. Como se juntam se são paralelas? Ora, a Prudente tinha sua verruga chamada Nilo Peçanha, como se tivesse criada somente pra encontrar com a Hermes da Fonseca. Então a Hermes pra não perder a pose, também criou uma verruga entortada pra esquerda, logo após o Mercado de Petropolis, chamada Coronel Joaquim Manoel. O Joaquim Manoel só liga a Hermes e a Nilo Peçanha.  

A Januário Cicco foi fundada em 19 de março de 1928 e inaugurada em 2 de fevereiro de 1950. Meu pai, que nasceu em 1948, não nasceu lá. Minha mãe, que nasceu em 1954, não nasceu lá. Meu irmão, que nasceu em 1978, não nasceu lá. Mas minha irmã que nasceu em 1982, nasceu lá. A Maternidade se chamava Maternidade de Natal, e foi idealizada por Januário Cicco, que recebeu seu nome em 1961.

Januário Cicco foi um médico norte-rio-grandense, nascido em São José do Mipibu em 30 de abril de 1881. Formou-se na Bahia em 1906 e veio pra Natal e construiu o Hospital de Caridade Juvino Barreto, hoje chamado Hospital Onofre Lopes, localizado no encontro da Getulio Vargas e da Nilo Peçanha. Como não tinha autonomia, pois o hospital era do estado, o doutor Januário Cicco criou a Sociedade de Assistência Hospitalar com a finalidade de administrar o hospital como serviço terceirizado. Logo fundou a Maternidade de Natal, que teve início das obras em 1932.

No início de 1940, a Maternidade estava pronta pra funcionar, mas o esforço de guerra, representado na capital do estado pela construção do campo de aviação de Parnamirim, com uma base americana, fez com que a maternidade fosse ocupada como quartel-general das forças aliadas e hospital de campanha. Se pensarmos bem, essa foi a minha mais próxima ligação com a guerra. Nasci num hospital que tinha sido hospital de campanha. Nada como os heroicos bombardeios em Liverpool quando do nascimento de John Lennon, em outubro de 1940, mas já é alguma coisa.

Com o final da Segunda Guerra Mundial e após intensa campanha do doutor Januário Cicco, eles conseguiram recuperar o prédio, restaurá-lo e recolocaram-no para funcionar, o que ocorreu somente em 1950. O doutor Januário Cicco morreu em primeiro de Novembro de 1952. O doutor Onofre Lopes passou a ser o seu sucessor na Sociedade de Assistência Hospitalar, e deu continuidade ao sonho do seu fundador.

A maternidade é um belíssimo casarão, cujo terreno foi doado pelo então prefeito O’Grady. O prédio tem características neoclássicas, de elevado valor arquitetónico e histórico. Hoje em dia é uma das raras exceções, pois permanece até hoje desenvolvendo as atividades para as quais foi planejado.

No início do século 20, Natal tinha cerca de 20 mil habitantes e a cidade inteira compreendia basicamente os bairros da Ribeira e Cidade Alta, que também não são os bairros baianos, mas os potiguares. Estavam ainda em formação os bairros do Alecrim, Tirol e o próprio Petrópolis, mas Tirol e Petrópolis eram chamados de Cidade Nova.

Somente com a construção da ponte metálica sobre o Rio Potengi, em 1916, é que foi instalado o assentamento de Igapó, habitado por pescadores, roceiros e ferroviários. Existia somente um hospital e era uma bagunça, só servia de abrigo para os pestilentos. Foi aí que entrou a figura salvadora e esclarecida de Januário Cicco.

Quando Cicco voltou à Natal, instalou o seu consultório na casa dos pais, na Rua Duque de Caxias, na Ribeira. Até a chegada de Cicco, apenas dois médicos atendiam a toda a população natalense, e eles eram Segundo Wanderley e Afonso Barata, ambos no velho hospital da cidade. Cicco veio pra revolucionar a cidade e a sua medicina.

Ele construiu o que é hoje o Onofre Lopes em 1909, a Maternidade em 1950, o primeiro banco de sangue e serviço de pronto socorro do Rio Grande do Norte em 1945 e uma escola de auxiliar de enfermagem também em 1950. O centro de estudos da sociedade de assistência hospitalar que ele criou em 1951, que foi o embrião da Faculdade de Medicina do Rio Grande do Norte. O seu discípulo predileto, o medico Onofre Lopes, consolidou a Faculdade em 1955, 3 anos após a morte do seu mestre, Januário Cicco.

Também deu origem a um sistema de proteção à maternidade e à infância. Januário Cicco foi o responsável pela primeira operação de cisto de ovário em Natal. Um dos grandes políticos do estado, Aluízio Alves, certa vez disse sobre Cicco: “Era uma força da natureza, despertada para o bem da coletividade. Dele, pode-se dizer que morreu de sonhar. Deve dizer-se que tombou lutando”.

Para a construção do primeiro hospital decente da cidade, Januário Cicco convenceu o então governador Alberto Maranhão a adquirir uma casa de veraneio no Monte Petrópolis, em 1909, para adaptá-la ao funcionamento do Hospital de Caridade Juvino Barreto, que passou a se chamar Miguel Couto, em 1936, e somente depois de Onofre Lopes.

Januário assumiu a direção do estabelecimento, que a princípio tinha apenas 18 leitos divididos para os pacientes do sexo masculino e feminino, que eram atendidos exclusivamente pelo próprio Januário Cicco. Somente em 1917 o médico Otávio Varela foi nomeado como seu ajudante.

Para viabilizar o funcionamento do hospital, o governador José Augusto aceitou passar a administração à sociedade civil criada por Cicco, que já citei anteriormente, a SAH, criada em 1927. No mesmo ano foi que ele recebeu o terreno doado pelo prefeito Omar O’Grady e iniciou a luta pela construção da maternidade. Luta essa que envolvia quermesses, bingos, rifas e até depois da guerra, a exigência de uma indenização do governo apos a guerra, para custear as reformas.

A inauguração da maternidade foi um dos grande acontecimentos sociais de Natal naquela época. O Bispo de Natal, dom Marcolino Dantas e o intelectual Luís da Camara Cascudo lideraram uma campanha para batizar a maternidade de “Casa da Mãe Pobre”, pois era esse o apelido que Januário Cicco gostava de chamar a maternidade. Em 12 de fevereiro de 1950, nascia o primeiro bebê da maternidade, que recebeu o nome de Ivette. O nome foi uma homenagem à filha que Januário Cicco teve com a pernambucana Isabel Simões. Mãe e filha morreram em 1937. Quinze anos depois, morria do coração, o próprio Januário, aos 71 anos. 

Pois bem, se um sujeito saísse da Januário e virasse à esquerda na Nilo Peçanha e logo depois à direita na rua Coronel Joaquim Manoel e seguisse até a Hermes da Fonseca, que vira Salgado Filho e logo depois vira BR-101, poderia ir até o Rio Grande do Sul, se acaso desejasse.

Se esse mesmo sujeito decidisse sair da Januário, entrar à esquerda e ir até a Coronel Joaquim Manoel e em vez de entrar nela à direita, fosse nela pra esquerda, que aí já seria a Rua General Gustavo de Farias, chegaria até o bairro da Ribeira, reduto boemio da cidade e onde se localiza também o Iate Clube. Mas antes de chegar la e se viesse rápido, daria um salto gigantesco na famosa ladeira de Marpas, onde se fosse macho, sentiria os testículos esfriarem.

De fato, esse cruzamento entre Nilo Peçanha, General Gustavo de Farias e Coronel Joaquim Manoel era mesmo confuso. Deve ser por isso e pelas três ruas que existia lá, que era o único sinal de três tempos da cidade, pelo que eu me lembre. Todos os outros eram normais.

Mas, se esse mesmo sujeito decidisse sair da Januário e virar à direita na Nilo Peçanha, ele iria dar na Prudente, que iria dar na Delegacia de Candelária. Candelária também não é a igreja carioca, é outro bairro de Natal. Pouco depois da delegacia, a rua se acabava em umas dunas, que separavam o bairro de Candelária de Cidade Satélite, outro bairro de Natal e não no Distrito Federal.

Se o sujeito tomasse o caminho da Nilo e fosse seguindo em frente, encontraria à Getúlio Vargas e logo em seguida a Ladeira do Sol, que daria mesmo em frente ao Chaplin-Hooters. Poderia ficar ali ou continuar a esquerda que também encontraria algo pra fazer.

A historia conta que, 49 anos depois do primeiro bebe nascido na Januário, em 1999, eu tomaria o caminho da Nilo, Joaquim Manoel, Hermes, Salgado Filho, BR-101, Aeroporto Augusto Severo, São Paulo, Newark, Montréal. Por muitos anos tomei o caminho pra Ribeira e para a Praia do Meio, mas como eu sempre gostei da direita, foi por lá que vim e continuo aqui. 

           Na foto, a maternidade nos dias atuais.

segunda-feira, maio 14, 2012

Nascia Moçambique


Moçambique nascia em 25 de junho de 1975, 18 dias depois que eu nasci. Assim eu poderia dizer que somos da mesma idade, com a diferença de poucos dias. Era o quadragésimo terceiro país africano. Moçambique se tornava independente de Portugal e virava uma República Popular. 
Portugal encerrava assim 470 anos de dominação de Moçambique. Isso foi resultado de uma revolta armada iniciada 11 anos antes pela Frelimo, com apenas 250 guerrilheiros do norte do país. No final, a rebelião, de orientação comunista, além de contar com um número muito maior de soldados, tinha apoio da Zâmbia e da Tanzânia também. 

Na época da independência, Moçambique tinha 9 milhões de habitantes. Hoje em dia tem algo em torno de 20 milhões de habitantes. O país tem 800 mil quilômetros quadrados de território, encravados no litoral oriental da Africa austral.

Maputo, que é a capital do país, só recebeu esse nome em 13 de março de 1976. Na época da independência se chamava Lourenço Marques e tinha 500 mil habitantes, e tinha altos e modernos prédios, luas largas e com traçado retilineo, onde os carros trafegavam à mão inglesa.  

O presidente da nova Republica era Samora Machel, que era também o chefão da Frelimo. O maior parceiro comercial de Moçambique era a Africa do Sul. Setenta por cento de todo o movimento do porto da capital de Moçambique dependia das importações ou exportações sul-africanas. A Africa do Sul também empregava 150 mil moçambicanos nas suas minas de ouro. Esses empregados ganhavam uma renda anual de 175 milhões de dólares e traze-los de volta à Moçambique naquele momento não era nada interessante, por isso as relações com a África do Sul tinham que ser levadas nas pontas dos dedos, apesar de nao serem muito amigos.

O novo país já começou com um deficit de 4,5 milhões de dólares e o parque industrial moçambicano estava quase paralisado. Não existiam técnicos capazes de gerir as industrias. Aliás, em todos os setores faltava mão-de-obra. Existiam somente 100 médicos no país pra uma população de 9 milhões de pessoas. E mesmo assim, eles estavam localizados somente nos grandes centros urbanos. Na província de Zambeze, de 1,8 milhões de habitantes, existiam somente 3 médicos.

Noventa por cento da população moçambicana quando da sua criação vivia da agricultura. Alem disso, apenas 5% das terras aráveis do país estavam cultivadas, o que evitava problemas de desapropriação e confusões  

segunda-feira, abril 30, 2012

Reabertura do Canal de Suez


Dois dias antes de eu nascer, em uma quinta-feira, dia 5 de junho de 1975, reabriam o Canal de Suez. O Canal havia sido fechado desde a guerra de junho de 1967. Foi construído pelo engenheiro francês Ferdinand de Lesseps, e inaugurado em 1869 pela imperatriz Eugénie.

O Canal é situado no Egito e até 1966, rendia ao país uma média de 240 milhões de dólares anuais em pedágios. Porém, somente pra desobstrui-lo, os egípcios gastaram mais de 300 milhões de dólares, pagos à equipes americanas, soviéticas, britânicas, francesas e até mesmo egípcias para retirarem 8525 explosivos, 127 pedaços de pontes, 16 caminhões, 8 tanques, 104 pequenas embarcações, 10 cascos de grandes navios, 15 aviões, alem de barris de óleo, ancoras, latas e 685 mil minas que estavam espalhadas nas duas margens.

O fechamento do Canal de Suez causou grandes transtornos. Como não dava pra usa-lo, o Oceano Índico voltou a ser ligado ao Oceano Atlântico através do contorno do Cabo da Boa Esperança. Por causa disso, e pra compensar as maiores distancias, foram construídos super petroleiros de mais de 300 mil toneladas.

Com isso, Suez perdia um pouco a sua importância. Em 1967, 74% da frota mundial usava o canal. Já em 1975, a percentagem da frota mundial que passava por lá era de apenas 27%, pois o canal só suportava navios de até 70 mil toneladas.

Mas isso não era motivo de desânimo, pois a reabertura iria ajudar muitos países. Por exemplo, a distância entre Marselha e Japão caia pela metade e as frutas do rico litoral oriental da Africa voltaram a ser vendidas na Iugoslávia e na Turquia.  

quinta-feira, março 22, 2012

Conhecendo a realidade


Ao chegar no aeroporto de Montréal, Celso estava lá no seu Honda Civic Hatch preto. Já senti uma enorme diferença quando comparei com a minha ultima chegada ali. Os avanços eram medidos em centímetros. A viagem transcorreu sem transtornos, mas novamente tive que ficar em uma salinha em Newark, pois ainda não tinha o visto americano.

Para obtenção do visto canadense também não tive problemas, uma vez que usei o sistema YMCA de visto de estudante. Era mais ou menos assim: o cara se inscrevia num curso de 6 meses no YMCA, mas só dava uma entrada que cobria um mês de curso. Enviávamos a carta do YMCA corroborando com a nossa história e então, ao término de um mês de curso, cancelávamos o resto do curso, alegando falta de recursos e ficava tudo bem, pois o YMCA não telefonava pra imigração pra dizer isso. Com o pagamento de um mês, tínhamos um visto de estudante de 6 meses. Promoção boa.

Evidentemente, logo essa mamata acabou, pois o YMCA começou a descobrir um alto número de pessoas fazendo isso e passou a liberar a carta somente com o pagamento do curso completo.Quando cheguei, ainda se amarrava cachorro com linguiça.

Voltando ao aeroporto. Celso perguntou se eu queria já começar a trabalhar naquele dia. Me assustei com a rapidez das coisas e também cansado, pedi pra começar no dia 06 de Setembro. Então ele me deixou na casa dele e foi pro trabalho. Dormi o dia quase todo e no outro dia comecei o meu primeiro dia de trabalho no Canadá.

Naquele final de semana, era o feriado do Labour Day e para minha sorte, Celso tinha uma ex-namorada que havia ganho 4 tickets num sorteio de um restaurante chamado La Cage Aux Sports. Esse premio dava direito de acompanhar o time de Montréal de futebol americano, os Allouettes, num jogo que iriam fazer em Hamilton, na província de Ontário.

E tudo isso de graça, o que melhorava muito a viagem. Alias, a viagem podia ser até pro inferno que eu iria estar feliz do mesmo jeito. Era a primeira vez que visitaria a província de Ontário. Então eu e Celso encontramos com a ex-namorada dele e uma amiga dela e partimos no trem pra Hamilton, junto com os jogadores dos Allouettes.   

A viagem foi otima e eu e Celso já chegamos em Hamilton completamente embriagados. Alias, todo o trem chegou embriagado, pois aquela galera do Quebec bebia com vontade. Os Allouettes ganharam o jogo contra o Tiger Cats de Hamilton e na comemoração eu fui perto do campo, onde estavam filmando e entrevistando o craque do time. Quando ele viu a camisa que eu vestia, da seleção brasileira de futebol, me chamou e veio apertar a minha mão. Tenho a foto de recordacao.

Com a vitória, os jogadores puderam relaxar e na volta vieram todos agradecer ao nosso apoio no trem. Eu juro por Deus, o time inteiro e mais o técnico vieram de um em um apertar a mão de cada passageiro do trem e agradecer pessoalmente. Eu estava maravilhado. Tudo era bom demais. Sabia que não seria assim, mas estava aproveitando o momento.

Então voltamos a dura realidade. Tinha que ganhar dinheiro de alguma forma e o que me restou no momento era a gráfica. Como não tinha autorização pra trabalhar, tudo tinha que ser under the table, isto é, recebendo em dinheiro vivo, sem declarar ao Canada Revenue Agency os meus rendimentos. E pela parte do empregador também. Mas como se dava esse processo?

Através de uma agência de empregos. Um árabe possuía uma agência de empregos e cedia funcionários pra uma grande gráfica chamada Edicible, situada na Ville de Saint-Laurent, subúrbio de Montreal.  

A fábrica pagava $12,00 por hora pra cada funcionário que essa agencia enviava pra ele. A agencia por sua vez ficava com $7,00 por hora e repassava $5,00 pra cada funcionário que não era legal pra trabalhar, em forma de dinheiro vivo, dentro de um envelope, ao término de cada duas semanas de trabalho. Com o detalhe que as duas primeiras semanas ficam com ele, como vim a descobrir que seria praxe no Canadá. Quando você termina o seu contrato ou é demitido, aí então ele devolve essas duas semanas iniciais.

Pois bem, com as 40 horas semanais que eu trabalhava na Edicible, eu colocava a fortuna de $37,50 por dia no bolso, uma vez que eles ainda tinham a pachorra de descontar a hora do almoço. Tínhamos dois lanches de 15 minutos, um na manhã e outro à tarde que eram pagos pela empresa, mas o almoço de 30 minutos eram descontados do trabalhador.

Numa matemática básica, vemos que eu levava pra casa $187,50 por semana e que se eu continuasse nesse ritmo iria ganha $9,750.00 por ano. Não existe nem uma classificação pra descrever uma pessoa que ganhe isso. Mas diria que seria algo como uns 10 metros abaixo da linha da pobreza. Bem, só passei pois eu estava morando de graça na casa de Celso e ele como ninguém conhecia o meu salário, pois ainda por cima, o árabe entregava o meu dinheiro a ele.

Celso era empregado legal da empresa, operava as máquinas e recebia um bom salário pra isso. Era até covardia comparar o meu salário ao dele e maior covardia ainda seria ele me cobrar alguma coisa referente à aluguel. Ele nunca o fez. 

Eu saía de manhã pegando carona com Celso e começava no batente às 8:00 am em ponto. Com cartão de ponto e o escambau. Eu chegava na gráfica e algum supervisor me encaminhava pra algum grupo, e eu ficava ali separando livros, panfletos, revistas, e outros produtos de gráfica para serem cortados, empacotados ou colados, dependendo do grupo em que estava. O intervalo de tempo entre às 8:00 am até as 10:15 am demorava uma eternidade. Meus Deus do céu como demorava. Durante o break time das 10:15 eu nem conseguia comer nada e ficava somente lá fora descansando.  

Voltava pro trabalho e no almoço eu comia algo bem rápido, pois como não levava comida, ficava dependente do coffee truck e como a fila era grande, quase sempre eu tinha que comer tudo em 5 minutos e já voltar pro batente, correndo e arrotando internamente.

Comecei a perceber já aí que o Canadá não era esse paraíso todo. Um sujeito que era uma espécie de Line Leader chamado Sylvain, enfiava livros na sua bolsa e todo break time em vez de comer, ia pro seu carro e colocava os produtos do furto no seu carro. Revistinhas em quadrinhos aos borbotões. E vendia pra aumentar a sua renda, fiquei sabendo logo. E olhe que ele era um dos caras mais gente boa que tinha lá.

O meu dia durava 100 horas. O tempo não passava, andava em câmara lenta e eu já estava ficando doido. Escutava o tic-tac do relógio e me doía os córneos a cada segundo. Já estava começando achar a gráfica com cara de filme de terror. Uma gente feia, alguns sem dentes, piorava o quadro com certeza. Além de ser muito longe da casa de Celso, e quando Celso fazia hora extra, eu tinha que voltar pra casa de ônibus e metrô e demorava demais.

Então um episodio marcou a minha decisão de ir embora dali o quanto antes. Eu me distraí e fui ajeitar uma dúzia de revistas na guilhotina que estavam mal colocadas, quando escutei um grito. Instintivamente, recolhi meu braços e a lâmina desceu cortando as revistas que lá estavam, mesmo mal organizadas. Se alguém não tivesse gritado, que até hoje eu não sei quem gritou, eu nem teria meus braços pra escrever isso aqui.   

(Continua...)

terça-feira, fevereiro 28, 2012

A história da UNE


A UNE funcionou até 1964 num casarão cinzento, antigo clube de alemães, de arquitetura antiga e fachada larga, na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro. No dia da queda de João Goulart, o prédio ardeu em chamas e marcou o fim de um período da vida de UNE.

Ao ser fechado por decreto mais tarde, pela já citada aqui Ley Suplicy, a UNE se modificou e abandonou a política vinculada ao Ministério da Educação. O Ministro que assinou a Lei 4464, de 9 de novembro de 1964, Professor Flávio de Suplicy Lacerda, que viria a ser reitor da Universidade do Paraná, disse na época que a UNE iria continuar a existir como organização civil. Se permanecer assim, disse ele na época, irá dar provas da sua capacidade e autenticidade de representação, pois irá sobreviver sem o auxílio de gordas e fáceis doações federais.

A UNE conseguiu sobreviver sem as fartas verbas do governo Goulart. No período do presidente João Goulart, a UNE deixou de ser um órgão de representação estudantil e passou a ser um órgão subordinado ao governo. Em todas as manifestações governistas, a presença da UNE era obrigatória. Seu representante se sentava na mesa de honra e discursava apoiando Goulart.

O último presidente legal da UNE antes de revolução que depôs Goulart foi o nosso querido e estimado José Serra. No famoso comício do dia 13 de maio de 1964, na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, lá estava o famigerado Serra marcando sua presença. Também se fez presente na Assembleia Geral dos Sargentos, no dia 30 de março de 1964, no Automóvel Clube da Guanabara.

Pelas posições de Serra e da UNE de então, a entidade ficou bastante prejudicas. Primeiro porque ao ser acoplada ao governo de João Goulart, a UNE perdeu suas bases e os estudantes se afastaram dela, uma vez que tinha se transformado num partido político e não mais uma entidade de classe estudantil. E por fim e não menos importante, os militares que depuseram João Goulart não podiam perdoar quem se sentava à mesa com ele.

Bem, a Lei Suplicy conseguiu atingir a UNE no seu aspecto legal. A lei proibia aos órgãos de representação estudantil de fazerem qualquer manifestação, ação ou propaganda de carater político partidário. Também previa na lei, como já foi dito aqui, a criação de um Diretório Nacional dos Estudantes, como forma de substituir a UNE. Menos de três anos depois, a Lei Suplicy deixava de existir e foi substituída pelo decreto-lei 228, assinado pelo então Ministro Moniz Aragão. E aqui, o Diretório Nacional dos Estudantes deixava também de existir e a UNE ficava sem substituto.

Na época de sua fundação, a UNE foi principalmente uma entidade nacionalista. A primeira vez que saiu às ruas foi pra exigir que o Brasil entrasse na Segunda Guerra Mundial pra combater o Eixo nazifascista. Também combateu a ditadura Vargas e ajudou a construir os grandes partidos liberais como a UDN.

Carlos Lacerda, Alceu Amoroso Lima, Afonso Arinos, Milton Campos, Pedro Aleixo, Sobral Pinto, do Rio de Janeiro e Jânio Quadros e Roberto de Abreu Sodré, de São Paulo, são nomes que estiveram ligados às campanhas estudantis como a campanha a favor da anistia pra presos políticos, a favor do monopólio estatal do petróleo, campanha contra a Lei de Segurança Nacional de 1950 e a campanha a favor da criação de um restaurante universitário. Inclusive foram os estudantes da UNE que criaram a frase “O petróleo é nosso”, que se tornou um símbolo nacional. Em 1947, mesmo quando protestaram contra o fechamento do Partido Comunista Brasileiro, a UNE ainda não era uma entidade de esquerda.

Os estudantes universitários do Brasil em 1968 eram apenas 213 mil, o que era um estudante universitário pra cada 2,100 habitantes. Eram uma minoria privilegiada dentro dos 45,68% da população brasileira que tinha entre 5 e 24 anos de idade. De acordo com o Censo de 1970, menos de 2% da população que tinha idade entre 19 e 25 anos estava na universidade em 1968.  No mesmo período, 16% dos franceses entre 19 e 25 anos estavam na universidade e 46% dos americanos.

Se formos olhar o ensino primário daquela época, 70% dos alunos matriculados na primeira série eram reprovados ou abandonavam os estudos. Em 1955 houve 3.157.000 matrículas no primário, de onde apenas 123.647 concluíram o curso médio, no final de 1965.

Também em 1965, o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais fez uma pesquisa pra traçar o perfil dos estudantes universitários brasileiros. Descobriram que os pais dos universitários tem na sua maioria atividades remuneradas de nível alto e medio. Também que a maioria possui irmãos que estudaram e que a maioria das mães não trabalha. Que a maioria fez curso médio em escola particulares e que apenas 8,52% deles possui pais operários. A idade média dos que cursavam o primeiro ano da universidade era de 22,11 anos, que 44,12% deles trabalhavam, que 62,49% recebiam ajuda financeira da família e que 27,75% das famílias possuíam um automóvel.

Pois bem, traçado o perfil desses estudantes que lutavam contra o governo militar, voltemos ao nosso assunto. A UNE tornou-se a vanguarda de todo o movimento progressista nacional, uma vez que os partidos antes de 1964 não tinham nenhuma organização, nenhum objetivo definido e nenhuma solução para o problema brasileiro.
Os estudantes que compunham a UNE tinham acesso à cultura e pertenciam à classe dominante. Se um estudante era preso, o país inteiro falava dele através de jornais e de um intercâmbio entre as universidades. Quem não era estudante, era preso e espancado e ninguém falava dele. Se dava mal mesmo.

Antes de 1964, a posição da UNE era reformista, eles tentavam consertar a sociedade brasileira. Depois disso, passaram a querer transformar e foi aí que começaram os conflitos. Assim, as agitações estudantis só voltaram ao cenários brasileiro, modificadas na forma e nos objetivos, diga-se de passagem, depois de 1966. E foram se organizando cada vez mais até a realização do 29º Congresso da UNE, em Valinhos, perto de São Paulo, onde o eleito foi o paulista Luís Travassos.

Na carta política da UNE de 1967, dizia-se: “Temos uma longa luta pela frente e só agora o movimento estudantil começa a se libertar de fato dos seus vícios de origem, da ideologia das classes dominantes que o alimentou. Essa mudança total de política da UNE refletiu o que aconteceu de 1967 pra frente. A UNE do interrompido 30º Congresso era então uma UNE completamente diferente das outras. Organizaram-se de faculdade em faculdade e colocaram sempre contingentes nas ruas pra protestar contra o governo. Com isso, conseguiu capitalizar graves episódios, como a já citada aqui morte do estudante Edson Luís, no Rio de Janeiro, em Março de 1968 e a invasão da Universidade de Brasília, em Agosto de 1968.

A UNE de 1968 englobava várias tendências, entre elas, a esquerda cristã (através da Ação Popular, que conseguiu dominá-la logo após a revolução), os grupos marxistas-leninistas, os maoistas, os pró-castristas, e os althusserianos, que defendiam as ideias do filósofo francês Louis Althusser, que representava uma revisão do marxismo. Portanto, não existia uma tendência homogénea dentro da UNE.

O velho Partido Comunista Brasileiro, que defendia uma luta através de meios pacíficos, se confundia com as várias facções marxistas que surgiram depois da revolução e sua expressão no meio estudantil era quase nula. Novas correntes de formaram e na própria organização da esquerda católica também se observava cisões.

O governo não estava muito preocupado com a UNE até que veio a morte do estudante Edson Luís. Não só pela morte do estudante, mas também porque os estudantes levaram para as ruas as deficiências do ensino superior no Brasil. O presidente Costa e Silva se preocupou com o problema estudantil quando em dezembro de 1967, através do decreto 62.024, criou a Comisso Especial para o Ensino Superior, dirigida então pelo Coronel Carlos Meira Matos. Durante 89 dias, essa comissão estudou e colheu os dados do problema universitário brasileiro. O resultado desse estudo foi um documento de 300 páginas que ficou conhecido como “Relatório Meira Matos”.

Em síntese, o relatório dizia que os pontos críticos eram: 1) Falta de liderança estudantil democrática, consciente do seu papel e pronta a defende-lo; 2) Ausência de fiscalização de verbas e de esforços na obtenção de novas fontes de financiamento; 3) Má remuneração dos professores, o que provoca várias deturpações no exercício profissional; 4) Ausência de uma orientação para atender a maior demanda anual de vagas em todos os níveis de ensino; 5) Implantação desordenada da reforma universidade, sem objetividade e sem visão na redução dos currículos.

O que irritou Costa e Silva foi que mesmo ele fazendo tudo isso e depositando recursos na solução dos problemas universitários, os estudantes continuavam com suas provocações. O que ocorreu também foi que a repressão às manifestações estudantis deu muita divulgação ao movimento. O próprio Vladimir Palmeira, que em 1966 não era ninguém, em 1968 era uma celebridade nacional. E não só ele. Luís Travassos e José Dirceu também transitavam com ares de estrelas de cinema entre os estudantes.

A discussão da UNE em 1968 era somente uma: 1) deveria o movimento estudantil voltar-se para os problemas da universidade e através desses problemas, denunciar o sistema e as estruturas ou 2) deveria acompanhar uma linha política de denúncia constante a todos os atos atentatórios dos “inimigos do povo, da ditadura e do imperialismo”.

A primeira posição era a defendida pelo grupo de Vladimir Palmeira e José Dirceu e o seu grupo era chamado de “Luta Reivindicatória”. A segunda posição a de Luís Travassos e Jean Marc Van Der Weig e era chamado de “Luta Política”.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

O 30º Congresso da UNE


Em Ibiúna, cidade de 5 mil habitantes, localizada à 70 quilômetros de São Paulo, rapazes e moças se encontravam enrolados em cobertores coloridos, no frio do começo da tarde de um sábado de outubro de 1968.

Ao todo, eram 920 pessoas, entre estudantes e jornalistas, todos cansados e sujos de lama, dentro de um galpão da Cooperativa Agrícola de Coitia, para onde tinham sido levados por centenas de soldados da Força Pública estadual, que os prendera na parte da manhã em um sítio, no bairro de São Sebastião, à 14 quilômetros de Ibiúna. Nesse sítio, iria ser realizado o 30º Congresso da UNE.

Os presos foram colocados em 9 ônibus, um micro-ónibus, 5 caminhões, duas kombis e uma Rural Willys. Um deles era um jovem magro, pálido, de olheiras profundas e óculos escuros, enrolado num cobertor de cor amarela. O rapaz tinha o olhar tenso de raiva contida. Era o Luís Travassos, o presidente da UNE.

Travassos foi levado até o Coronel Ivo Barsotti, que era o comandante da Operação Anti Congresso. Travassos foi retirado do meio do grupo e levado até uma Rural, que já estava preso lá também o José Dirceu. Com os cabelos grandes, barba por fazer e olhar cansado, Dirceu disse a Travassos: “Dentro de um mês faremos um novo Congresso”.

Já em São Paulo, no fim da tarde húmida e chuvosa, houve a única tentativa de resistência à prisão. De um ônibus parado em frente ao prédio da Força Pública, na Avenida Tiradentes, o líder estudantil Vladimir Palmeira foge pela porta de emergência e corre descalço pela rua. Os soldados da Força logo o cercam e entram em luta corporal. Vladimir sai com a camisa toda rasgada e é colocado dentro do prédio, junto a Dirceu e Travassos. Agora os três maiores líderes estudantis do país estavam presos, lado a lado. E todos os três já tinham prisão preventiva decretada, portanto, ali iriam ser engaiolados por um bom tempo.

A descoberta do local do Congresso da UNE pela Polícia se deu desta maneira. Na quinta-feira, dois dias antes das prisões, o sitiante Miguel Góis, de Ibiúna, foi até o delegado Otávio Camargo e prestou uma queixa. O que ocorreu foi que, Miguel, ao ir no sítio do seu amigo Domingos Simões para cobrar uma dívida, por fornecimento de milho, não pode entrar porque dois jovens armados de revolver o impediram de passar pela cancela.

Juntamente a isso, no bairro de Curral, à 6 quilômetros de Ibiúna, sitiantes japoneses tinham visto pelas redondezas “muita gente jovem com jeito de cidade”. Também à 2 quilômetros de Ibiúna, na estrada que liga esta cidade à São Paulo, um amigo do delegado, o dentista Francisco Soares, havia encontrado, junto à árvores, panfletos sobre o movimento estudantil.

O delegado Otávio Camargo começou então a juntar os pontos e concluiu que o Congresso da UNE estava sendo realizado em Ibiúna. Logo telefonou e comunicou ao DOPS suas conclusões. Na noite da sexta para o sábado, três destacamentos da Força Pública, sendo dois deles dirigidos pelos delegados do DOPS paulista, Paulo Buonchristiano e Orlando Rosante e o terceiro dirigido pelo Coronel Barsotti, que era o Comandante do 7º Batalhão da Força Pública, de Sorocaba.

Eles cercaram as três únicas vias de acesso ao sítio de Domingos Simões e passaram a noite em claro. Na manhã, logo cedo, foram até a fazenda. Um estudante que estava de sentinela deu tiros para o alto ao ver os soldados, para avisar aos colegas. Os soldados responderam com rajadas de metralhadoras, também para o ar. 

Esses foram os únicos tiros disparados durante toda a operação. Os estudantes se renderam sem luta e a Força Pública agiu sem violência. No sítio, os policiais encontraram uma pistola Lugger alemã, duas Berettas e uma carabina. Domingos Simões, o dono do sítio, tinha 52 anos, era alto e louro e corretor de imoveis. Seu irmão, Jerônimo Simões, era sócio do ex-governador Adhemar de Barros em uma fábrica de aviões.

Os estudantes, rapazes e moças, estavam amontoados na casa do sítio, dormindo em camas de lona ou no chão mesmo. Como não cabiam todos na casa, foram dormir nos currais e chiqueiros do sítio. O fato é que metade dos presos não eram estudantes e sim militantes de partidos contrários ao governo.

Das cabeças do movimento estudantil, apenas duas pessoas não foram presas. Catarina Meloni, pupila de Luís Travassos e Bernardino Figueiredo, presidente do Grêmio da Faculdade de Filosofia da USP, não foram até o Congresso, pois estavam presos até poucos dias antes do Congresso e não puderam ir. Foi no fim das contas, uma coisa positiva pro movimento estudantil.

sábado, fevereiro 25, 2012

As 10 mais de 1956


Para as 10 mais de 1956, começamos com um clássico do rock and rol, Be-bop a lula, de Gene Vincent and His Bluecaps (que viriam a inspirar o brasileiro Renato e seus Bluecaps). A seguir, outro clássio do rock and roll, de Carl Perkins, Blue suede shoes, que viria a ser um grande sucesso também na voz de Elvis Presley. Falando nele, entramos também com outro clássico do rock and roll, esse na voz do próprio rei do rock. Heartbreak Hotel, com o inigualável Mr. Presley. 
 
Pra não cair o nível dos clássicos do rock and roll, mandamos Roll over Beethoven, com o mestre Chuck Berry. Essa cancao também seria gravada pelos Beatles, tendo George Harrison como vocais principais. Voltando um pouco pro lado country, não podemos esquecer do mestre Johnny Cash e a sua I walk the line.

O mestre Little Richard não poderia deixar de entrar nesse rol e tá na lista também o clássico Long tall Sally, que também foi regravada pelos Beatles, tendo Paul McCartney fazendo os vocais principais. O mestre do Soul Ray Charles entra com Hallelujah, I love her so. E pra lembrar o rock romântico, Elvis apresenta Love me tender.

Pra finalizar, dois pianistas. Um, de New Orleans, é o grande Fats Domino e seu classico Blueberry Hill e o outro vem de uma cidadezinha chamada Ferryday, na Louisina. Seu nome, Jerry Lee Lewis e a música, o clássico Crazy arms.  

1 – Be-Bop a Lula – Gene Vincent and His Bluecaps - Be bop a lula
2 – Blue suede shoes – Carl Perkins - Blue suede shoes
3 – Heartbreak Hotel – Elvis Presley - Heartbreak Hotel
4 – Roll over Beethoven – Chuck Berry - Roll over Beethoven
5 – I walk the line – Johnny Cash - I walk the line
6 – Long Tall Sally – Little Richard - Long tall Sally
7 – Hallelujah, I love her so – Ray Charles - Hallelujah, I love her so
8 – Love me tender – Elvis Presley - Love me tender
9 – Blueberry Hill – Fats Domino - Blueberry Hill
10 – Crazy arms – Jerry Lee Lewis - Crazy arms

VEJA TAMBÉM AQUI AS 10 MAIS DE 1955: 1955

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Mackenzie x USP


Era outubro de 1968. Um estudante recebeu uma ovada na cabeça. Depois vieram coquetéis Molotov, bombas, rojões e tiros. O palco da violência era a Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo. Era uma briga entre os estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Uma situada em frente a outra.

O resultado dessa batalha foi um estudante morto, de 20 anos de idade, muitos outros estudantes feridos, os prédios das universidades destruídos, e vários carros incendiados e destruídos. A batalha envolveu 3,000 estudantes do Mackenzie e 2,500 estudantes da USP. O rapaz que morreu se chamava José Guimarães, que não fazia parte de nenhuma das duas universidade envolvidas, mas sim ainda era estudante secundarista. 

No primeiro dia, a batalha durou por aproximadamente 4 horas. Era uma quarta-feira, dia 2 de outubro. As 10 e meia da manhã, tudo começava. O tumulto começou porque os alunos do Mackenzie jogaram um ovo nos estudantes da USP que cobravam pedágio na rua pra arrecadarem dinheiro pro Congresso da UNE e outros movimentos anti-governistas.

Os alunos do Mackenzie eram comandados pelo CCC, Comando de Caça aos Comunistas, pela FAC, Frente Anti-Comunista e pela MAC, Movimento Anti-Comunista. E os alunos da USP eram comandados pela UEE, União Estadual dos Estudantes.  

Ao meio dia, a intensidade da batalha aumentou, pois chegaram os alunos do curso da tarde. A batalha só terminou quando a reitora do Mackenzie, Esther Figueiredo Ferraz, pediu um tropa de choque de 30 guardas-civis para proteger o património da escola. Quando a polícia chegou, os alunos se dispersaram. Houve então uma trégua até que no dia 3 de outubro, quinta-feira, os alunos da USP colocaram uma faixa na rua dizendo: “CCC, FAC e MAC = Repressão. Mackenzie e USP contra a ditadura”. O pessoal do Mackenzie não gostou e foi lá e arrancou a faixa. Começou novamente o tumulto igual ao do dia anterior. Dessa vez até mesmo com a presença dos guardas-civis, que protegiam o Mackenzie, a pedido da reitora.

Luís Travassos, que era o presidente da UNE e Edson Soares, que era o Vice, aliados a José Dirceu, que era o presidente da UEE, eram os comandantes da tropa dos estudantes da USP. Ao meio dia, vários estudantes do segundo grau que saiam das aulas foram pra lá pra assistir a batalha. Aproveitando-se dessa plateia, a galera da USP pedia dinheiro pra comprarem material de guerra.

Um grupo de meninas do colégio “Des Oiseaux” estava ali assistindo ao tumulto e entre elas a filha do governador de São Paulo, Roberto de Abreu Sodré. Elas ficaram ali até que um grupo de estudantes jogou pedras contra os policiais e um dos policiais sacou um revolver e atirou pro ar e um aluno agarrou-se com ele, tentando tomar a arma da mão dele. Dois outros soldados começaram a dar tiros no chão e um estudante foi ferido na perda. O nome dele era Jorge Antônio Rodrigues, estudante do terceiro ano de economia. Os estudantes tomaram inclusive um capacete de um policial e esse capacete foi usado como trofeu de guerra, pra dar moral à tropa de estudantes. Um aluno do Mackenzie também foi atingido no rosto por um rojão.

O Exercito não quis se meter, pois julgava que aquilo era apenas briga entre marginais e não manifestação politica. Quem disse isso foi o General Sílvio Correa de Andrade, Chefe do Departamento de Polícia Federal de São Paulo. Portanto, na ideia dele, o problema era da Polícia estadual.

Um carro de bombeiros com seis bombeiros chegou ao local às 13:30 pra combater os focos de incendio no prédio da USP. Estacionaram na Rua Vila Nova e começaram a apagar o fogo. José Dirceu gritava: “A violência da direta está sendo respondida pela violência organizada do povo e dos estudantes”. E concluía: “Vamos esmagar a reação”.

Pois bem, um grupo de secundaristas recolhia pedras pros alunos da USP jogarem nos alunos do Mackenzie. Então um aluno de Direito do Mackenzie chamado João Parisi Filho, halterofilista e desenhista, que tinha tido trabalhos expostos na última Bienal de São Paulo, inventa de caminhar pela Rua Vila Nova. Os estudantes da USP gritaram que ele era integrante do CCC e então cerca de 80 deles cerca o Parisi e gritam: “Linchem o canalha!!!”. O Parisi tinha um revolver, que foi tomado pelo grupo da USP. Deram uma surra no rapaz e o sequestraram pra dentro do prédio da USP, que tinha entrada tanto pela Rua Maria Antônia como também pela Rua Vila Nova. Inclusive o Parisi foi preso à noite quando o prédio da USP foi tomado pela Força Publica e levado junto com os demais pro DOPS.

De repente, um grupo de jovens pede uma ambulância. Eles carregavam um jovem de cabelos pretos, cuja camisa de linho branca estava ensopada de sangue. Era o jovem José Guimarães, que eu falei no início da história desse confronto. Estudante do Colégio Marina Cintra, ele cursava o terceiro ano ginasial, filho de mãe viúva.

O que o levou a morte foi a besteira de ajudar os alunos da USP, recolhendo pedras e entregando pra eles. Uma perua dos Diários Associados o levou para o Hospital das Clínicas, mas ele morreu à caminho do hospital. A bala foi de calibre 0.38 ou de fuzil. Havia seis ou sete pedaços de chumbo no cérebro. O tiro entrou 1 centímetro acima da orelha e saiu à altura da linha mediana da cabeça, atras, ligeiramente à esquerda. A bala fez um sentido de cima pra baixo, em sentido oblíquo. Até hoje não se sabe quem atirou.

Ao saber da morte do estudante secundarista, José Dirceu sobe num monte de tijolos, cadeiras, e paralelepípedos, que servia de barricada e faz um discurso relâmpago. Ele disse: “Não é mais possível mantermos militarmente a Faculdade. Não nos interessa continuar aqui, lutando contra o CCC, FAC e MAC, esses ninhos de gorilas. Um colega nosso foi morto. Vamos às ruas denunciar o massacre. A polícia e o exército de Sodré que fiquem defendendo a fina flor dos fascistas. Viva a UNE, abaixo à reação”.

Deu uma pausa e continuou: “Jorge, o rapaz morto, é um segundo Edson Luís! (o secundarista que morreu no Restaurante Calabouço, que trato no começo desse capítulo) Vamos às ruas!!!”. Com essa oratória, Dirceu coloca todo mundo em posição de passeata. Dirceu errava o nome do rapaz, que na verdade era João, mas que naquela hora ninguém sabia ao certo.

Os estudantes ganharam a cidade em minutos, cerca de 800 deles. O primeiro ato foi quebrar por inteiro um Aero Willys da prefeitura de São Paulo. Não sobrou nada do veículo. Em seguida, viraram e tocaram fogo num Volkswagen da Policia. Depois foi a vez de um Aero Willys da Força Pública de São Paulo.

Aproveitando as chamas dos carros queimando, José Dirceu e Edson Soares fizeram outro discurso. Novamente falavam do companheiro morto e ofereceram solidariedade aos bancários, que em greve, resistiam à opressão. As meninas, aproveitando os automóveis parados, novamente pediam dinheiro pra resistência à opressão, ao mesmo tempo em que avisavam aos passageiros dos carros da morte do colega.

Minutos depois desse discurso, tocaram fogo em outro Volkswagen da Policia e um Rural Willys, também da Polícia era depredado. Na Praça da Sé, um outro Rural Willys, dessa vez da Polícia Federal, também foi depredado. A passeata então dirigiu-se pro Largo de São Francisco, onde fica a Faculdade de Direito, que recebeu paus e pedras. Ali, José Dirceu fez novo discurso. Dali, os estudantes foram pra Praça das Bandeiras, onde surgiu um caminhão com doze homens da Força Pública. Os estudantes fugiram e seis jornalistas foram presos.

De volta à Rua Maria Antônia, cerca das 18:30, Luís Travassos, presidente da UNE, entrou na USP dizendo: “É preciso desmobilizar isso aqui. Daqui a pouco não temos mais munição. O prédio pode ser invadido, vai ser um massacre”. Lá penas 20:30 José Dirceu reaparece, com uma camisa toda suja de sangue. Dirceu sobe então em uma janela e cercado de fotógrafos e cinegrafistas, faz um gesto dramático. Disse ele, mostrando a camisa ensanguentada: “Colegas, essa camisa é do nosso colega morto pela repressão. Vamos todos pra Cidade Universitária. Haverá assembleia.

Foi então que de fato começou a chegar a repressão. Da Força Pública vieram 240 soldados, cem soldados da Polícia Montada, dois tanques de guerra e 50 cães adestrados. O Mackenzie foi ocupado sem problemas. A USP também foi ocupada. Os alunos e professores estavam trancados numa sala pra redigir um manifesto sobre os últimos acontecimentos. Os estudantes do Mackenzie cantavam o Hino Nacional. Enquanto isso, o diretor da Faculdade de Filosofia da USP, professor Eurípedes Simões de Paula,  decidia que naquele local não seria possível terminar o ano e se mudaram então pra Cidade Universitária. Com isso, o domínio da Rua Maria Antônia passava a ser completo do Mackenzie.

Na sexta-feira, dia 4 de outubro, cerca d 4 mil pessoas se uniram pra fazer uma passeata que durou cerca de 1 hora no período da tarde. Passeata essa em sinal de protesto pela morte do estudante secundarista José Guimarães. A União das Mães de São Paulo, que apoiou a passeata, pediu que os estudantes fizessem um protesto pacífico. Os estudantes responderam que nada iam fazer de pacífico, que na verdade o que pensavam era: “O povo armado derruba a ditadura!!”

As mães então disseram que retiraram o apoio caso a passeata fosse violenta. Mas não houve paz. Os estudantes quebraram as vidraças do Citibank, outros carros foram virados e queimados. As 20 horas, longe dali, e com a passeata já dispersa, uma perua da Força Publica foi atacada e destruída. José Guimarães foi enterrado no Cemitério do Araçá, as 13 horas da sexta-feira, dia 4 de outubro.