terça-feira, junho 29, 2010

99 centavos pra se lascar

Grande parte das coisas que as pessoas gostam, eu não gosto. Doce é um exemplo de coisa que detesto. Pelo menos faz contrapartida com as saladas, que eu também não gosto, mas as pessoas também não gostam e dizem que gostam pra parecerem cool.

Mas, dentre as coisas doces, existe uma exceção, que são os chocolates. Nunca gostei, mas acho que por morar num país de clima frio, o chocolate se transformou num vício que meu organismo pedia, mesmo o cérebro não entendendo. Chega o Outono, lá vem aquela vontade de comer chocolate, é impressionante. Entro num local pra comprar uma revista e lá minha mão procura uma barra de chocolates.

Quando ainda morava no Brasil não tinha esse costume. Mas comecei com os amargos, pra não ir muito com sede ao pote. Até que descobri os chocolates da Ferrero, e aí fudeu tudo. A mistura de chocolate com avelã é a coisa mais gostosa que existe em termos de chocolates. O Ferrero Rocher, por exemplo, é a melhor coisa do mundo. Sem falar na pasta Nutella, também da Ferrero.

Como eu nunca havia visto isso antes? A pasta de cacau e avelãs foi criada em 1946, na Itália, por Pietro Ferrero e ficou até começo dos anos 2000 desconhecida pra mim. No inicio, essa pasta ficou conhecida como Giandula e somente em 1964 que viraria a Nutella.

A Ferrero chegou ao Brasil em 1994, seis anos antes de eu me picar de lá e eu nem havia tomado conhecimento. Mas era o mesmo que chegasse uma fábrica de absorventes, isto é, um produto que eu não consumo. O primeiro produto foi o Kinder Ovo e um ano depois, o maravilhoso Ferrero Rocher. Aqui no Canadá, custa 99 centavos por um pacote com três unidades de Ferrero Rocher. É pra se lascar mesmo.

domingo, junho 13, 2010

Vale a pena ler 28: O senhor guerra fria

O século XX foi um século trágico. Tivemos duas grandes guerras que sacrificaram a maior e a melhor parte da juventude dos ingleses, franceses, alemães, russos e, num grau menor, americanos. Esses povos não tinham capital melhor do que o representado por seus jovens, capital perdido em batalhas. A I Guerra Mundial foi ainda pior. Um de seus produtos, a Revolução Bolchevique, envenenou as relações entre o povo russo e o Ocidente por mais de setenta anos. A Europa teve perdas enormes e ainda hoje se ressente disso. Nesse sentido, a América Latina é o mais feliz dos continentes porque evitou envolver-se de modo profundo nos conflitos globais. Não sofreu as grandes distorções trazidas pelas duas guerras mundiais.

Os americanos demonstram o mais completo desconhecimento sobre a América Latina e nós só podemos ter esperança de que um dia a diplomacia americana se recupere e comece a olhar seriamente para a América Latina. Poucas pessoas fazem isso neste país. Um dos grandes problemas da política externa dos Estados Unidos é que, em grande parte, ela é conduzida ao sabor de considerações domésticas. Obviamente isso confunde os outros. Há muitos anos não temos um presidente com força bastante para dar um basta nessa situação. Tem muita gente opinando sobre política externa em Washington, quando ela deve ser privativa do presidente e do secretário de Estado.

A relação entre os países resume-se à questão comercial. Mas essa é uma questão enganosa, não importa a ênfase que se dê a ela atualmente. Acredito que basicamente os valores psicológicos e políticos sejam os que realmente contam. Não há por que ficarmos impondo condições e exigências aos países da América Latina, por exemplo.

Deveríamos fazer alianças, mas somos péssimos em alianças. Praticamente só temos duas. Uma com o Japão e outra com a Otan. Nada mais. Nem com Israel conseguimos estabelecer um acordo amplo de cooperação mútua. Nossos envolvimentos na Ásia, África, América Central e no Extremo Oriente são arranjos de ocasião. Não sou um especialista em América Latina, mas sempre digo ao nosso pessoal em Washington: "Tratem esses países com cortesia, com respeito, sempre. Não esperem muito deles no curto prazo. Façamos negócio quando eles quiserem negociar e seja proveitoso também para nós. Deixem que eles se desenvolvam da maneira deles". De modo geral, acho que a melhor maneira de um grande país ajudar os menores é pela força do exemplo. Temos de diminuir a estridência da nossa voz. Na questão ambiental, e mesmo em democracia e direitos humanos, nós temos muitas falhas para ficar bancando a palmatória do mundo.

Parece-me que o melhor que podemos fazer com relação a questão do islamismo é ter cautela. Quando o fundamentalismo tomar o poder num país, como fez no Irã e no norte da África, então deveríamos fazer alguma coisa. A coisa a fazer é manter a dignidade. Deveríamos deixar uma pequena representação diplomática mas não embaixadores nesses países. Nossa posição deveria ser esta: "Olhem aqui. Não temos poder sobre seu país. Governem da maneira que quiserem. Nada faremos contra vocês, mas também não esperem nossa ajuda". Estou-me tornando cada dia mais isolacionista, no sentido de que não quero nossa diplomacia tentando resolver problemas que ela não entende. A questão central de nosso envolvimento em outro país deve ser a coerência de princípios. Ou agimos com base em princípios que justifiquem todas as demais intervenções ou então é melhor não intervir.

Mas a política externa de Washington contraria frontalmente tudo o que disse no parágrafo anterior. Washington precisa de uma faxina. Continuamos dizendo às pessoas como elas devem governar seus países. É um erro gigantesco. Deveríamos economizar a energia que gastamos dando lições aos outros países e empregá-la na melhoria de nossa própria democracia. Chega de dizer aos outros como devem governar seu próprio povo. Isso não é correto, pois quem vai aguentar o resultado da aplicação dos nossos conselhos são os outros e não nós. Sou de uma escola diplomática que acredita firmemente em tratar os outros com cortesia e polidez mas não com muita intimidade. Não é o que os Estados Unidos vêm fazendo. Nossa diplomacia criou muitos dependentes. Quando Madeleine Albright era secretária de Estado, se enfureceu com o impasse nas negociações e disse a israelenses e palestinos que nós os deixaríamos à própria sorte, eles ficaram chocados. Ora, fomos nós que criamos neles a ilusão de que somos responsáveis pela sua segurança interna. Por mais fraco que se sinta, um país não pode confiar sua segurança interna a outro.

Para mim a palavra globalização não significa nada. No sentido comercial e financeiro hoje há comunicações mais eficientes entre países do que em outros tempos. No campo político ainda estamos longe disso. Graças a Deus. É uma boa política temer qualquer tipo de arranjo que se pretenda global. Sou a favor dos arranjos regionais, porque são os que realmente funcionam. Portanto, não vejo nada de novo que justifique o uso e abuso de palavras pomposas para descrever a presente situação internacional.

O mundo continua grande e complicado. Não acho que os conflitos possam ser enquadrados num único esquema global capaz de ordená-los. Também não sinto que os Estados Unidos estejam preparados para lidar com essa nova situação. Obviamente, temos dois grandes interesses globais. Um é a crise ambiental, incluindo-se nela a superpopulação, a urbanização e a exaustão dos recursos naturais. O segundo é o controle das armas nucleares e as de destruição de massa. Nosso objetivo deve ser a abolição total desses arsenais. Haveria um terceiro, que é uma questão interna mas diz respeito ao mundo todo, dado o nosso poderio. Essa questão é o aprimoramento de nossas deficiências como civilização, é a manutenção de uma sociedade capaz de inspirar o mundo.

O perigo de uma guerra mundial hoje está totalmente descartado. Não existe base para a eclosão de uma guerra abrangente, continental ou mundial. Não existe mais a possibilidade de que duas nações industrializadas façam a guerra entre si. As guerras deitam raízes profundas e amargas. Além disso, o grau de desenvolvimento das armas, não apenas as dos Estados Unidos e da Rússia, mas as de qualquer nação industrializada, faria da guerra um suicídio simultâneo. Mesmo sem o uso de armas atômicas. Paremos de pensar nesses termos. Paremos de pensar em termos militares.

Os militaristas causaram danos sérios a este país. Eles construíram a imagem da União Soviética como um inimigo grande e terrivelmente poderoso. O resultado prático mais absurdo dessa noção foi que montamos um arsenal de 200.000 armas e ogivas nucleares nas mãos. Santo Deus! Um décimo disso provavelmente seria bastante para tornar a vida impossível em vastas regiões do planeta. Tudo produto dos exageros dos militares.

Eu diria que não houve nada de ideológico no sistema soviético. O comunismo não é um ideário tão poderoso quanto parece. Ideologia não constrói regimes. As pessoas o fazem. As situações também. O regime soviético foi construído por ambos. O regime soviético e a Guerra Fria foram, na verdade, produtos das duas grandes guerras mundiais. Houve um período durante a II Guerra Mundial em que nem a França, a Inglaterra e nós, em conjunto, seríamos militarmente capazes de derrotar Hitler. Dependíamos visceralmente dos soviéticos. As tropas deles absorveram 85% dos ataques alemães por terra.

Tivemos a chance de derrotar Hitler sozinhos em 1938, mas não o fizemos. Hitler conseguiu montar uma formidável máquina de guerra entre 1939 e 1940. Um ano antes, quando ele pressionou a Checoslováquia, se todas as potências ocidentais tivessem reagido, é provável que o Estado-Maior alemão destituísse Hitler. Se isso tivesse acontecido, a Alemanha certamente teria sido um país diferente. Mas não aconteceu. Hitler teve o tempo e os recursos suficientes para desenvolver seu poderio bélico a tal ponto que os aliados não o poderiam enfrentar sem a ajuda dos soviéticos. O resultado disso foi que brotou entre nós uma relação confusa com os soviéticos, de quem fomos, então, completamente dependentes. Dizia-se toda sorte de tolices sobre a nobreza do aliado soviético. As pessoas se esqueciam de que esse aliado fora o mesmo que cooperara com Hitler até bem pouco tempo antes e que tentou fazer a paz em separado com ele. Como funcionário do governo americano em Moscou, era meu dever alertar Washington sobre a realidade soviética e seus objetivos imediatos, daí a origem do chamado Longo Telegrama e, mais tarde, do artigo na revista Foreign Affairs assinado simplesmente com um X.

Escrevi dois documentos que são considerados influentes e altamente citados na história contemporânea dos Estados Unidos (o longo telegrama e o artigo X) e muitas vezes sou ouvido, mas nem sempre. Outras vezes, interpretaram mal meus pontos de vista. A tese de que deveríamos confrontar os russos sempre que fosse necessário transformou-se numa corrida às armas, na constatação equivocada de que, se não era possível cooperar com eles, a única saída seria fazer uma guerra contra eles. O medo de que os russos atacassem a Europa foi tremendamente exagerado. Suas tropas estavam exaustas ao final da II Guerra, o país estava destruído. Eles não estavam em posição de começar uma nova guerra.

Se eu escrevesse o Longo Telegrama hoje, eu diria que a Rússia vai ter um regime mais democrático, mas que não será uma cópia do sistema americano. Diria que em 1910 havia mais gente na Rússia capaz de entender o que é uma democracia do que atualmente. Que os danos ao país pelas guerras e pelo comunismo não foram infringidos em um dia e seus efeitos não vão ser removidos em um dia.

Ieltsin era boa pessoa. Pelo menos não era corrupto. Mas começou a entender que a maioria das pessoas em torno dele eram. Por mais estranho que pareça, o problema da Rússia derivava do fato de que a queda do comunismo foi muito rápida. Se tivesse sido gradual, provavelmente as poderosas empresas estatais soviéticas teriam tido tempo de aprender como se ganha dinheiro no capitalismo. Como não tiveram, antes que o fim chegasse, os burocratas trataram de salvar a pele e mandaram bilhões de dólares para o exterior. Foi uma pilhagem. Gorbachev tentou fazer a mudança de forma gradual, mas Ieltsin precipitou tudo. Para se livrar de Gorbachev, ele desmantelou a União Soviética por decreto.

* Por George Kennan, diplomata americano, cientista político, historiador, nascido em 1904 e falecido em 2005, foi uma figura importantissima na criação da guerra fria.

terça-feira, junho 08, 2010

A língua do vinho

Existe diferença entre degustar vinho e sempre beber vinhos que você gosta. Essa diferença é que degustar é colocar gosto nas palavras. Não teríamos que nos preocupar com esse detalhe se pudéssemos escolher vinho como quem escolhe queijo na padaria. Pedindo um pedaço pra provar. Deixe-me testar outro, não gostei desse.

“Gostar/não gostar” não precisa do cérebro quando se tem o vinho na sua boca. Mas na maioria das vezes você tem que comprar o vinho sem testar antes. Assim, a não ser que você queira beber o mesmo vinho pelo resto da sua vida, você tem que decidir o que você gosta e o que você não gosta num vinho e comunicar isso a outra pessoa, que pode lhe direcionar pra um vinho que você goste.

Então temos dois problemas. Primeiro, encontrar as palavras para descrever o que você gosta ou o que você não gosta e fazer a outra pessoa entender o que você quer dizer. Naturalmente, isso ajuda se nós falarmos a mesma língua.

Infelizmente, a língua do vinho é um dialeto com um vocabulário indisciplinado e poético, cujas definições mudam todo o tempo, dependendo de quem está falando.
É sabido que os gostos do vinho se revelam sequencialmente, acompanhando o trabalho de reconhecimento da língua e o registro desses gostos no seu cérebro. É recomendado que você siga essa sequência quando se trata de colocar palavras no que você está degustando.

No que se refere a doçura, assim que você colocar o vinho na sua boca, você detecta a doçura ou a ausência dela. Na língua do vinho, “seco” é o oposto de “doce”. No inglês, dry/sweet. Classifique o vinho como doce, seco ou semi-seco (dry/sweet/off-dry).

No que se refere a acidez, todos os vinhos contem uma certa acidez, mas alguns vinhos são mais ácidos do que outros. Acidez é mais um fator de sabor nos vinhos brancos do que nos tintos. Para um vinho branco, a acidez é a espinha cervical do gosto do vinho, pois dá ao vinho uma firmeza na boca. Vinhos com uma quantidade grande de acidez são conhecidos como crispy, e os com pouca quantidade são conhecidos como flabby. Você geralmente percebe a acidez no meio da sua boca. O que os entendedores de vinhos chamam de mid-palate.

No que se refere a ser muito tânico, os vinhos tintos são bem mais tânicos do que os brancos, por causa do maior contato com as cascas da uva. Barris de carvalho também contribuem pro nível de taninos no vinho. Pra generalizar um pouco, os taninos são pros vinhos tintos o que a acidez é pros vinhos brancos: a espinha dorsal.

Os taninos separados podem ser amargos, mas alguns taninos nos vinhos são menos amargos do que outros. Também, outros elementos do vinho como a doçura pode mascarar a percepção de amargura. Você sente o tanino como amargo, ou firmeza, ou riqueza de textura, principalmente na parte de trás da sua boca e se a quantidade de tanino no vinho for alta, você sentirá também na parte interior da sua bochecha e na sua gengiva. Dependendo da quantidade e da natureza dos taninos, você pode descrever o vinho tinto como sendo firme ou suave.

Com relação ao corpo, o corpo do vinho é uma impressão que você tira do vinho inteiro, e não de um básico sabor registrado na sua língua. É a impressão do peso e do tamanho do vinho na sua boca, que é geralmente atribuído a quantidade de álcool do vinho.

Se diz impressão porque 5 ml de vinho na sua boca vai ocupar exatamente o mesmo espaço na sua boca e terá o mesmo peso do que qualquer outro vinho. Mas alguns vinhos parecem ser mais cheios, maiores ou mais pesado na sua boca do que outros. Pense na sensação de encherem sua boca e no peso quando você estiver saboreando. Imagine que sua língua é uma balança bem pequena e julgue quanto pesa o vinho que está lá. Classifique o vinho como encorpado, médio-encorpado e leve-encorpado (full-bodied, medium-bodied e light-bodied).

domingo, junho 06, 2010

Fatos para serem lembrados 4: A morte da princesa Diana

Morria aos 36 anos de idade, em um acidente de carro, a princesa Diana. Conhecida como A Princesa do Povo, a sua morte causou comoção no mundo inteiro. O seu ex-marido, o Principe Charles que foi buscar o corpo dela num quarto de hospital de Paris, onde o acidente ocorreu.

A Mercedes-benz S280 que ela vinha se espatifou a quase 200 kilometros por hora num pilar de um túnel paralelo ao rio Sena. Morreram também o namorado dela, o milionário egípcio Dodi Al Fayed e o motorista. Os paparazzi foram acusados de provocar a velocidade do carro, pra poderem fugir dos seus flashes. Disseram ainda que não prestaram socorro aos acidentados, e em vez disso, ficaram tirando fotos. Nos muros de Paris, os muros estavam escritos: “Paparazzis assassinos!”

Também foi incluído na lista de culpados o hotel Ritz-Carlton, do pai de Dodi Al Fayed, onde eles estavam hospedados. Isso se deu porque o carro estava sendo guiado pelo segundo homem da segurança do hotel, Henri Paul. Esse homem que vinha dirigindo o carro, e que morreu na hora, havia ingerido o equivalente a sete doses de whisky. O esquema de segurança adotado pelo próprio Dody Al Fayed falhou. Segundo contam os especialistas, um motorista só acelera acima dos 100 km/h se o patrão expressamente mandar e alem do que, se o patrão percebe que o sujeito está alcoolizado, como permitir que ele dirija?

Dodi e Diana iriam jantar no restaurante Benoit, mas em vez disso, comem na suite presidencial do próprio hotel. Então decidem passar a noite na casa de Dodi, em vez de ficarem no hotel. Três carros esperavam pelo casal: uma Mercedes S600, um Land Rover e a S280, que eles acabaram indo nela. O outro Mercedes e o Land Rover serviram como despiste. A S280 era alugada e não possuía airbags nas portas e nem o sistema eletrônico de estabilidade, ETS, que é uma espécie de computador de bordo que corrige a trajetória do carro quando o motorista entra muito veloz nas curvas.

Como tentavam despistar os paparazzi, o motorista que normalmente dirigia o casal saiu dirigindo um dos carros vazios. Então Diana e Dodi ficaram pra ir com Henri Paul, de 41 anos, solteiro, piloto diplomado pela Mercedes-Benz num curso de direção defensiva e de transporte de executivos. Ele trabalhava pros Fayed fazia 10 anos. Henri Paul já estava de folga e desceu parte da garrafa de whisky, quando foi chamado de volta à se apresentar ao trabalho. Ele tinha 1,87 grama de álcool por litro de sangue, quatro vezes o que era permitido pela lei francesa.

Um segurança sobreviveu ao acidente, e parece que era somente ele quem vinha usando o cinto de segurança. Como os airbags foram acionados no primeiro choque lateral com a parede do túnel, quando o Mercedes bateu de frente no pilar, não havia mais proteção alguma para os passageiros. Henri Paul havia entrado a mais de 180 kilometros por hora no túnel L’Alma.

Uma rede de televisão francesa pediu ao ex-piloto de fórmula 1 Jean Pierre Beltoise, que corria na época de Emerson Fitipaldi, pra refazer o trajeto e Beltoise disse: só um piloto profissional, com carro de competição e conhecendo a pista, poderia sair ileso do túnel de L'Alma a mais de 180 kilometros por hora.

O primeiro socorro foi feito por um médico que passava por acaso no túnel. Ela ainda estava viva, mas gesticulava caoticamente e balbuciava coisas sem sentido, segundo ele contou depois. Ele não sabia que aquela moça era a Princesa Diana. Então aplicou uma mascara de oxigênio e corrigiu a posição do pescoço, que estava caído sobre o ombro direito, dificultando a respiração. Os bombeiros quando chegaram, levaram uma hora e quinze minutos pra cortar as ferragens e liberar a princesa, que ficou com a perna esquerda presa sob os destroços do banco e do painel do carro, que foram parar no banco de trás.

Enquanto os bombeiros trabalhavam, os médicos deram sedativos e aplicaram massagens cardíacas, pois o pulso dela sumiu duas vezes. Quando ela chegou no hospital, o pulmão esquerdo se encheu de líquido e a cavidade torácica ficou encharcada de sangue em razão do rompimento da veia pulmonar esquerda. A situação era muito grave. Sem sangue pra alimentar o músculo cardíaco, o coração de Diana estava morrendo, exatamente como acontece num ataque cardíaco, quando as coronárias entopem.

O coração parou e não reagia a impulsos elétricos ou drogas de revitalização injetáveis. O peito dela foi aberto num procedimento de urgência e a intervenção estancou a hemorragia da veia pulmonar, o que permitiu ao cirurgião massagear o coração da princesa com as próprias mãos, mas foi inútil. O ventrículo esquerdo estava muito danificado e ela faleceu pouco tempo antes do dia raiar.

quinta-feira, junho 03, 2010

Assalto com calibre .38

Uma das maiores escrotagens que se tem notícia no Brasil nos últimos anos foi a chamada CPMF, que vem uma contribuição provisória sobre movimentações financeiras. O próprio nome já é uma sacanagem: contribuição? Contribuição um cacete. No meu entender, quando uma pessoa contribui com alguma coisa, ela tá fazendo de bom grado e não de forma compulsória.

Já pensou a seguinte cena: o ladrão chega pra tu (no caso o governo) com um 38 engatilhado e diz “malandro, contribui aí com mil reais”. No caso aqui, o 38 nego nem via, era um 38 invisível, que puxava o que? O que? Exatamente 0,38% sobre quase todas as movimentações bancárias de todos os brasileiros. Será que esse 0,38 é uma piada/alusão com a arma tão famosa?

Sim, mas a outra parte da sacanagem do nome é o provisório. Provisório? Também, ninguém leu o dicionário pra achar o significado de provisório. Tu imagina ai um parente que diz que está reformando a casa e quer ficar provisoriamente hospedado na sua casa pra economizar dinheiro caso tivesse que gastar com um novo aluguel. Nessa brincadeira, ele passa 10 anos ancorado por lá. E só saiu porque foi botado pra fora e saiu puto da vida. Então, é mais ou menos assim a historia da CPMF. E ainda se dizia provisória.

Essa esculhambação começou em 1993, ainda no governo Itamar Franco, mas só entrou em vigor em 1994, com o nome de IPMF. Cobrava aliquota de 0,25% e foi extinto no final de 1994, como havia sido previsto. E respeitando o caráter provisório.

Mas em 1997, voltou a vigorar com o nome já de CPMF e cobrando singelos 0,20%. Inicialmente, esse dinheiro ia somente pra saúde, como se os outros impostos já pagos pelos brasileiros não fossem suficientes. Em 1999, a CPMF foi prorrogada até 2002, agora com aliquota do ladrão, ou seja, 0,38%, pois agora também era destinada à Previdência Social. E os hospitais continuavam caindo aos pedaços.

Em 2001, teve uma pequena queda pra 0,30%, mas em 2 meses, voltou ao famoso calibre 0,38. Só deixou de existir como CPMF em final de 2007, quando o PT, puto da vida, perdeu em votação no Legislativo e não teve como usa-la mais. Mas engraçado, justamente o PT, essa cambada de filhos da puta que viviam reclamando de FHC usando a CPMF? Ficaram tão putos quando tiraram o direito deles de usarem?

Agora vejam que beleza. Uma empresa A usa os serviços de uma empresa B e paga 100 reais por esse serviço. Ao realizar esse pagamento, a empresa A paga 0,38 pro governo. A empresa B agora tem 100 reais na sua conta, e vai pagar 100 reais ao funcionário Zezé como salário e paga também os 0,38.

Zezé vai ao supermercado e usa um cheque pra pagar sua conta, afinal, se andar com o dinheiro dando sopa, o ladrão da rua rouba tudo. Melhor ser roubado pelo ladrão governo, que leva somente 0,38. Então o supermercado quando movimentar esses 100 reais, pagará outros 0,38. Então não é mais 0,38 que foram pagos sobre os cem reais e sim 1,52.

As três empresas em questão tem como se defender, pois alocam o preço desse imposto no produto final. E Zezé, como se protege? Zezé entrou pelo cano mais uma vez, como entram todos as pessoas físicas nesse Brasil de Marias e Clarisses.

sexta-feira, maio 21, 2010

Paladar

Depois que você olhou pro vinho e o cheirou, você está finalmente liberado pra prova-lo. Esta é a hora que homens e mulheres fazem caretas, mexendo o vinho dentro da boca, com caras de concentração. Você pode fazer um inimigo pro resto da vida se você atrapalhar um especialista no momento que ele está focalizando suas energias nas últimas gotas de um vinho especial.

É assim que funciona. Tome um gole nem muito grande e nem muito pequeno. Segure-o vinho na sua boca, abra seus lábios e deixe entrar um pouco de ar, sobre o vinho. Então mova o vinho dentro da sua boca como se estivesse mascando chiclete e depois engula. O processo inteiro deve durar alguns segundos, dependendo de quanto você se está se concentrando.

O gosto na língua pode registrar várias sensações, que são conhecidas como os gostos básicos. Estes são doces, ácidos ou amargos. Mas se você mexer o vinho dentro de sua boca, você terá maiores possibilidades de encontrar todas as papilas gustativas, não perdendo nada do que está no vinho.

Ao mover o vinho dentro de sua boca, você também está ganhando tempo. O seu cérebro precisa de alguns segundos pra descobrir o que a língua está sentindo. Qualquer doçura no vinho é registrada no seu cérebro primeiro pois o vinho bate primeiro nas papilas gustativas da ponta da língua. Acidez e amargura são registradas logo em seguida. E enquanto o seu cérebro está trabalhando pra descobrir as impressões de doçura, acidez ou se é amargo, você pode pensar como o vinho está se saindo na sua boca: se é forte, leve, suave, e por ai vai.

Mas acidez, doçura e amargura são as 3 coisas que você pode sentir no seu paladar. Alem de uma impressão geral de peso e textura. Mas e a respeito dos cheiros de morangos, chocolates, por exemplo? Esses cheiros são aromas que você saboreia não com sua língua, mas inalando-os através de uma passagem nasal interior, localizada na parte de trás da sua boca, chamada de passagem retro nasal. Isso acontece quando você deixa o ar entrar na sua boca, então você vaporiza os aromas da mesma forma que se faz quando você gira o copo e faz o vinho respirar.

sábado, maio 15, 2010

Fatos pra serem lembrados 3: A devolução de Hong Kong pra China

A Inglaterra devolveu Hong-Kong à China na segunda metade dos anos 90. A ilha rochosa e um pedaço de terra no continente era um enclave bilionário. O tamanho de Hong-Kong, tudo somado, dá o tamanho da cidade de São Paulo, mais ou menos. Mas que tinha um PIB per capita maior do que a Alemanha e a economia mais sólida do que a da Inglaterra, que controlou Hong Kong por 156 anos.

A devolução de Hong-Kong, que em inglês significa “porto perfumado”, marcava o fim de uma era, a da conquista territorial. Tornou-se inaceitável no mundo moderno que um país arrancasse um pedaço material de outro. Sadam Hussein quando invadiu o Kwait se lembra muito bem das consequências de se querer invadir outro país.

A China cedeu Hong-Kong pra Inglaterra em 1842, resultado das negociações do Tratado de Nanquim, que foi assinado pelos chineses logo depois da derrota militar na chamada I Guerra do Ópio. Em 1898, os ingleses queriam mais território chinês, mas dessa vez no próprio continente. Inventaram uma guerra e tomaram as terras. Mas quando foi negociar novamente, os ingleses aceitaram uma cláusula que dizia que o uso de Hong Kong e da península de Kowloon duraria apenas 99 anos. E esse período acabou em Junho de 1997.

Os ingleses, apesar do colonialismo, fizeram um ótimo trabalho em Hong Kong do ponto de vista financeiro, econômico e de infra-estrutura, que permitiu o extraordinário desenvolvimento de Hong Kong. Nos anos 1930, havia mais telefones por habitantes em Hong Kong do que no Brasil antes das Teles serem privatizadas nos anos 1990. Hong Kong tinha até um sistema judiciário independente.

Sem riquezas, mas com um porto de águas profundas estrategicamente colocado na porta de entrada da Ásia, Hong King definiu logo sua vocação para o livre comércio. Os europeus então construíram ali um arranjo feito pra criar fortunas financeiras. A reclamação era de que riqueza não faz uma civilização. Hong King não tinha um poeta, um filósofo ou um escritor de renome mundial.

Um em cada habitante era viciado em heroína, recorde mundial na época e gastavam 11 bilhões de dólares anuais em apostas em corridas de cavalos, cujos resultados eram todos manipulados. Tinha um PIB per capita de 23 mil dólares, mas o salário médio não passava de 9 mil dólares anuais. Se produzia riqueza, mas a concentração de renda era enorme. Foi isso o que a China recebeu de volta. Foi tambem um ótimo investimento pra China. Será que nao tem nenhum país querendo "alugar" o Brasil?

quarta-feira, maio 12, 2010

O dinheiro verde

Em meados dos anos 90, começou a moda de tudo ser ecológico, de tudo ser “verde” e lógico, junto com essas modas, sempre surgem os “ecopentelhos”, como dizia Roberto Campos e os “ecoladrões”. Começava uma tentativa, necessária até certo ponto, diria eu, de unir economia e ecologia. A ideia inicial soou bem no meio empresarial, que via uma oportunidade de “parecerem” ou “serem” bonzinhos aos olhos da massa e soava bem também pros dirigentes das ONGs, que viam ali uma oportunidade de arrecadar mais algum e não dar satisfação pra ninguém, como elas aprenderam bem a fazer.

Mas pra usar essa união ao máximo, de economia e ecologia, porque não passar a explorar os parques de preservação ambiental? Gera divisas pra economia local e empregos e os turistas politicamente/ecologicamente corretos, adoram fazer esse tipo de programa e mais, contar pros amigos que fizeram um turismo ecológico. Tipo aquele cara que diz que só come orgânicos pros amigos e se acha quase um espírito de luz por fazer isso.

Deu-se o nome desse segmento de “ecoturismo” e o pioneiro nesse tipo de exploração no Brasil foi o Parque do Iguaçu, no Paraná. Dos turistas que vinham ao Brasil nesses meados dos 90, 12% iam pra lá pra ver as cataratas. Nessa época, o Parque do Iguaçu recebeu mais turistas do que o Parque da Tijuca, no rio de Janeiro, que tem como atracão o Corcovado, que vem a ser um cartão postal do país.

Outro segmento desse tipo que surgiu era formado por empresas que reciclavam latinhas. Aqui no Canadá, você junta as suas e coloca num lixo especial. O governo leva e recicla. No Brasil, como se sabia que ninguém ia fazer isso, eles pagavam pra você juntar as latinhas. Tinha um menino que todo mês ia lá em casa buscar umas latinhas. Meu pai juntava todas e entregava todo feliz pro rapazote. Fantástico, não? Os meninos limpavam as ruas de graça pro governo, fazendo o trabalho dos garis e ainda tinha uma empresa privada que pagava por esse serviço. Como vivemos sem isso antes?

O projeto Tamar, aquele das tartarugas, tinha 60% recursos oriundos do Ibama e da Petrobras, 10% de doações e os 30% restantes, arrecadavam quando vendiam camisetas, buttons, chaveiros e CD Roms. Hoje tem tanta tartaruga que virou praga, pior do que a quantidade de cangurus na Austrália. Daqui a pouco vai ter mais tartaruga do que gente. Mas engraçado, um projeto de tartaruga na Bahia. Baiano preguiçoso, tartaruga aquela lentidão toda. Será que tem algo a ver?

Mas rapaz, nesse negócio lucrativo de ser “verde”, mesmo que se você quiser criar animais silvestres pra ter lucro, você pode, basta ter uma autorização do Ibama e ainda dizem que você é visto com bons olhos, pois está ajudando a acabar com a extinção de algumas espécies, como o jacaré do pantanal e a capivara, que chegavam ao mercado somente através dos clandestinos. Você criava jacarés e vendia a carne pra restaurantes, Frigoríficos e supermercados. O negócio é chegar perto deles sem eles morderem.

O mesmo começou a ocorrer com os produtos que não usavam agrotóxicos. Quem entrasse nesse ramo, tinha um público que estava disposto a pagar mais caro só pra se ter um produto com um selo de qualidade ecológica. Era bom pra ecologia e pra mostrar aos seus amigos que você é “cool”. A loucura era tão grande que foi lançado um certificado ISO 14000, que garantia que os detentores desse certificado era uma empresa saudável do ponto de vista sócio-ambiental.

Novamente os baianos. Uma empresa de papel e celulose baiana, a Bahia Sul, foi a primeira empresa a receber o ISO 14000 em todas as Américas. Já pensou? Os baianos são invocados mesmo. Para obter essa certificação, monitora-se desde o número de reclamações da comunidade ao consumo de água e a quantidade de resíduos gerados por produto.

Eu só sei que daqui a pouco tempo, até os filhos vão nascer com o selo ecológico. Feito sem ajuda de químicos ou remédios. De forma natural de acasalamento, sem qualquer ajuda externa. Ô desgraça.

Eu agora estou começando a lidar com o jardim da minha casa, num primeiro sinal de que a velhice está tomando conta de mim. Mas vejam, as ervas daninhas e o mato que teima em crescer na grama não podem ser exterminados com ajuda química, pois não é ecologicamente correto e o governo baniu esses produtoes de serem vendidos nas lojas. Tem-se que arrancar um por um. E aí vamos vivendo, salvando o planeta, enriquecendo os verdes e acabando com o resto do nosso tempo livre, que seria pro lazer, agora só serve pra trabalhar de graça em prol do planeta. E haja paciência.

quarta-feira, maio 05, 2010

Vale a pena ler 26: Sucesso é sorte

Não existe sucesso garantido nesse negócio de literatura. Fico em pânico a cada novo livro. Sempre passa pela minha cabeça a idéia de que não vou vender um exemplar sequer. Então, para me tranquilizar, compro um logo no dia do lançamento. Pelo menos assim ninguém poderá dizer que o livro não vendeu nada. Não acho que seja o detentor de uma fórmula cujos ingredientes eu possa ensinar. O fato é que meus livros agradam tanto a um cientista na Noruega como a um motorista de caminhão na África do Sul, à família real da Inglaterra ou à primeira-dama dos Estados Unidos.

Eu sei que agrado a cada um deles pois recebo milhares de cartas e telefonemas. A rainha Elizabeth II e Hillary Clinton já me disseram pessoalmente que lêem meus livros. Ambas pareciam ter gostado muito. Por isso acho que não existe fórmula. Como posso escrever um livro pensando em agradar ao mesmo tempo a um caminhoneiro, uma dona de casa do Kansas e um nobre? O que faço é seguir uma trilha imaginária de idéias que satisfaçam a minha curiosidade e emoções. O resto é sorte. Mas convenhamos que isso não explica tudo. No fundo acho que o sucesso se deve ao fato de que meus personagens são reais para mim. Eu sinto o que eles sentem.

Muito raramente em me inspiro em pessoas de carne e osso pra compor meus personagens. Eles são todos criados por mim. Têm vida própria na minha cabeça. Outro dia minha mulher, Alexandra, me surpreendeu chorando em nossa casa na Califórnia. Ela me disse: "Querido, o que foi? Fiz alguma coisa errada?" Respondi: "Não, você não tem nada com isso. É um de meus personagens que está enfrentando um problema sério e não sei como tirá-lo dessa encrenca". São de carne e osso para mim. Meus leitores também os consideram assim. Em um de meus livros, eu deixei que um garotinho morresse. Recebi cartas iradas. Alguns leitores me chamaram de assassino.

Fiquei muito tocado com aquilo tudo. Quando o livro foi adaptado para se tornar uma minissérie de televisão, decidi, para felicidade geral, que o menino sobreviveria. Meus personagens são mais reais do que eu. Às vezes sou reconhecido na rua. Mas não tanto quanto, digamos, Kirk Douglas, meu vizinho em Palm Springs. De vez em quando tomamos uns drinques e Kirk lamenta que ele não possa entrar num bar ou fazer compras sem que uma multidão se junte em torno dele. Eu posso caminhar tranquilamente entre as pessoas como se fosse um sujeito comum. Bem, pelo menos até que alguém pronuncie meu nome em voz alta. Enquanto isso não acontece, eu desfruto do melhor dos dois mundos, a fama e a invisibilidade no meio das multidões. Kirk tem uma ponta de inveja disso.

Meu personagem Jeannie, de Jeannie é um Gênio é real pra mim. Servi na Força Aérea quando era jovem e conheço muitos astronautas. Estudei a vida deles da maneira mais próxima que isso pode ser feito, que é convivendo com eles e suas esposas. Jeannie é uma fantasia, é óbvio, mas os militares ali são muito parecidos com os de verdade. Adoro esse seriado.

Já dei bola pra que os críticos diziam, depois parei. Chegaram a dizer que eu fui tão destrutivo pra literatura de cada país como Hollywood foi para os cinemas nacionais. Fazer o que? É a vida.

No Japão, muitas vezes, meus livros são o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto mais vendidos. Fiquei tão grato com meus leitores japoneses que aceitei uma proposta do governo daquele país para escrever uma série de livros em inglês mais simples, que para serem usados para ensinar nosso idioma a crianças e adolescentes. Fiz questão de não cobrar um tostão deles. Claro que para mim também era muito bom porque quando eles crescerem iriam comprar meus romances. Mas não, não dou bola ao que os profissionais escrevem. Já liguei muito no passado. Hoje sou eu quem os critico, e tenho até uma definição muito particular do que seja um crítico.

Um crítico é um sujeito que compra mais de um romance escrito por um mesmo autor. Ou seja, é uma pessoa que investiu seu dinheiro e tempo para voltar a um autor que ele admira. Meus críticos são, então, as pessoas que seguem comprando meus livros e que me deram o recorde de ter vendido 275 milhões de exemplares em trinta anos de carreira. Aquelas pessoas que escrevem para jornais e revistas, em cujas páginas derramam todo seu profundo conhecimento sobre todos os campos do conhecimento humano, e que por isso se sentem no direito de dizer às pessoas o que elas devem ler ou não, são arrogantes. Não me incomodam nem um pouco. Enquanto isso, eu emociono as multidões. Outro dia, uma mulher me ligou para contar que o marido, preso ao leito de morte num hospital, pediu a ela que lesse meus livros para ele sem parar, e que continuasse lendo mesmo quando ele perdesse a consciência. Duvido que um crítico tenha esse tipo de resposta dos leitores.

Talvez os americanos sejam os que mais gostam dos meus livros, mas em quase todo o mundo é a mesma coisa. No Brasil, vivi momentos tocantes. No Recife, um jovem de pouco mais de 20 anos se destacou da enorme fila que se formara numa livraria onde estava autografando meus livros. Ele veio falar comigo. Disse que os pais o chamaram Sidney por minha causa, que se tornara advogado por inspiração de um personagem de um dos meus livros e que estudava inglês para ler minhas obras no original. Mais tarde aparece uma jovem senhora com um bebê no colo, uma menina linda a quem ela dera o nome de uma personagem minha. É emocionante e indescritível. Ficamos tão emocionados, minha mulher e eu, que no dia seguinte fizemos outra sessão de autógrafos. Para ficar mais um dia com o povo no Recife tivemos de recusar os convites insistentes do presidente da República, que na época era Fernando Collor, para que o visitássemos em Brasília. Sua jovem esposa, Rosane, dizia que era minha fã.

Comecei a escrever aos 10 anos e nunca mais parei. Era algo forte dentro de mim. Por meu pai, não teria nem começado. Certa vez, escrevi um poema, botei num envelope e pedi que ele enviasse para um concurso promovido por uma revista infantil. Meu pai achou um absurdo. Muito a contragosto ele botou o envelope no correio, mas substituiu meu nome pelo de um tio. Duas semanas depois, na hora do almoço, meu tio comentou que não sabia por que diabos uma revista tinha mandado para ele um cheque de 10 dólares. Foram os primeiros 10 dólares que ganhei escrevendo. Aos 17 anos já trabalhava nos estúdios de Hollywood. Eles me pagavam 70 dólares por semana para transformar livros em roteiros. Portanto, estou nesse negócio há muitas décadas.

Quando ainda estava vestindo o uniforme da Força Aérea escrevi três musicais para a Broadway. Dirigi Cary Grant e outros astros e estrelas da época. Sou amigo de gente famosa desde muito jovem. Talvez meus críticos, por não saber como essa gente é de verdade, achem meus personagens artificiais.

Sempre fui a mesma coisa. Quando os editores me disseram, pela primeira vez, que um livro meu havia chegado à lista de best-sellers com milhares de cópias vendidas em uma semana, nem me toquei. Meus roteiros e musicais já haviam sido vistos por milhares, minhas minisséries por milhões. Há trinta anos todo livro que eu escrevo entra na lista dos best-sellers.

Não escrevo meus livros. Eu os dito para minha secretária. Posso ditar cinquenta páginas por dia, se for o caso. Por isso, poderia facilmente fazer dois a três livros por ano. Mas não faço. Escrevo um a cada dois anos para manter o padrão.
Depois ela os relê para mim e vou trabalhando nos trechos até me dar por satisfeito. Como não tenho o trabalho braçal de datilografar os textos, sinto-me leve para refazer um mesmo rascunho muitas e muitas vezes até encontrar a forma perfeita.

Também não tenho um esquema predeterminado, uma trama básica que depois vou preenchendo com personagens. Comigo se passa o contrário. Primeiro me vem à mente um personagem e a partir dele é que as ações se desenvolvem.

Não tenho nenhum livro nem mesmo parecido com o outro. O que eles têm em comum é o fato de serem livros sobre pessoas, não sobre coisas, fatos, situações, indústrias. E as pessoas, no fundo, são iguais. A revista Time escreveu certa vez que sou tão poderoso que basta dizer três palavras para que qualquer editora se comprometa a lançar um livro meu. É isso mesmo que acontece, mas não tem nada a ver com poder. Eu ligo para o meu editor e digo, por exemplo, que tenho na cabeça uma jovem e ambiciosa advogada. A partir daí ela começa a viver na minha imaginação. O fato é que os editores confiam em mim e se comprometem com o livro, fazem os adiantamentos e tocam os planos.

Se eu fizesse um livro com um pseudónimo, eu não sei se venderia. No começo acho que seria um encalhe monumental. Depois, se o livro fosse bom, acho que a propaganda boca a boca iria levá-lo à lista de best-sellers. Aliás, não existe nada mais poderoso para um autor do que a propaganda boca a boca. Não existe marketing, propaganda, capa bonita, show de televisão que faça um livro chegar a ser um best-seller.

Eu não leio best-sellers. Esse negócio é tão sério para mim que acho meio estranho ficar entrando no mundo dos outros. Leio Tom Wolfe. Li Somerset Maugham, os clássicos franceses. Há muitos anos não os releio.

Não acredito que meus personagens ensinem nada ao leitor. Meu objetivo é que meus leitores, durante as quatro ou cinco horas que levam para ler um livro, se desliguem do mundo real. Espero que eles se envolvam tanto com os personagens que esqueçam seu cotidiano e façam uma viagem por um mundo fantasioso. Meus livros são feitos para divertir.

Eu também pesquiso muito antes de escrever. Todos os restaurantes, hotéis, hospitais ou cidades que descrevo nos meus livros são exatamente como estão nas páginas. Ontem mesmo fui a Quebec, no Canadá, certificar-me de alguns detalhes da cidade que servirá de cenário para um capítulo do livro que estou escrevendo. Já fui dezenas de vezes a Quebec, mas quero ter certeza quando descrever as cores, os aromas e a arquitetura da cidade. Agências de turismo fazem excursões em que as pessoas são guiadas por locais descritos nos meus livros. Quando eu descrevo um almoço na Guatemala, tenho segurança porque almocei naquele lugar muitas vezes. Cada livro meu é precedido de centenas de entrevistas. E sou eu mesmo quem pesquiso. No fundo, o que me interessa são as pessoas com suas iniquidades, ambições, generosidades e perversões. Exatamente o que elas fazem, onde e como vivem e trabalham não me interessa tanto. E pra quem nunca leu um livro meu, comece pelo "O Outro Lado da Meia-Noite." É um espetáculo.

* Por Sidney Sheldon, escritor americano que mais vendeu livros, nascido em 1917 em Chicago, faleceu em 2007, no seu rancho, na Califórnia.

domingo, maio 02, 2010

Olfato

Agora chega-se uma parte interessante da degustação: girar e cheirar o vinho. Aqui é onde você deixa a sua imaginação correr solta e ninguém pode contradizer você. Se você diz que o vinho cheira a morango pra você, como alguém pode dizer que não cheira?

Antes de explicar o ritual de cheirar e a técnica que vai junto com ele, é necessário dizer que: 1) você não deve aplicar essa pratica pra todo vinho que você toma; b) você não vai parecer tolo ao faze-lo, pelo menos perante os olhos de quem gosta de vinho (o que não se pode dizer pros outros 90% dos humanos) e c) é um truque muito bom nas festas pra evitar que você fale com alguém que você não gosta.

Pra aproveitar ao máximo a sua cheiração, gire o vinho no copo primeiro. Mas não gire se o copo estiver mais do que a metade cheio.

Mantenha o seu copo na mesa e gire-o três ou quatro vezes até que o vinho gire dentro do copo e se misture com o ar. Então rapidamente traga o copo pra perto do seu nariz. Coloque seu nariz dentro do espaço aéreo do copo e cheire o vinho. Tenha uma mente aberta e associe com o que você acha mais próximo.

O aroma é frutificado? Parece com madeira? É fresco? Cozinhado, intenso, leve? O seu nariz fica cansado logo, mas também se recupera logo. Espere um momento e tente novamente. Escute ao comentário de quem está com você e tente encontrar as mesmas coisas que ele encontrou.

Ao girar o vinho dentro do copo, os aromas do vinho irão de vaporizar, então você poderá senti-lo. O vinho tem muitos conjuntos aromáticos que qualquer coisa que você encontrar no vinho provavelmente não será somente fruto da sua imaginação.

O importante por trás desse ritual de girar o vinho e cheira-lo é que o cheiro seja agradável pra você, talvez até fascinante e que você deve se divertir no processo.

Mas, e se você encontrar um cheiro que você não gosta? Nas apreciações de vinhos, você pode escutar palavras pra descrever cheiros, tais como petróleo, fósforo queimado, aspargus, etc.

Felizmente, os vinhos com esses cheiros não serão os vinhos que você irá beber pela maioria das vezes, a não ser que você fique viciado. E se você ficar viciado, passará a pensar que esses aromas nos vinhos certos, pode deixa-los especiais. Mesmo que você nunca venha a gostar desses aromas, você irá identificá-los como características típicas de certas regiões ou certas uvas.

E também existe os maus cheiros que ninguém defende. Não acontece com muita frequência, mas acontece, uma vez que o vinho é um processo natural, um produto agrícola com vontades próprias. Quando o vinho tá ruim, não é aconselhável nem beber. E não significa que você ficaraádoente, mas porque submeter as suas pupilas gustativas ao mesmo sofrimento que o seu nariz? Algumas vezes a culpa é da rolha, ou algum problema quando o vinho estava sendo feito ou estocado. Jogue a garrafa fora e abra outra.

Quando se trata de cheirar o vinho, muitas pessoas se preocupam de não estarem aptas a detectarem aromas diferentes. Mas cheirar o vinho é apenas matéria de prática e atenção. Se você começar a prestar mais atenção ao seu olfato no seu dia-a-dia, você vai ficar melhor na arte de cheirar o vinho.

Algumas dicas pra voce ficar mais esperto na arte de cheirar o vinho:

1) Seja curioso mesmo. Não tenha vergonha. Enfie o seu nariz dentro do espaço aéreo do copo, onde os aromas estão presos.

2) Não use perfume forte, pois ele irá competir com o cheiro do vinho.

3) Não tente cheirar o vinho quando existe outra comida com cheiro forte por perto. Se você pensa que está sentindo cheiro de tomate no seu vinho, esse tomate poderá tranquilamente vindo da macarronada que seu amigo está comendo.

4) Se transforme num cheirador. Comece a cheirar tudo o que você cozinha, tudo o que você come, cheire as verduras e frutas frescas que você compra no mercado, e até mesmo os cheiros do seu ambiente como couro, terra molhada, cheiro de asfalto novo, grama, flores, cachorro molhado, graxa de sapato, remédios, etc. Encha o HD da sua cabeça com cheiros e você criará uma memoria de cheiros que ficara a sua disposicao pra quando você precisar usa-la.

5) Tente técnicas diferentes de cheirar. Algumas pessoas dão fungadas curtas, rápidas, enquanto que outras gostam de dar uma forte e profunda tragada. Manter a boca um pouco aberta enquanto você inala pode ajudar a perceber os aromas. Algumas pessoas inclusive fecham uma narina e só cheiram com a outra.

quinta-feira, abril 29, 2010

Fatos para serem lembrados 2: O primeiro Roland Garros de Guga

Ninguém nunca imaginava que um surfista doidão de 20 anos de idade iria ser o vencedor de um dos torneios mais clássicos do Grand Slam (os outros são Wimbledon, o aberto dos Estados Unidos e o aberto da Austrália) do tennis mundial. Quase ninguém no Brasil tinha a mínima ideia de quem era Gustavo Kuerten, que depois ficaria conhecido como Guga, no país dos apelidos curtos.

Guga chegou ao torneio de 1997 como mais um entre as dezenas de tenistas anónimos que todos os anos se inscrevem pra competição. E Guga foi abatendo um a um que aparecia na frente dele. Ganhou do russo Kafelnikov e do austríaco Thomas Muster, que tinham sido os campeões do torneio em 1996 e 1995, respectivamente. Também ganhou do belga Filip Dewulf na semi final e de Sergi Bruguera na final. Bruguera havia ganho o torneio em 1993 e 1994. No jogo de estreia, ele jogou contra o checo Slava Dosedel.

Na época que Guga ganhou em Roland Garros, Pete Sampras era o número 1 do mundo. Guga era o numero 66. E apesar de Guga ser desconhecido pela torcida e pela imprensa, ele não era tão desconhecido entre os tenistas, afinal havia vencido em outro torneio de 1997 o americano André Agassi e o sul-africano Wayne Ferreira, ambos que estavam entre os 10 melhores do mundo.

Jimmy Arias, ex-tenista americano, disse que fazia tempo que não via um novato com um jogo tão consistente. John McEnroe, também ex-tenista americano, um dos maiores de todos os tempos, disse que Guga tinha talento e personalidade pra ficar no topo. Nessa época, Guga tinha o decimo sétimo saque mais potente do mundo, alcançando 206 kilometros por hora. O mais potente era o do australiano Mark Philipoussis, que chegava a atingir 220 kilometros por hora.

Esse seria o primeiro e mais importante titulo de Roland Garros conquistado por Guga, na minha opinião. Ganhar o segundo e o terceiro foi demais, mas não se comparou à emoção desse primeiro.

sábado, abril 24, 2010

Estrela

Quando eu era pequeno, um brinquedo da Estrela significava uma coisa boa, um produto de elite, um produto sonhado e comentado. Não lembro bem o nome, mas tinha uma loja ali no Centro de Natal, centro este que chamávamos de “cidade”. Esta loja se chamava se não me engano “Loja da Criança” ou algo assim. A Estrela na minha mente estava associada com aquela loja, que na minha cabeça de criança, era ali onde se encontrava o paraíso.

E mesmo durante muitos anos apos a minha infância, um produto da Estrela continuava a ser um produto diferenciado. Mas entrou em dificuldade financeira no começo dos anos 90 e em 1994, fechou o exercício com um endividamento de 48 milhoes de reais junto aos bancos.

Em 1995, vendeu ativos e colocou 9 milhoes no caixa e no final do ano, havia reduzido sua dívida pra 25 milhoes de reais. Mesmo assim, amargou um prejuízo de 69,1 milhoes, que fora o maior registrado nos 56 anos de Estrela até então, ainda que tenha faturado 140,3 milhoes de reais nesse ano.

Em 1996, a empresa vendeu mais ativos e colocou mais 22 milhoes de reais no bolso. Isso aí incluía os 50% que a Estrela tinha no fabricante de jogos eletronicos “Playtronic”, que foi vendida à Gradiente por 7,3 milhoes de reais.

Quem estava no comando dessa recuperacao da Estrela foi Carlos Tilkian, hoje em dia com 51 anos de idade. Tilkian chegou a Estrela em Agosto de 1993 pra assumir a vice-presidencia da empresa. Antes, ele havia trabalhado 17 anos na Gessy Lever.

Em 1995, de uma só tacada, ele comprou 85% do capital votante da empresa. Ele conseguiu o dinheiro fazendo empréstimos pessoais com uma única instituicao financeira, o Itaú. O antigo dono da Estrela embolsou 22,5 milhoes de reais e continuou com 3% do capital votante.

A empresa enfrentou novamente uma crise em meados dos anos 2000, maior ainda do que a crise dos anos 90, por causa da concorrência chinesa e dos custos elevados de producao. Em 2004, a Estrela faturou apenas 80 milhoes de reais e teve um prejuízo de 30 milhoes de reais. Em 2005, teve um faturamento de apenas 57 milhoes e um prejuízo de 37 milhoes.

Nessa época, a líder do mercado era a americana Mattel, dona da Barbie. Em 2006, a Estrela relançou a boneca Susie e retomou o seu caminho de crescimento. Em 2008, teve um faturamento de 108,2 milhoes, embora tenha tido um prejuízo de 24,6 milhoes de reais. Em 2010, a situacao da Estrela pode piorar, pois especula-se a criacao de uma gigante brasileira de brinquedos, que viria a ser uma juncao de outras fábricas do país, alem de uma empresa americana e outra chinesa.

domingo, abril 18, 2010

Vale a pena ler 25: Vizinho argentino

As medidas tomadas por Fernando Henrique durante a crise das bolsas de Hong Kong foram imprescindíveis. Elas causaram algum incômodo no funcionamento da economia argentina, e isso gerou uma pequena queda no crescimento do PIB, mas isso não foi tão prejudicial assim. O mais grave seria se o Brasil não tivesse tomado essas medidas. O Brasil e a Argentina já tiveram experiências de hiperinflação durante governos que não tinham coragem de fazê-lo. Na Argentina, o ex-presidente Raúl Alfonsín vivia anunciando reformas, privatizações e controle de inflação. Não fez nada disso e o governo terminou com uma hiperinflação de 5.000% ao ano, e com o país à beira da desagregação. Se o presidente Cardoso não tivesse adotado essas medidas, os brasileiros teriam de enfrentar uma situação parecida com a que os argentinos viveram naquela época.

Estavamos presos a exigências de organismos internacionais de crédito. O Banco Mundial e o FMI, por exemplo, exigiam dos países que estavam associados em mercados do tipo do Mercosul medidas para eliminar o déficit público, cortar gastos supérfluos e arrecadar mais. O Brasil estava apenas fazendo o que todos tinhamos de fazer.

O Mercosul vivia uma crise diferente, de crescimento. Isso pode até parecer um contra-senso, mas não é. O Mercosul estava crescendo em todos os sentidos: político, econômico, social e internacional. Era uma das regiões mais prósperas do nosso planeta.

A crise mais dura para o Mercosul, e especialmente para a Argentina, foi a que começou no México no fim de 1994 e em 1995. Na época, a Argentina tinha um crescimento de 6%, 7% ao ano. Depois da crise mexicana tivemos uma queda de 4 pontos, e uma fuga de capitais que chegou a 8 bilhões de dólares.

Alguns setores da sociedade argentina, e também da brasileira, tinham medo da desvalorizacao do real, sim. Mas eu, que tinha um contato muito intenso com o presidente Cardoso, não temia isso. Nunca temi. O presidente Cardoso me disse que o Brasil era uma fortaleza e que não haveria desvalorização do real. E, depois que começou a crise e as pressões, ele me garantiu de novo que não haveria desvalorização do real.

No sistema cambial argentino, para cada peso na rua tinha de haver 1 dólar depositado no Banco Central. Isso é que dava uma segurança a nossa economia. Mas nós, presidentes, estamos expostos a muitas pressões e lobbies para desvalorizar as nossas moedas.

De zero a 10, a importância do Brasil para a Argentina é 10. Mas o que existe são relações muito boas, de excelente nível comercial. Há uma complementaridade em nossas economias que tende a se equilibrar. É assim no mundo todo. Com os Estados Unidos, por exemplo, abrimos o mercado para a nossa carne, que antes estava fechado por uma suspeita de febre aftosa. Era um mercado extraordinário que se abria.

O segundo mandato é sempre mais difícil do que o primeiro. A cobrança é maior, e nós temos de ser bem mais perfeccionistas. É preciso ter muito mais cuidado. No meu primeiro mandato estávamos dedicados a fazer um ajuste do Estado. A partir desse processo, poderiamos nos dedicar ao que o Estado realmente deveria fazer. O que é o Estado? A definição mais fácil é: a nação, o povo juridicamente organizado. E o povo se organiza e faz leis para que o Estado possa lhe dar assistência em educação, justiça e saúde. Isso é essencial. Por esse motivo admiro o presidente Cardoso, que entregou a empresas privadas todos os serviços que não estão ligados a esses serviços essenciais do Estado. Devemos fazer isso. O presidente Cardoso fez, mas não é fácil. E temos de conseguir bons resultados.

Um dia, dois caçadores andavam pela floresta quando apareceu um urso muito grande. O mais magro correu mais, sem olhar para trás, e o mais gordo ficou pedindo ajuda ao amigo. Quando viu que estava sozinho e não dava para fugir, fingiu-se de morto. O urso veio, cheirou o gordo, e depois se foi. O caçador mais magro então voltou e perguntou: o que aconteceu, o que disse o urso? Ao que o gordo respondeu: me disse que é para tomar cuidado com os amigos que tenho. Acho que um presidente deve selecionar muito bem sua equipe. Porque, além da honestidade, a lealdade é o bem mais valioso nessas horas. Quem acompanhou Jesus Cristo ao calvário foram só os mais leais, e a partir deles nasceu o cristianismo.

Nunca nenhum governo argentino deu tanta liberdade, tanto direito de opinar à imprensa como eu dei. Quando assumi, todas as TVs e rádios eram do Estado. Nós as vendemos. Mas o que deve fazer uma pessoa quando se sente atacada, ofendida? Tem de recorrer à Justiça. Se existe algum patrimônio político é a honra e a dignidade. Muitas vezes vejo contra mim e meus familiares ataques infundados, agressões sem limite. E ainda existem na Argentina sérios obstáculos a quem quer reparar sua honra. Uma lei diz que a pessoa só pode ser condenada por calúnia ou difamação se ficar provado que ela tinha uma má intenção. Por causa disso, o Estado já perdeu vários processos, e eu mesmo já perdi três contra jornais na Justiça.

Eu tenho como princípio que há responsabilidade na imprensa, mas toda regra tem exceções. E eu continuo lendo absolutamente todos os diários nacionais argentinos. Diariamente, às 7 horas da manhã, lia as notícias, as boas e as ruins para o governo, e as comentava com meu secretário de imprensa. Leio também alguns artigos de jornais de outros países, até do Brasil.

Minha vida depois que me separei é totalmente dedicada ao trabalho e a minha filha Zulema. Como hobby, pratico esportes, ou acompanho os jogos do River Plate, meu time. Trago sempre as fotos de minha filha e de meu filho, que faleceu em um acidente. Ando com o relógio que ele estava usando no dia do acidente. Agora sou eu que o uso, para lembrar dele.

* Por Carlos Menem, ex-presidente argentino de 1989 a 1999.

quinta-feira, abril 15, 2010

Visão

As pessoas apreciam o vinho no copo, percebendo a intensidade do brilho e a forma como ele reflete a luz, tentando decidir precisamente qual é a sombra do vermelho e se ele vai manchar a toalha da mesa pra sempre caso derrame.

Para observar a aparência do vinho, vire uma taça meia cheia de vinho pra longe de você e olhe a cor do vinho contra um fundo branco, como uma toalha de mesa ou um pedaço de papel branco, pois um fundo colorido distorce a cor do vinho.

Observe como ele é escuro ou pálido, qual sua cor, e se as cores vão desaparecendo a partir do centro do vinho até a borda, onde ele toca o copo.

Também perceba se o vinho é nebuloso, claro ou brilhante. A maioria dos vinhos é claro. Alguns vinhos que não são filtrados podem ser menos brilhantes, mas não devem nunca serem nebulosos. Com o tempo, você começa a perceber padrões, como uma cor mais profunda nos vinhos tintos mais novos.

Se você tem tempo pra gastar, você deve então girar o vinho dentro do seu copo e observar o jeito que o vinho corre dentro do copo. Alguns vinhos formam pernas ou lágrimas que fluem devagar. Há algum tempo, essas pernas eram interpretadas como um sinal certo de ser um vinho rico, de alta qualidade.

Hoje em dia, todos sabem que as pernas do vinho são um fenômeno complicado que tem a ver com a tensão da superfície do vinho e a taxa de evaporação do álcool do vinho. Se você é um físico, este é uma ótima oportunidade pra mostrar que você é o cara e explicar esse fenômeno pros seus amigos conhecedores de vinho. Mas se não for um físico, não tire outras conclusões a partir das pernas dos vinhos.

segunda-feira, abril 12, 2010

Contas a prazo

As mudanças que são feitas num país para que ele aos poucos vá se desenrolando não é percebida aos olhos do grande público. Por isso que eu sempre digo que os presidentes Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso prestaram um grande serviço ao país. José Sarney não, esse não sabia nem pra onde ia. Um exemplo do que falo ocorreu em Abril de 1996, poucos meses antes de eu adentrar nos portões (porões?) da UFRN, pra fazer meu curso de administração de empresas.

O governo abria em Abril de 1996, o cadeado que impedia que o brasileiro comprasse à prazo. O Conselho Monetário Nacional liberava somente nessa data, o limite de prestações para operações de crédito, o que antes disso era fixado em no máximo 6 meses. Nesse pacote foi ainda autorizado a utilização do sistema de leasing pra compra de automóveis e utilitários.

A intenção do governo era ajudar o sistema financeiro, empurrando pra ele a demanda por empréstimos, pois o sistema financeiro estava com dificuldade de competir com os sistema informais de crédito. Esse ato estendeu ainda a mão aos bancos estaduais que estavam quebrados, pois permitia que o Banco Central liberasse empréstimos para instituições sob regime de administração especial temporária e com património líquido negativo, como era o caso do Banespa, que possuía património negativo de 4 bilhões de reais na época.

Esse ato, positivo no meu ponto de vista, pode gerar críticas dos intervencionistas, mas na verdade, passava pro setor privado a responsabilidade dos empréstimos e facilitava a engrenagem pra privatização das empresas dinossauros.

quinta-feira, abril 01, 2010

Mortgage rates

Como eu havia dito poucos dias atrás, três grandes bancos canadenses já aumentaram as taxas de juros pras hipotecas residenciais com taxas fixas. E isso vai ser um fato que vai ocorrer com os outros bancos cedo ou tarde. Mas Até agora, quem aumentou as taxas de juros foram: Royal Bank, TD Canada Trust e o Laurentian. Todos eles, saíram de 5,25% pra 5,85%, na taxa fixa pro termo de 5 anos.

Isso significa dizer que um sujeito que tem uma hipoteca de 250 mil num período de amortizacao de 25 anos, irá pagar $1,577.00 por mês. No caso da taxa anterior, de 5,25%, ele estava pagando $1,489.00.

Mas esse movimento não parece estar ligado ao pronunciamento do Bank of Canada, comentado no post anterior. Tem e não tem. O negocio é que o mercado de títulos está se movimentando com a expectativa desse aumento das taxas pelo Bank of Canada e por outros bancos centrais de quase todo o mundo. E as taxas de juros das hipotecas está apenas seguindo esse aumento dos juros dos títulos (bonds), afinal os bancos pedem emprestados no mercado pra financiar essas hipotecas.

O problema é que o mercado internacional ainda não está muito confiante no pacote de ajuda que a Grécia recebeu. E nos Estados Unidos, o que preocupa é o deficit governamental. Por isso os investidores de títulos querem maiores juros, pois consideram os juros de hoje inadequados aos riscos que eles correndo de não receberem seus investimentos de volta.

segunda-feira, março 29, 2010

Na hora certa

Num desses atos de sorte, combinado com um certo planejamento, eu realizei a compra da minha casa em Oakville, se não no momento 100% certo, mas diria que em torno dos 95%. E ao contrário da minha casa de Brampton, eu fiz da maneira certa, me utilizando da taxa de juros fixa, que na época foi de 3,5% ao ano, fechada por 5 anos, sem alterar em nada, mesmo que a taxa de juros praticada vá pra, por exemplo, 7% ao ano ou mais.

Digo que comprei na hora certa, pois desde que eu comprei até hoje, apenas 8 meses depois, o imóvel já valorizou 20% e isso é mais do que espetacular numa economia madura como a canadense. E digo também que comprei da forma certa, pois quem comprou com juros variáveis, bem atraentes na época, que girava em torno dos 2,5%, agora vai começar a suar a camisa. Eles vão começar a subir, de acordo com Mark Carney, o manda-chuva do Bank of Canada, o banco central canadense.

Ele mandou um aviso pros canadenses que as taxas de juros irão subir no meio do verão ou até mesmo antes. Tudo isso porque a inflação e o crescimento económico estão se recuperando mais depressa do que o Banco Central previu. Há mais ou menos um ano, Carney prometeu deixar a taxa de juros a 0,25% até o final desse próximo Junho, com a intenção de combater a recessão. Mas, ele sempre deixou claro que a inflação era um fator que poderia fazer ele mudar de ideia. Segundo ele, o Banco Central tem o objetivo claro de manter a estabilidade dos preços.

Só pra se ter uma idéia de como as taxas de juros podem ter um papel preponderante nos planos de compra de um imóvel, veja o seguinte exemplo. Uma casa de 400 mil, você entrando com 5%, que seria 20 mil, ficaria uma hipoteca de 391,970, pois aqui existe um seguro obrigatório do governo (CHMC) que você tem que pagar caso compre a casa com menos de 20% de entrada.

Digamos que você pagaria o imóvel no prazo máximo permitido pelo governo, que seria 35 anos. Numa taxa de juros de 2,25%, a sua prestação mensal seria de 1,347 dólares. Numa taxa de juros de 5,25%, a sua prestação mensal seria de 2,027 dólares. De lascar, não é?

Então, uma vez que o Banco Central aumenta a sua taxa de juros, os bancos comerciais vão na onda, afinal eles tem que continuar a lucrar e os custos de empréstimos pra os consumidores, compradores de imóveis e negócios em geral irão aumentar. Isso freia a expansão económica e esfria a inflação, embora seja uma operação arriscada, pois se for feita muito rapidamente, pode também freiar a saída do Canada da recessão.

O crescimento económico e o aumento de preços excederam as expectativas nos últimos meses. A taxa de inflação subiu pra 2,1% ao em Fevereiro. Essa taxa é consideravelmente maior do que a que foi prevista por Carney, que pensava que iria ficar em 1.6% e chegar a 2% até o segundo semestre de 2010.

A decisão irá sair em 20 de Abril, quando o banco terá que decidir qual taxa de juros irá usar. Mas ele avisa que cedo ou tarde, as taxas irão subir, isso já é certo. Ele avisa que os canadenses devem procurar saber se poderão arcar com as despesas com uma taxa de juros mais elevada. Mesmo ele acreditando que a inflação geral deu uma subida devido ao alto preço de hotéis em Vancouver, durante as olimpíadas de inverno. Assim, especialistas apontam que no mais tardar em Julho, as taxas irão subir.

Os especialistas dizem que vai ser um tricky call pra Carney, pois como foi dito, ao aumentar as taxas de juros, ele pode freiar a saída da recessão e aumentar o valor do dólar canadense nos mercados de câmbio, dificultando a habilidade dos exportadores de venderem seus produtos no mercado americano, que vem a ser fundamental pros exportadores canadenses. Dia 20 de Abril saberemos mais alguma coisa.

terça-feira, março 23, 2010

Vale a pena ler 24: Poupança é fundamental

Não sei dizer se houve um ataque especulativo contra o real no final de 1997, mas o que houve com certeza foi uma crise em Hong Kong, que levou os investidores a sacar seu dinheiro da bolsa de lá. Ocorre que, com a economia globalizada, o investidor internacional é obrigado a vender ações onde elas têm mais liquidez para cobrir suas posições em outro lugar. Isso provoca queda nas bolsas do mundo inteiro. Foi por isso que as ações caíram também no Brasil. O problema é que, quando o investidor sai do país, seu dinheiro é convertido em dólar. Se esse movimento ocorre em massa, falta dólar no mercado, e pela lei da oferta e da procura, o preço do dólar sobe.

Por isso foi preciso que o governo interviesse, lançando dólares na praça, para manter a paridade da moeda brasileira diante do dólar. Por isso que, nesse sentido, foi preciso defender o real.

As bolsas brasileiras foram as que mais caíram no mundo nesse episodio. Eu tinha parceiros no exterior que estavam interessados em investir no Brasil, e eles manifestaram sua preocupação com a dimensão da queda das ações no país. Mas eu os convenci de que o crash mostrou um lado forte do Brasil. Em parte, a queda das bolsas brasileiras foi grande porque nossas ações tinham muita liquidez. Ou seja, se foram vendidas mais ações aqui, sobretudo da Telebrás, Petrobrás, Telesp e Eletrobrás, que representavam mais de 80% do mercado, é porque havia muitos interessados em comprá-las. Outro fato positivo foi a demonstração de competência do Banco Central para controlar a crise, utilizando as reservas em dólar. Nós podíamos ter sofrido um problema muito mais sério. No México houve desvalorização da moeda de 7%.

Nesse episodio, ficou a lição de que a bolsa brasileira, embora com liquidez, ainda era pequena e concentrada nessas poucas ações mais negociadas. O mercado brasileiro era muito mais nervoso do que os mercados maiores e mais estáveis. Por isso estávamos sujeitos a brutais altos e baixos. Ficou claro também que o Plano Real ainda era dependente demais do dólar, da chamada âncora cambial. Cada vez que acontecesse um problema fora do país, poderíamos ser mais facilmente afetados.

A única forma de consertar o Brasil é fazendo com que o governo, os políticos e nós todos pensemos no país que queremos para nossos filhos. Para tanto, precisamos estabelecer metas muito claras. No terreno da economia, o governo precisaria estimular o brasileiro a fazer poupança. Economizar. É esse dinheiro que vai para os fundos de investimento e dinamiza o mercado de capitais, fazendo crescer e fortalecer as empresas e as bolsas. Assim, seríamos menos vulneráveis à movimentação do capital estrangeiro. Com esse dinheiro poupado é que se fazem investimentos, e com esses investimentos é que a economia do país volta a crescer.

Uma das maneiras de se fazer uma poupança é fazer a reforma da Previdência. É preciso ir na direção da privatização do sistema previdenciário, como o Chile fez. O governo deveria estimular as pessoas a poupar pelo menos 10% do salário todo mês, de forma a fazer uma provisão para o futuro. Ao contrário do que ocorre em países desenvolvidos, no Brasil não há muita gente preocupada em separar uma parte dos seus ganhos com esse fim. Os jovens não pensam nisso. Por fim, o próprio governo, deve sempre equilibrar suas contas, e não consumir poupança.

Eu não fiquei satisfeito com a forma que o Brasil entrou no mercado globalizado. Globalização é uma coisa que devia ter duplo sentido. A globalização para os brasileiros ocorreu num sentido só. Fomos a caça e não caçadores. Num primeiro momento, a compra de empresas brasileiras por empresas globais pode ser conveniente para o consumidor, porque a curto prazo a situação melhora. As empresas que estão vindo são competitivas, a qualidade do produto melhora, o preço diminui. Mas a longo prazo teremos dificuldades. Se a economia brasileira for dominada por empresas globais, que não têm sede aqui, o poder de decisão não estará aqui. Além disso, quando você tem presença em outro país, leva junto o restante da economia. Se você está só no Brasil, tende a ficar cada vez menor.

O governo deveria estimular a formação de grandes conglomerados. O Brasil não tem grandes empresas. A meu ver, a estrutura ideal da economia hoje é formada por grandes empresas em torno das quais giram empresas pequenas e médias. A empresa que tem tamanho tem capacidade administrativa, tecnológica, comercial e preços mais baixos por causa dos ganhos de escala. E as empresas brasileiras não podem competir nesse ambiente. Todos os setores industriais e de serviços estão se concentrando.

O governo deveria favorecer a concentração de empresas em todas as áreas. Em todas. Em qualquer lugar do mundo o Pólo de Camaçari seria uma única empresa. E lá existiam mais de quarenta. Eram quarenta presidentes, quarenta diretores industriais, quarenta diretores financeiros, quarenta diretores comerciais. E com quarenta cada um deles fica numa posição comercial muito mais fraca. É preciso que as empresas brasileiras tenham tamanho e escala suficientes para enfrentar essa globalização. Entretanto, eu tenho a impressão de que o governo parece que é contra isso. Pelo menos o Cade, que é um órgão governamental e veta sistematicamente toda e qualquer reestruturação nesse sentido.

Alegam que tem medo de monopólios privados, mas eu pergunto, Ou o mercado é aberto, globalizado, ou não. Você pode ter uma única empresa brasileira em um setor e não será monopólio enquanto houver a competição com o produto importado.

Mas também não adianta ter empresas grandes se elas estão só no Brasil. Em qualquer lugar do planeta você sai do avião e vê Samsung, Hyundai, Daewoo, Goldstar, todas coreanas. Não há empresa brasileira presente assim no resto do mundo. Vamos fazer uma comparação com a Suécia, país com PIB quatro vezes menor que o do Brasil.

Podemos listar juntos uma série de empresas globais de origem sueca: Scania, Volvo, SKF, Electrolux, ABB, Astra, Ericsson. Elas estão investindo no mundo inteiro, incluindo o Brasil. Qual é a empresa brasileira que está fazendo o mesmo lá fora? Nenhuma. A Vale do Rio Doce é global? Ela exporta, tem a Inco no Canadá, mas não é. A Petrobrás é global? Também não.

As empresas brasileiras deveriam comprar empresas no exterior. Veja o caso do Bradesco, o maior banco privado do Brasil, que comprou o BCN para se defender da chegada da competição internacional. O Santander, um banco da Espanha, país que tinha economia menor que a do Brasil, veio aqui e comprou o Noroeste. E o que o Bradesco comprou lá fora? Nada. O banco pode ficar muito forte internamente, mas continua dependendo de um único mercado. As empresas brasileiras deveriam ter uma política de internacionalização. Essa é na verdade a única maneira de sobreviver no mercado global.

O Brasil tem de fixar-se em metas que eu chamo de transversais. A vantagem dessas metas é que não há quem não as apóie. Esquerda e direita, empresário e trabalhador, todos concordam que são fundamentais para o país. Uma delas é o desenvolvimento. Todo mundo está de acordo que existe o problema do desemprego. Uma das formas de diminuí-lo e de melhorar a distribuição de renda é desenvolver a economia. Talvez uns achem que para fazer isso seja preciso primeiro crescer o bolo para dividir melhor, outros queiram a distribuição logo, mas ninguém pode negar que o desenvolvimento ajuda. Temos de fixar uma meta, por exemplo, dobrar a renda per capita num certo prazo. Para fazer isso é preciso investimento, e se aprendêssemos a poupar já seria um grande passo.

A mais importante meta, na verdade, talvez seja a educação. Não há nenhuma possibilidade de o Brasil ser um país moderno, ter boa distribuição de renda, estar em desenvolvimento, se o povo não tem instrução. Resolver o problema da educação, no entanto, não é apenas dizer que ela é prioridade nacional. É preciso haver enorme mobilização de toda a sociedade em torno disso. Vamos ter de fixar uma meta de quantidade e qualidade do ensino. Temos que aumentar a média de anos que o brasileiro fica na escola, pra no mínimo, oito anos. E trabalhar para que isso aconteça.

Outra meta importante está relacionada ao civismo. Não sei como fazer isso, seria preciso um grande debate, mas o Brasil não pode continuar com as pessoas individualistas do jeito que são. Aqui ninguém está pensando na causa pública. O Brasil precisa votar melhor. Os políticos precisam ser mais competentes e responsáveis. É preciso diminuir a corrupção. A própria educação poderia ajudar a formar o espírito cívico. Mas isso só poderá acontecer com participação muito forte da sociedade. Se as associações de pais e professores fossem mais ativas, por exemplo, a educação poderia ser mais descentralizada e melhoraria. Se não desenvolvermos nossa noção de cidadania, não seremos nunca uma nação forte.
Justify Full
* Por Edson Vaz Musa, que foi o primeiro brasileiro a chegar a presidência de uma empresa multinacional, dona da Rhodia. Hoje em dia é sócio controlador da fábrica de bicicletas Caloi. Faz parte também dos conselhos administrativos da Editora Abril e da Natura.

segunda-feira, março 22, 2010

Apreciar o vinho

Muita gente diz que sabe saborear o vinho pois já beberam muitos e que esse negócio de apreciação de vinho é mais uma coisa somente pra deixar os vinhos mais complicados. E de certa forma eles estão certos. Se uma pessoa pode saber o gosto de um hambúrguer ou de um café, ele pode saber também o gosto de um vinho.

Tudo o que você precisa é de um nariz, de papilas gustativas e de um cérebro. A não ser que você tenha sofrido algum acidente e não consegue cheirar nada, você pode apreciar os vinhos com propriedade. Mas você também tem a habilidade de falar mandarim. Lembrando que ter a habilidade é diferente de saber como fazer uma coisa. E aplicar esse know-how no dia-a-dia é ainda mais diferente.

Você ingere bebidas todos os dias sentindo o gosto delas quando elas passam pela sua boca. Mas no caso do vinho, beber e apreciar não são sinônimos. O vinho é muito mais complexo do que as outras bebidas. Por exemplo, a maioria dos vinhos possui sabores diferentes e sutis, todos ao mesmo tempo e lhe dão sensações múltiplas quando estão na sua boca.

Se você colocar o vinho na sua boca e rapidamente goela adentro como faz com sua Coca-Cola, você estará perdendo muito do que você pagou. Mas se você saborear o vinho, você pode descobrir as suas nuances. Na verdade, quanto mais devagar e atentivamente você saborear o vinho, mais interessante ele vai se apresentar.

Assim, existem duas regras fundamentais ao saborear o vinho: 1) Beba devagar e 2) Preste atenção. O processo de saborear um vinho ou sistematicamente experimentar todos os atributos do vinho possui três passos e os dois primeiros não envolvem sua boca. Primeiro você olha pro vinho e depois cheira. O terceiro passo sim, que você usa o paladar. Mas o olfato e a visão também são fundamentais.

sábado, março 13, 2010

Os mais ricos do planeta

Há alguns dias atrás foi divulgada a lista anual das pessoas mais ricas do mundo pela revista Forbes, a mais respeitada nessa questão. O mexicano Carlos Slim finalmente chegou a posição do homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em 53.5 bilhões de dólares. Em segundo lugar, colado nele, está o homem da Microsoft, Bill Gates de 54 anos, com fortuna estimada em 53 bilhões de dólares. O terceiro homem mais rico do mundo é o oráculo de Omaha, o famoso investidor Warren Buffet, de 79 anos, com fortuna estimada em 47 bilhões de dólares.

O mexicano Carlos Slim foi a primeira pessoa fora dos Estados Unidos a liderar essa lista em 16 anos. O último a liderar que não fosse americano foi o japonês Yoshiaki Tsutsumi, em 1994. Mas desde 1995, Bill Gates vem alternando o lugar com Warren Buffet. Somente eles dois ocuparam o primeiro posto entre 1995 e 2009. Carlos Slim tem 70 anos e criou um império de telecomunicações após comprar uma companhia estatal mexicana há 20 anos atrás. Somente o ano passado o seu património cresceu 18,5 bilhões de dólares.

Somente dois canadenses ocuparam a lista das 100 pessoas mais ricas do mundo. David Thomson ocupou a vigésima posição com 19 bilhões de dólares de patrimônio. A família Thomson é dona de jornais e empresas de comunicações. O outro foi Galen Weston, que ocupou a centésima posição com 7,2 bilhões de dólares. A família Weston é dona de supermercados.

Enquanto isso, o homem mais rico da Ásia, o indiano Mukesh Ambani, de 52 anos, dono de empresas de energia e refinarias, foi o quarto colocado da lista, com fortuna de 29 bilhões de dólares. No ano passado ele foi o sétimo.

Lakshmi Mittal, de 59 anos, também indiano, dono da mais usina de aço do mundo, a ArcelorMittal, saiu da oitava posição no ano passado e hoje ocupa a quinta, com património de 28,7 bilhões de dólares. As ações da sua empresas quase que dobraram no ano passado.

Larry Ellison, de 65 anos, dono da Oracle, caiu de quarto pra sexto esse ano, como fortuna estimada em 28 bilhões de dólares. Bernard Arnault, de 61 anos, dono de uma empresas de marcas de luxo, entre elas a Louis Vitton, é o sétimo homem mais rico do mundo, com fortuna estimada em 27,5 bilhões de dólares. No ano passado ele era o décimo quinto.

A oitava posição ficou pro conhecido ex-marido de Luma de Oliveira. Eike Batista, de 53 anos, possui património estimado em 27 bilhões de dólares. Ano passado ele só tinha 7,5 bilhões e era o 61º da lista. Foi o maior salto que ocorreu na lista desse ano.

O homem mais rico da Espanha, Amancio Ortega, de 73 anos, dono da Inditex, roupas no varejo, foi o nono da lista. Seu património é de 25 bilhões de dólares. Ele era o décimo colocado na lista do ano passado.

Karl Albrecht, do Aldi Group, fechou a lista dos top 10. Ele possui património de 23,5 bilhões de dólares. No ano passado, ele era o sexto. O canadense de Montreal Guy Laliberté, que foi ao espaço agora e que é dono do Cirque du Soleil, ocupou somente a posição de número 374, com seus 2,5 bilhões de dólares.

Outro dado interessante de se notar é que o número de bilionários no planeta cresceu um pouco. Na lista de 2010, temos 1,011 pessoas que possuem mais de um bilhão de dólares. Em 2009, tínhamos apenas 793 bilionários na terra. Resultado de uma crise mundial, pois em 2008, a lista constava com 1,125 bilionários.

O património junto deles é de 3,6 trilhões de dólares. No ano passado foi de apenas 2,4 trilhões e a média entre os bilionários agora é de 3,5 bilhões e o ano passado era de 3 bilhões por cabeça.